quarta-feira, março 27, 2013

O Governo e Feliciano

Faço parte de muitas coisas, mas não sou filiado a partido político institucional. Sou parte de algumas alas de pensamento, mas não estou em nenhuma tendência organizada. Por alguns sou bastante criticado por isso, outros compreendem minhas escolhas. Fiz esse introito porque vou falar de partidos políticos e o seu pode estar entre eles.
Vejo vários membros do PT, do PC do B, do PSB, do PDT e do PMDB, isto é, partidos da base aliada do Governo Federal, se indignarem, legitimamente, pelo disparate que é o fato do Pastor Deputado Feliciano ser presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal. Contudo, não devemos esquecer que a responsabilidade (direta ou indireta) por Feliciano chegar a esse posto é do Governo Dilma e de seus parlamentares que negociaram essa comissão assim como o fizeram com a Comissão de Meio Ambiente do Senado Federal. PT e PMDB priorizaram ocupar espaços em comissões disputadas como a de Constituição e Justiça e a das Relações Exteriores e Defesa Nacional deixando a de Direitos Humanos de lado. Esses dois partidos têm hoje poder de escolher não só as prioridade políticas do país como os espaços representativos no Congresso. 
Em uma inteligente articulação (ou desarticulação), o Governo Dilma deixou que uma aberração como essa, Feliciano presidir a CDHM, acontecesse. Expôs o pastor e a bancada evangélica como um todo e inflamou os movimentos sociais que, com razão, lutam pela saída de Feliciano do cargo. A opinião pública, também com razão, se mobiliza e debate o tema, (aspecto positivo de tudo isso) membros do governo fazem coro a esse bonito levante contra o obscurantismo e o preconceito que o Brasil está assistindo, mas não fica claro que foi por omissão dessa base aliada do governo que isso tudo ta acontecendo. 
Sei que ser militante defensor de um governo de colisão é um desafio que pode chegar a esses labirintos, a contradições como essas. Mas foram os deputados da base aliada, orientados por uma postura estratégica do Governo Dilma, que permitiram a ascensão do Pastor Feliciano e são eles que, por pressão popular, vão ter de tirá-lo do cargo.
Pelo que se está percebendo Feliciano afirma que "só sai morto", agora parece que o trabalho político e regimental vai ser dobrado, tendo em vista que a estratégia de "deixar o povo esquecer" não vai ser eficaz nesse caso. O governo vai ter que, desfazer o que fez, ou se preferirem, concertar o que deixou que fosse feito. 

terça-feira, março 19, 2013

Universitária

Ontem foi muito difícil chegar na 'facul', trânsito cheio e aqueles ônibus e lotações cortando a frente todo tempo. Se bem que na hora que sai da academia, ainda de tarde, pra ir no 'super' o tráfego já era grande, tinha umas carroças travando a passagem também, bem chato. Isso que é tudo bem perto. 
Na aula sempre tem aqueles colegas malas que ficam estendendo discussões ao invés de deixar o 'profe' dar o conteúdo logo, mas também tem professores que gostam de falar bastante sobre coisas nada a ver com o curso, ficam criticando as empresas e tal, mas enfim. 
Me interesso por várias coisas na aula, to pensando em fazer voluntariado com uns colegas em uma associação que ajuda crianças, só não gosto quando começa os assuntos polêmicos. Quase sempre depois da aula passo em casa, como uma salada que a Diva deixa pra mim, olho a novelinha e o BBB, porque ninguém é de ferro, e entro no Face. 
Agora tenho ido a vários lugares legais com as gurias, revezamos a motorista da rodada, mas elas preferem me pegar porque demoro demais pra me arrumar. Tem uma colega que entrou na turma agora e nos sugeriu ir em um barzinho, achei meio chinelagem, pessoal meio estranho, não falei pra ela, mas notei que as gurias não curtiram também. Tanto foi que nem tiramos foto pra postar no instagram, temos registrados todas nossas festas, mas essa era muita queimação. 
Descobri que essa colega nova é bolsista na 'facul' e quando fomos deixar ela em casa, vi que ela mora bem pertinho da casa da Diva, tri coincidência.
Falei pra Diva que tinha uma colega que era vizinha dela, ela me disse que conhece a menina há um bom tempo. Contei que a guria é super querida, mas que gostava de uns filmes diferentes, de saraus e tal. Nada contra, mas essas coisas não são balada mesmo e são entediantes às vezes.  Ela nos contou que participou de uns protestos organizados pela internet, sobre coisas do meio ambiente e feminismo. Falamos que pra quem está no trânsito essas manifestações atrasam a vida e que as mulheres tinham que se preservar mais. Ela nos respondeu que a intenção era impactar e incomodar mesmo. Pela cara das gurias já vi que aquela conversa não iria longe. 
Quem entra no meu face sabe que não to metida nessas coisas de política, mas essa colega fica mandando convites e tem umas fotos que não gosto. Não sei o que fazer com isso, afinal a internet é diversão e coloco ali coisas legais tipo restaurantes e viagens. 
São as diferenças né, é a vida. 

quarta-feira, março 13, 2013

Para entender o caso Feliciano

Para quem não está entendendo o grande apelo na internet pela retirada do pastor e deputado Marco Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal:
Temos algo para aprender e entender!
O que está ocorrendo vem sendo pensado há mais de um ano, uma clara aliança entre a bancada ruralista e a bancada evangélica. Blairo Maggi, um dos maiores produtores de Soja e desmatadores do mundo, foi eleito recentemente presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado com apoio dos evangélicos, em contra partida, Feliciano teve apoio dos ruralistas. 
O que está em jogo? Muitos temas relacionados à demarcação de terras de remanescentes de quilombos, reservas indígenas e áreas de preservação ambiental interessam aos ruralistas, que desejam expandir suas propriedades. A Comissão de Direitos Humanos e Minorias vinha rejeitando projetos que mudassem a legislação  sobre essas matérias, o que, de certa forma, protegia o direito dessas populações. 
Agora, com Feliciano, esses projetos ruralistas tendem a passar e com o controle da Comissão de Meio Ambiente do Senado abri-se caminho para os projetos privados. 
Em troca de passar as pautas ruralista os evangélicos garantem que qualquer projeto das causas gays, transexuais, dos movimentos de caráter étnicos sejam bloqueados. O que impede que se avance nos direitos dos negros, de homossexuais e em temas que envolvam aborto, prostituição e afins. 
Se perde dos dois lados, se coloca em risco direitos fundamentais de minorias, se relativiza garantia constitucional da propriedade de povos citados, se fortalece o obscurantismo conservador e se fomenta o preconceito e a impunidade no principal lugar de representação política do país. 
Por isso era preferível excluir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da  Câmara Federal do que eleger o pastor Feliciano para sua presidência. 
Já no primeiro dia o pastor mudou toda a pauta da reunião da comissão, de todos projetos da nova pauta, metade são de sua própria autoria. 
Esse é o tamanho do problema gente, por isso a mobilização é grande, por isso é importante compreendermos o que ta acontecendo no nosso país. Diretos Humanos e Meio Ambiente não poderiam ser negociáveis, os partidos que compõe o governos federal não poderiam permitir o que está ocorrendo. Como se portou os deputados do seu estado e do partido que você votou?
Sem entender o que está em jogo não seremos capazes de encontrar alternativas para os problemas que estamos enfrentando. 

Gregório Grisa

sexta-feira, março 08, 2013

Chávez, multidão vermelha faz história



Rodrigo Vianna direto de Caracas, 

A multidão nas ruas nem sempre é boa medida para avaliar um sistema político. Existem as multidões enfurecidas, as multidões conduzidas por ditadores. As multidões amorfas.

Acima, vemos a multidão vermelha (foto) que tomou as ruas de Caracas para se despedir de Chavez. Do alto, imagem que impressiona. Mas é preciso baixar à rua e olhar a história da América Latina para compreender de que multidão se trata.

De táxi, eu tentava me aproximar do Forte Tiúna – sede do comando das Forças Armadas da Venezuela, onde ocorre o velório de Hugo Chavez. O motorista que me conduzia olhava a multidão nas ruas e dizia: “quanto estão pagando a essa gente para vir até aqui?” Ah, os taxistas…

Desci do carro, segui a pé com o cinegrafista Josias Erdei. Multidões desciam dos morros. Mães com crianças de colo, homens jovens de mãos dadas com as mães já alquebradas pelas idade, pais conduzindo famílias inteiras pelas ruas. Tristeza, sim, mas sem desespero. E os gritos: “Chavez vive, la lucha sigue”.

Essa é a multidão da democracia, tantas vezes pisoteada na América Latina. Pisoteada no assassinato de Gaitán na Colômbia em 1948, no suicídio de Vargas em 54, nols golpes militares do Cone Sul dos anos 60 e 70. A multidão vermelha de Caracas é a mesma que baixou dos morros, em 2002, e garantiu o mandato de Chávez. Os golpistas tinham as televisões, os empresários, a classe média. Chavez tinha o povão. Ou seria o contrário: o povão tinha Chávez, e dele não abriu mão.

É preciso lembrar sempre: a multidão precede Chávez na história da Venezuela. Não foi Chávez que inventou a multidão, mas a contrário: a multidão é que inventou Chavez.

1989. O governo neoliberal venezuelano anuncia um aumento geral de tarifas. A multidão, sem líder, sem controle, põe fogo em Caracas. O Caracazo era o sintoma de que a multidão retomava o fio da história que os idiotas neoliberais imaginavam extinto.

A multidão do Caracazo gerou o Chavez de 92: líder de uma rebelião frustrada. Depois, viria a vitória chavista nas urnas em 1998. E um governo sustentado pela multidão. Sempre.

Chávez é filho da multidão, por mais que dezenas de pessoas com as quais conversei nas ruas de Caracas tendam a ver o contrário: “era como um pai para nós”. Ah, a eterna necessidade humana de se proteger à sombra de um pai poderoso e justo. Mas quantas vezes são os filhos que – sem perceber – conduzem os pais!

A multidão vermelha de Caracas tem o fio da história nas mãos. Vejo cenas emocionantes nas ruas: gente que chora ao falar o nome de Chávez. E um bordão que se repete, mas que não se desgasta: “Chávez somos todos nós, Chávez é a multidão”.

Na fila que passa lentamente ao lado do caixão, senhoras desesperadas se debruçam, fazem o sinal da cruz. Soldados fardados batem continência. Mas às vezes tudo se inverte: o soldado chora, e mulheres batem continência ao “comandante”.

O taxista do começo do texto, coitado, faz parte de um outro mundo. Preso à lógica mercantil, acredita que as pessoas só se movem quando são “pagas”. Mas a multidão de Caracas se move por outros caminhos. A multidão de Caracas parece disposta a conduzir o fio da história.

Discursos derramados na TV. E de repente o aviso (chocante para mim, confesso) de que Chávez será “embalsamado”. Que apego à figura do líder! Chávez, preso numa urna de cristal, não pode fazer nada. É apenas uma alegoria – algo fantasmagórica – num país em que a história se escreve pelas multidão: em 89 no Caracazo, em 2002 na reação ao golpe, em tantas e tantas eleições… E agora também na despedida do líder.

Dia seguinte, sexta-feira: a multidão interrompe sua lenta caminhada ao largo do saguão onde ocorrre o velório. Agora são os chefes de Estado que prestam homenagem a Chávez. Simbolicamente, Nicolás Maduro ergue uma réplica da espada de Bolívar. E a deposita sobre o caixão.

Bolívar conduzia a multidão. Chávez foi conduzido por ela. A multidão vermelha de Caracas faz história.

Mulher

O ser raiz
casa da força
da vida matriz
de meninos e moças

Doce é a mulher
é mãe, sangra
tem forma, colher
do canto e da dança.


Gregório Grisa

quarta-feira, março 06, 2013

Sobre Chávez e a Venezuela

Vendo a televisão e lendo os jornais brasileiros, concluí que o caso Chávez e a situação da Venezuela é um dos temas que mais sofreram manipulação na história recente. É impressionante como articulistas da grande imprensa conseguem deturpar informações, depreciar, desrespeitar e fazer juízos vazios com base em suas convicções pessoais sobre democracia, economia e afins. Rotulam o ex-presidente venezuelano e o processo político desse país de todos os clichês que o pensamento liberal pode inventar.
Para fins didáticos vou listar aqui apenas alguns momentos de disputa e participação da população nas últimas décadas na Venezuela.

Eleições 

dezembro de 1998 -  Chávez foi eleito com 56% dos votos para presidência do país.

em julho de 1999 - eleições para a Assembléia Constituinte os apoiadores de Chávez - conquistam 120 dos 131 lugares.

2006 - Hugo Chávez foi reeleito presidente com 62.9% dos votos.

2012 - Hugo Chávez foi reeleito com 56% dos votos.

Referendos 

abril de 1999 - 70% dos venezuelanos manifestam-se favoráveis à instalação da Assembleia Constituinte chamada por Chávez.

1999 - A nova constituição foi redigida e, após submetida a plebiscito, é aprovada por 71,21% dos eleitores.

2002 - Chávez sofre golpe de Estado apoiado e articulado pela mídia privada. Em 48 horas volta ao poder por pressão popular. Sobre esse fato há um excelente documentário irlandês chamado "A revolução não será Televisionada".

2003 - A Coordinadora Democrática (uma coligação de partidos de direita e de esquerda, liderados pela Súmate, ONG contra o governo), organizou no final de novembro de 2003 uma recolha de assinaturas cujo propósito era convocar uma consulta popular na qual os venezuelanos se pronunciariam sobre a permanência ou não de Hugo Chávez no poder.

agosto de 2004 - ocorre a consulta e 58,25% dos votantes apoiaram a permanência de Chávez na presidência até ao fim do mandato.

dezembro de 2007 - Referendo sobre mudanças na constituição propostas pelo governo. 51% da população rejeitou as mudanças. O comparecimento às urnas foi de 55,1% e a abstenção de 44,9%.

Esse resumo que faço é no intuito de justificar minha repulsa quando ouço alguns comentaristas chamar Chávez de ditador, de caudilho, de autoritário. Isso além de um atentado a inteligência alheia é um desrespeito com o povo venezuelano e com os processos políticos lá construídos.
Por fim, quero propor um raciocínio simples na busca da imparcialidade possível. Chávez foi um governante corajoso que buscou mudanças de acordo com o que acreditava. Imprimiu seu pensamento sobre gestão, política e humanidade em suas ações, enfrentou interesses gigantescos e trilhou reformas com a radicalidade necessária para que elas acontecessem. Seguiu seus valores e sua ideologia.
Da mesma forma que fez Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, se apoiou em um pensamento neoliberal e privatizou o que pode, diminuiu o poder do Estado porque pensava assim e queria atender a determinados interesses. Assim como vários governos latino-americanos o fizeram, nos anos 90 principalmente.
Discordo frontalmente desses governos, porém, não os acho ditaduras, censores nem autoritários. Eles seguiram um pensamento, um conceito de democracia e de Estado dos EUA (país de dois partidos). Já Chávez, com quem concordo bem mais, seguiu o caminho oposto, teve outra postura diante da noção hegemônica de democracia.
A experiência venezuelana é rica e o país melhorou em todos aspectos, diferente do que se vê divulgado na mídia internacional.
Duas dicas para entender melhor isso:
1 - o livro "A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez" de Gilberto Maringoni.
2 - O documentário já referido "A revolução não será Televisionada"







terça-feira, março 05, 2013

A arte

A arte é um trabalho coletivo até quando produzida de modo isolado. Um escritor no mínimo se relaciona com seus "eus". Mas sem dúvida são as pessoas nas filas, nas ruas da vida e suas histórias que constituem as estórias. Um pintor abstrato pode até deixar a pulsão primeira irracional ser o inicio da obra, mas há retoques, revisões e incisões. A intuição para a arte é a soma da sensibilidade com a capacidade de se expressar de algum modo material. A intuição, na a arte, pode ser considerada a madrinha da linguagem, essa tem outras madrinhas e padrinhos, mas a intuição é sua protetora mais poética. 
A palavra intuição vem de IN, "em", mais TUERI, "olhar para, prestar consideração", logo se olhamos algo ou consideramos alguém não se pode descartar a participação do outro na criação. Ser coletiva é premissa da arte, ser plural na sua individualidade e ser única da sua multidimensionalidade. A arte de todo dia pode ser a grande responsável por transformar os seus dias em arte. Pense nisso. 

sexta-feira, março 01, 2013

Confirmação do eu

Talvez seja verdade que não existimos de fato até que haja alguém para nos ver existindo, não conseguimos propriamente falar até que haja alguém que possa compreender o que estamos dizendo, em essência, não estamos completamente vivos até sermos amados. 
O que significa dizer que o homem é um animal social? Apenas que os humanos necessitam um do outro para se definirem e alcançarem a autoconsciência, de uma forma que moluscos e vermes não conseguem. Não podemos chegar a ter um sensação adequada de nós mesmo se não houver outros ao redor para nos mostrar o que somos. "Um homem pode adquirir qualquer coisa na solidão, menos um caráter", escreveu Stendhal, sugerindo que o caráter tem sua gênese nas reações dos outros às nossas palavras e ações. Nossas identidades fluidas e exigem os contornos proporcionados pelos outros. Para nos sentirmos inteiros, necessitamos da proximidade de pessoas que nos conheçam tão bem quanto nós mesmo, às vezes melhor.
Sem o amor, perdemos a capacidade de possuir uma identidade própria; com o amor, existe uma constante confirmação do eu.

Allan de Botton in Ensaios de Amor pg 107 e 108. Ed L&PM POCKET.

Nem

Nem todo conto conta
a trama do drama
nem toda ponta aponta
a direção da chama



quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Sem fim

Zoé era só lágrimas. Estava experimentando a dor de ser deixada por alguém que dizia que lhe amava. O fato de ser amada, nesse caso, aguçava a dor, a tornava incompreensível. Quem abandona o outro por amor? A casa de Zoé alagou com um caldo cuja mistura tinha mágoa, raiva, desejo, medo, paixão e saudade. Na catarse ela tinha dificuldade de ler qual o ingrediente se destacava, qual era o sabor final de quando se afogava. Todo fim, mesmo não sendo o fim, tem um que de trágico, de catastrófico e de cômico. Zoé queria colocar em suspensão o coração, distraí-lo como as mãe fazem quando as crianças se machucam.

Essa era uma tarefa árdua, tendo em vista que em qualquer movimento que Zoé fazia pela casa, via um presente que ganhou, se esbarrava com uma compra em comum, sentia um cheiro dividido, ouvia um som que a fazia lembrar. É impossível fugir dessa fase, os livros lidos juntos, as viagens, as brigas, as palavras que tinham sentido específico só para o casal, tudo parecia formar aqueles clipes bonitinhos com músicas da internet na cabeça de Zoé. Ela temia perder as energias para continuar seus afazeres profissionais, mesmo sabendo que os seres humanos passam por momentos como esse, tinha receio de não encontrar ninguém que a confortasse tanto quanto aquela pessoa. 

Pensou em se mudar, rever suas amizades, dar uma radicalizada no visual. Momentos como esses, que deveriam ser só para analisar a relação afetiva, ganham proporção existencial. O amor é como o tempo, ao mesmo tempo que é controlado e organizado, também é incomensurável e inexorável. Faz nada virar tudo e tudo se fazer nada. Zoé tinha planos, e se assustava com a ideia de reformulá-los, sentia que faltava um pedaço. Ligou para um amigo que repetia:
- isso acontece, vai passar, como tudo.
É verdade, mas como é fácil dizer isso de fora, sem sentir. Nessa hora, Zoé queria entender o porque, já que nada justificava ela ter sido abandonada por quem a amava, por quem lhe fazia tão bem e vice-versa. A noite ganhava corpo e a casa de Zoé gelava, mais calma e quase sonâmbula ela ouve o barulho da chave abrindo a porta.
De olhos fechados e coberta com a manta do casal no escuro da sala, Zoé escuta a voz embargada dizer:
- eu errei, fui embora de medo de tanto gostar, mas bastou poucas horas pra perceber que não vivo sem ti.
Leila voltara!

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Há(talho)

Santo solto
alado em sonho
corpo gasto
ocupa espaço

Talho forte no sentir
incide e acalma
enfeita a palavra
que é a calha limpa da alma



Gregório Grisa


quinta-feira, fevereiro 21, 2013

O eterno artesanato da felicidade

As coisas mais difíceis de serem feitas são as que realmente desejamos. E são difíceis não só porque somos ambiciosos, mas também porque junto do desejo mora o medo de conseguir, de alcançar. Manter longe o objetivo desejado é justificar para o inconsciente a ação de buscar, a trajetória da sentido pra vida e,  por vezes, nos atemos nela por estarmos seguros no caminho. Porém, corre-se o risco de atolar na estrada ou passar do cruzamento em que deveríamos mudar a rota. 
Estamos em um tempo de afirmação individual, temos de ser inovadores, competitivos, empreendedores, independentes e por nos exigirmos resultados imediatos estamos deixando de lado elementos importantes. Sempre que essa busca desenfreada for conduzida de modo míope, teremos dificuldades de notarmos os efeitos que nossas ações, nossas palavras e nossas posturas produzem no mundo e nos outros. Nossa insegurança respinga, nossa ansiedade transborda, a impaciência que atinge nos torna reféns dos atingidos. Mas não pra sempre.
Nessa soma infinita de coisas que nos constitui é compreensível que não controlemos nem entendamos tudo que nos move, entretanto, nosso mundo ao redor tem escalas de pessoas e coisas queridas e próximas que devem ser prioridade da nossa sensibilidade, do nosso afeto e cuidado. 
Há também as prioridades da nossa ira, ou da raiva, é inegável, esses sentimentos existem. Essas prioridades devem ser coisas e pessoas distantes, aquelas que temos raro contato, que discordamos, que até enojamos. Porque distantes? Pra que não corramos o risco de sermos injustos e confundir as esferas da vida, o afeto e a cordialidade são para o cotidiano, para o "de sempre". Sejamos bravos somente com o raro, o injusto e o distante pra não nos acostumarmos a ser assim com quem não merece e, principalmente, conosco mesmo. 
A gente escreve nossa história, não há clichê mais certo que esse, na maioria dos casos que sentimos impotência para alterar ou reorientar alguns aspectos da vida, não estamos soltos nas mãos do destino ou sem domínio próprio. Só estamos administrando nossa incompletude, administrando com alguma dificuldade, às vezes, mas estamos constantemente nos talhando em contornos de aprender. E é nesse artesanato da razão e da emoção que caímos, que teimamos, que erramos, que reavaliamos, que melhoramos e avançamos. 
Entender e sentir esses passos, prestar atenção nos nossos próprios esforços silenciosos e no dos outros é que é viver. Aprender é diferente de decorar, saber não é só registrar e repetir, mas transformar em realidade o idealizado. Amar é mais que dizer, é materializar em atitudes, gestos e afetos o  refletido e amadurecido na consciência. Todo dia é dia de, o compromisso com a vida e com os outros passa também por situações desconfortáveis e por desafiar nossos orgulhos e crenças. O alento é que esses momentos são minoritários e que, quando as pessoas se gostam, a felicidade também respinga, transborda e nos atinge em cheio.


Gregório Grisa

21/02/2013

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Falso Brilhante


Por Fabrício Carpinejar 

Há o condicionamento de que amor mesmo, de verdade, é gastar metade do salário para a esquadrilha da fumaça assinar o nome da namorada pelos céus de Porto Alegre.

Temos uma noção de que amor mesmo, de verdade, é exibicionista. Depende de surpresas públicas de afeto como serenata na janela, carro de som, anúncios na TV, outdoors com pedido de casamento.

Mulheres e homens se desesperam por um amor público, encantado, de estádio cheio, e cobram provas mirabolantes de seus parceiros. Reclamam da rotina, da previsibilidade, e exigem declarações barulhentas para despertar a inveja do próximo.

O amor espalhafatoso recebe a fama, mas o amor contido é o mais profundo.

Ao procurar o amor empresarial, desprezamos o amor funcionário público, que atende às ligações e escreve nossos memorandos.

Ao perseguir o amor de cinema, desdenhamos o amor de teatro, de quem encena a peça todo dia ao nosso lado, sempre com uma interpretação nova a partir das falas iguais.

Ao cobiçar o amor sensual de lareira e restaurante, apagamos a delícia de comer direto nas panelas, sem pratos, sem medo do garçom.

Ao perseguir a aventura, negamos a permanência.

Preocupados em ser reconhecidos mais do que amar, esquecemos a verdade pessoal e despojada do nosso relacionamento. Recusamos o amor constante, o amor cúmplice.

Não valorizamos a passionalidade silenciosa, a passionalidade humilde, a passionalidade generosa, a passionalidade tímida, a passionalidade artesanal.

O passional pode ser discreto na aparência e prático na ternura.

O amor mais contundente é o que não precisa ser visto para existir. E continuará sendo feito apesar de não ser reparado.

O amor real é secreto. É conservar um pouco de amor platônico dentro do amor correspondido. É reservar as gavetas do armário mais acessíveis para as roupas dela, é deixar que sua mulher tome a última fatia da pizza que você mais gosta, é separar as roupas de noite para não acordá-la de manhã. E nunca falar que isso aconteceu. E não jogar na cara qualquer ação. E não se vangloriar das próprias delicadezas.

Buscá-la no trabalho é o equivalente a oferecer um par de brilhantes. Esperá-la com comida pronta é o equivalente a acolhê-la com um buquê de rosas vermelhas.

São demonstrações sutis, que não dá para contar para os outros, mas que contam muito na hora de acordar para enfrentar a vida.

terça-feira, fevereiro 05, 2013

“Próxima disputa global será pela privacidade das pessoas”

Por Julian Assange no Prefácio de Cypherpunks – Liberdade e o Futuro da Internet, livro recém lançado pela Editora Boitempo. 

A luta do WikiLeaks é uma luta de muitas facetas. Em meu trabalho como jornalista, lutei contra guerras e para forçar os grupos poderosos a prestarem contas ao povo.

Em muitas ocasiões, manifestei-me contra a tirania do imperialismo, que hoje sobrevive no domínio econômico-militar da superpotência global.

Por meio desse trabalho, aprendi a dinâmica da ordem internacional e a lógica do império. Vi países pequenos sendo oprimidos e dominados por países maiores ou infiltrados por empreendimentos estrangeiros e forçados a agir contra os próprios interesses.

Vi povos cuja expressão de seus desejos lhes foi tolhida, eleições compradas e vendidas, as riquezas de países como o Quênia sendo roubadas e vendidas em leilão a plutocratas em Londres e Nova York. Expus grande parte disso e continuarei a expor, apesar de ter me custado caro.

Essas experiências embasaram minha atuação como um cypherpunk. Elas me deram uma perspectiva sobre as questões discutidas nesta obra, que são de especial interesse para os leitores da América Latina. O livro não explora essas questões a fundo.

Para isso seria necessário outro – muitos outros livros. Mas quero chamar a atenção para essas questões e peço que você as mantenha em mente durante a leitura.

Fibras ópticas

Os últimos anos viram o enfraquecimento das velhas hegemonias. Do Magrebe até o Golfo Pérsico, as populações têm combatido a tirania em defesa da liberdade e da autodeterminação.

Movimentos populares no Paquistão e na Malásia acenam com a promessa de uma nova força no cenário mundial.

E a América Latina tem visto o tão esperado despontar da soberania e da independência, depois de séculos de brutal dominação imperial. Esses avanços constituem a esperança do nosso mundo, enquanto o Sol se põe na democracia no Primeiro Mundo.

Vivenciei em primeira mão essa nova independência e vitalidade da América Latina quando o Equador, o Brasil e a região se apresentaram em defesa dos meus direitos depois que recebi asilo político.

A longa luta pela autodeterminação latino-americana é importante por abrir o caminho para que o resto do mundo avance na direção da liberdade e da dignidade. Mas a independência latino-americana ainda está engatinhando.

Os Estados Unidos ainda tentam subverter a democracia latino-americana em Honduras e na Venezuela, no Equador e no Paraguai. Nossos movimentos ainda são vulneráveis. É vital que eles tenham sucesso. Portanto, devem ser protegidos.

É por isso que a mensagem dos cypherpunks é de especial importância para o público latino-americano. O mundo deve se conscientizar da ameaça da vigilância para a América Latina e para o antigo Terceiro Mundo.

A vigilância não constitui um problema apenas para a democracia e para a governança mas também representa um problema geopolítico.

A vigilância de uma população inteira por uma potência estrangeira naturalmente ameaça a soberania. Intervenção após intervenção nas questões da democracia latino-americana nos ensinaram a ser realistas. Sabemos que as antigas potências colonialistas usarão qualquer vantagem que tiverem para suprimir a independência latino-americana.

Este livro discute o que acontece quando corporações norte-americanas como o Facebook têm uma penetração praticamente completa na população de um país, mas não discute as questões geopolíticas mais profundas.

Um aspecto importante vem à tona se levamos em consideração as questões geográficas. Para tanto, a ideia do “exército ao redor de um poço de petróleo” é interessante.

Todo mundo sabe que o petróleo orienta a geopolítica global. O fluxo de petróleo decide quem é dominante, quem é invadido e quem é excluído da comunidade global. O controle físico até mesmo de um segmento de oleoduto resulta em grande poder geopolítico. E os governos que se veem nessa posição são capazes de conseguir enormes concessões.

De tal forma que, em um só golpe, o Kremlin é capaz de condenar o Leste Europeu e a Alemanha a um inverno sem aquecimento. E até a perspectiva de Teerã abrir um oleoduto do Oriente até a Índia e a China é um pretexto para Washington manter uma lógica belicosa.

A mesma coisa acontece com os cabos de fibra óptica. A próxima grande alavanca no jogo geopolítico serão os dados resultantes da vigilância: a vida privada de milhões de inocentes.

Não é segredo algum que, na internet, todos os caminhos que vão e vêm da América Latina passam pelos Estados Unidos. A infraestrutura da internet direciona a maior parte do tráfego que entra e sai da América do Sul por linhas de fibra óptica que cruzam fisicamente as fronteiras dos Estados Unidos.

Palco africano

O governo norte-americano tem violado sem nenhum escrúpulo as próprias leis para mobilizar essas linhas e espionar seus cidadãos. E não há leis contra espionar cidadãos estrangeiros.

Todos os dias, centenas de milhões de mensagens vindas de todo o continente latino-americano são devoradas por órgãos de espionagem norte-americanos e armazenadas para sempre em depósitos do tamanho de cidades.

Dessa forma, os fatos geográficos referentes à infraestrutura da internet têm consequências para a independência e a soberania da América Latina. Isso deve ser levado em consideração nos próximos anos, à medida que cada vez mais latino-americanos entrarem na internet.

O problema também transcende a geografia. Muitos governos e militares latino-americanos protegem seus segredos com hardware criptográfico. Esses hardwares e softwares embaralham as mensagens, desembaralhando-as quando chegam a seu destino.

Os governos os compram para proteger seus segredos, muitas vezes com grandes despesas para o povo, por temerem, justificadamente, a interceptação de suas comunicações pelos Estados Unidos.

Mas as empresas que vendem esses dispendiosos dispositivos possuem vínculos estreitos com a comunidade de inteligência norte-americana.

Seus CEOs e funcionários seniores são matemáticos e engenheiros da NSA, capitalizando as invenções que criaram para o Estado de vigilância.

Com frequência seus dispositivos são deliberadamente falhos: falhos com um propósito. Não importa quem os está utilizando ou como --os órgãos de inteligência norte-americanos são capazes de decodificar o sinal e ler as mensagens.

Esses dispositivos são vendidos a países latino-americanos e de outras regiões que desejam proteger seus segredos, mas na verdade constituem uma maneira de roubar esses segredos.

Os governos estariam mais seguros se usassem softwares criptográficos feitos por cypherpunks, cujo design é aberto para todos verem que não se trata de uma ferramenta de espionagem, disponibilizados pelo preço de uma conexão com a internet.

Enquanto isso, os Estados Unidos estão acelerando a próxima grande corrida armamentista. A descoberta do vírus Stuxnet, seguida da dos vírus Duqu e Flame, anuncia uma nova era de softwares extremamente complexos feitos por Estados poderosos que podem ser utilizados como armas para atacar Estados mais fracos.

Sua agressiva utilização no Irã visa a prejudicar as tentativas persas de conquistar a soberania nacional, uma perspectiva condenada pelos interesses norte-americanos e israelenses na região.

Antigamente, o uso de vírus de computador como armas ofensivas não passava de uma trama encontrada em livros de ficção científica.

Hoje se trata de uma realidade global, estimulada pelo comportamento temerário da administração Obama, que viola as leis internacionais.

Agora, outros Estados seguirão o exemplo, reforçando sua capacidade ofensiva como um meio de se proteger. Neste novo e perigoso mundo, o avanço da iniciativa cypherpunk e da construção da ciberpaz é extremamente necessário.

Os Estados Unidos não são os únicos culpados. Nos últimos anos, a infraestrutura da internet de países como a Uganda foi enriquecida pelo investimento chinês direto.

Empréstimos substanciais estão sendo distribuídos em troca de contratos africanos com empresas chinesas para construir uma infraestrutura de backbones de acesso à internet ligando escolas, ministérios públicos e comunidades ao sistema global de fibras ópticas.

A África está entrando na internet, mas com hardware fornecido por uma aspirante a superpotência estrangeira. Há o risco concreto de a internet africana ser usada para manter a África subjugada no século XXI, e não como a grande libertadora que se acredita que a internet seja.

Mais uma vez, a África está se transformando em um palco para os confrontos entre as potências globais dominantes. As lições da Guerra Fria não devem ser esquecidas ou a história se repetirá.

Momento certo

Essas são apenas algumas das importantes maneiras pelas quais a mensagem deste livro vai além da luta pela liberdade individual.

Os cypherpunks originais, meus camaradas, foram em grande parte libertários.

Buscamos proteger a liberdade individual da tirania do Estado, e a criptografia foi a nossa arma secreta. Isso era subversivo porque a criptografia era de propriedade exclusiva dos Estados, usada como arma em suas variadas guerras.

Criando nosso próprio software contra o Estado e disseminando-o amplamente, liberamos e democratizamos a criptografia, em uma luta verdadeiramente revolucionária, travada nas fronteiras da nova internet. A reação foi rápida e onerosa, e ainda está em curso, mas o gênio saiu da lâmpada.

O movimento cypherpunk, porém, se estendeu além do libertarismo.

Os cypherpunks podem instituir um novo legado na utilização da criptografia por parte dos atores do Estado: um legado para se opor às opressões internacionais e dar poder ao nobre azarão.

A criptografia pode proteger tanto as liberdades civis individuais como a soberania e a independência de países inteiros, a solidariedade entre grupos com uma causa em comum e o projeto de emancipação global.

Ela pode ser utilizada para combater não apenas a tirania do Estado sobre os indivíduos, mas a tirania do império sobre a colônia. Os cypherpunks exercerão seu papel na construção de um futuro mais justo e humano. É por isso que é importante fortalecer esse movimento global.

Acredito firmemente nessa mensagem, escrita nas entrelinhas deste livro, apesar de não discutida em grandes detalhes. A mensagem merece um livro à parte, do qual me ocuparei quando chegar o momento certo e minha situação permitir. Por enquanto, espero que baste chamar a atenção para essa questão e pedir que você a mantenha em mente durante a leitura.

***

[Julian Assange é o mentor do site WikiLeaks]

sexta-feira, janeiro 25, 2013

O BRASIL DOS SEM PARTIDO


         
 Por Heródoto Barbeiro

                        A maioria esmagadora do povo brasileiro não tem nenhum partido político. Apenas quarenta por cento das pessoas declararam apoiar  alguma legenda. Não necessariamente como filiados, mas que votam nesta ou naquela por uma identificação qualquer. Por isso montar um partido não é um bicho de sete cabeças. Bastam umas quinhentas mil assinaturas. Com tanta gente sem nenhuma filiação, ninguém precisa abdicar de suas convicções para apoiar o nascimento de uma nova legenda. Os delegados estaduais e municipais pedem para os amigos, os amigos dos amigos, instalam uma banquinha na praça e em pouco tempo o número mínimo é alcançado. Por sua vez os delegados são recrutados entre possíveis candidatos às próximas eleições e estão a cata de legenda de votos.

                        Não se pergunta qual é o programa, a ideologia, a visão que o partido tem da sociedade brasileira. Depois de atendido o interesse imediato do participante, a questão seguinte é saber quem é ou quais são as estrelas do partido. Quem é o puxador de votos. Quanto o fundo partidário vai por de dinheiro público no novo partido. Quanto tempo de rádio e televisão vai poder usufruir. E por aí vai. Montam- as comissões provisórias nas cidades, geralmente com parentes ou amigos que apenas assinam a ata e só para constar e tudo está conforme a lei. Não é a toa que existem no Brasil mais de trinta partidos. Israel também tem,mas em outro contexto. A cúpula partidária passa a se encarregar de dar as diretrizes do partido e se forma uma oligarquia que se perpetua no poder. Não há disputa de grupos ou de correntes políticas. Há sempre uma composição que segue a máxima corporativa que o melhor é o ganha/ganha.

                        A minoria da sociedade brasileira declara que é filiada a um partido. A grande maioria desconhece até mesmo o que significa a sigla. Estatuto e programa poucos lêem. Pouquíssimas pessoas se dispõem a fazer um trabalho voluntário para angariar adeptos, convencidos que as soluções que o partido tem para os problemas da cidade, do estado ou do páis são boas ou podem ser melhoradas. Há um marasmo geral, seguido de uma letargia política e uma falta de interesse. Falta massa crítica de filiados e apoiadores. Os partidos não são lembrados nem nas eleições. O eleitor lembra do partido do fulano ou do ciclano, ou seja escolhe pela pessoa e não pelo partido. Salvo exceções, é claro. Isto faz os partidos terem uma participação pálida no processo democrático, quando deveria ser o contrário. É nesse batidão que alguns esperam a reforma política do Godot.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

A Venezuela que a mídia esconde


Por Altamiro Borges

O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) da Venezuela divulgou nesta semana que a pobreza extrema no país vizinho caiu de 11,36%, em 2001, para 6,97% no ano passado. Já os lares considerados “pobres” – a metodologia utilizada inclui superlotação, crianças fora das escolas, moradia precária e ausência de serviços básicos – caíram de 21,64% para 17,60%. Para Elías Eljuri, presidente do INE, a nova sondagem confirma os significativos avanços sociais nesta nação latino-americana.

“Por todas as vias examinadas, houve uma redução da pobreza bem importante. Já há estimativas de que a pobreza fechará em torno de 6,5% em 2012”, afirmou o pesquisador. Ele também forneceu detalhes sobre a pesquisa e disse que a aglomeração crítica de pessoas em casas se reduziu de 15,12% a 10,10%; a moradia inadequada de 9, 38% a 8,69% e lares sem serviços básicos de 14,69% a 8,68%. No último ano e meio, a “missão habitação” garantiu 346 mil novas residências e outros conjuntos estão para ser concluídos.

A mídia colonizada, que nestes dias baba com a posse de Barack Obama, evidentemente não vai destacar estas boas notícias. Sobre o país vizinho, os seus “calunistas” somente especulam – e alguns torcem – sobre a morte de Hugo Chávez. Para o desespero dos Mervais e Noblats, nesta semana pintaram notícias sobre a recuperação da saúde do líder bolivariano. A Reuters informou ontem que “ele deve voltar em breve à Venezuela”. Caso seja confirmado, alguns “calunistas” deveriam pedir demissão pelas suas besteiras!

segunda-feira, janeiro 07, 2013

O dilema da Reforma Agrária no Brasil do agronegócio


Por João Pedro Stedile
Da Coordenação Nacional do MST


A sociedade brasileira enfrenta no meio rural problemas de natureza distintos que precisam de soluções diferenciadas. Temos problemas graves e emergenciais que precisam de medidas urgentes. Há cerca de 150 mil famílias de trabalhadores sem-terra vivendo debaixo de lonas pretas, acampadas, lutando pelo direito que está na Constituição de ter terra para trabalhar. Para esse problema, o governo precisa fazer um verdadeiro mutirão entre os diversos organismos e assentar as famílias nas terras que existem, em abundância, em todo o País. Lembre-se de que o Brasil utiliza para a agricultura apenas 10% de sua área total.
Há no Nordeste mais de 200 mil hectares sendo preparados em projetos de irrigação, com milhões de recursos públicos, que o governo oferece apenas aos empresários do Sul para produzirem para exportação. Ora, a presidenta comprometeu-se durante o Fórum Social Mundial (FSM) de Porto alegre, em 25 de janeiro de 2012, que daria prioridade ao assentamento dos sem-terra nesses projetos. Só aí seria possível colocar mais de 100 mil famílias em 2 hectares irrigados por família.
Temos mais de 4 milhões de famílias pobres do campo que estão recebendo o Bolsa Família para não passar fome. Isso é necessário, mas é paliativo e deveria ser temporário. A única forma de tirá-las da pobreza é viabilizar trabalho na agricultura e adjacências, que um amplo programa de reforma agrária poderia resolver. Pois nem as cidades, nem o agro-negócio darão emprego de qualidade a essas pessoas.
Temos milhões de trabalhadores rurais, assalariados, expostos a todo tipo de exploração, desde trabalho semiescravo até exposição inadequada aos venenos que o patrão manda passar, que exige intervenção do governo para criar condições adequadas de trabalho, renda e vida. Garantindo inclusive a liberdade de organização sindical.
Há na sociedade brasileira uma estrutura de propriedade da terra, de produção e de renda no meio rural hegemonizada pelo modelo do agronegócio que está criando problemas estruturais gravíssimos para o futuro. Vejamos: 85% de todas as melhores terras do Brasil são utilizadas apenas para soja/ milho; pasto, e cana-de-açúcar. Apenas 10% dos proprietários rurais, os fazendeiros que possuem áreas acima de 500 hectares, controlam 85% de todo o valor da produção agropecuária, destinando-a, sem nenhum valor agregado, para a exportação. O agronegócio reprimarizou a economia brasileira. Somos produtores de matérias-primas, vendidas e apropriadas por apenas 50 empresas transnacionais que controlam os preços, a taxa de lucro e o mercado mundial. Se os fazendeiros tivessem consciência de classe, se dariam conta de que também são marionetes das empresas transnacionais,
A matriz produtiva imposta pelo modelo do agronegócio é socialmente injusta, pois ela desemprega cada vez mais pessoas a cada ano, substituindo-as pelas máquinas e venenos. Ela é economicamente inviável, pois depende da importação, anotem, todos os anos, de 23 milhões de toneladas  de fertilizantes químicos que vêm da China, Uzbequistão, Ucrânia etc. Está totalmente dependente do capital financeiro que precisa todo ano repassar: 120 bilhões de reais para que possa plantar. E subordinada aos grupos estrangeiros que controlam as sementes, os insumos agrícolas, os preços, o mercado e ficam com a maior parte do lucro da produção agrícola. Essa dependência gera distorções de todo tipo: em 2012 faltou milho no Nordeste e aos avicultores, mas a Cargill, que controla o mercado, exportou 2 milhões de toneladas de milho brasileiro para os Estados Unidos. E o governo deve ter lido nos jornais, como eu... Por outro lado, importamos feijão-preto da China, para manter nossos hábitos alimentares.
Esse modelo é insustentável para o meio ambiente, pois pratica a monocultura e destrói toda a biodiversidade existente na natureza, usando agrotóxicos de forma irresponsavel. E isso desequilibra o ecossistema, envenena o solo, as águas, a chuva e os alimentos. O resultado é que o Brasil responde por apenas 5% da produção agrícola mundial, mas consome 20% de todos os venenos do mundo. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) revelou que a cada ano surgem 400 mil novos casos de câncer, a maior parte originária de alimentos contaminados pelos agrotóxicos. E 40% deles irão a óbito. Esse é o pedágio que o agronegócio das multinacionais está cobrando de todos os brasileiros! E atenção: o câncer pode atingir a qualquer pessoa, independentemente de seu cargo e conta bancária.
Uma política de reforma agrária não é apenas a simples distribuição de terras para os pobres. Isso pode ser feito de forma emergencial para resolver problemas sociais localizados. Embora nem por isso o governo se interesse. No atual estágio do capitalismo, reforma agrária é a construção de um novo modelo de produção na agricultura brasileira. Que comece pela necessária democratização da propriedade da terra e que reorganize a produção agrícola cm outros parâmetros. Em agosto de 2012, reunimos os 33 movimentos sociais que atuam no campo, desde a Contag, que é a mais antiga, MST, Via campesina ,até o movimento dos pescadores, quilombolas, etc., e construímos uma plataforma unitária de propostas de mudanças. É preciso que a agricultura seja reorganizada para produzir, em primeiro lugar, alimentos sadios para o mercado interno e para toda a população brasileira. E isso é necessário e possível, criando políticas públicas que garantam o estímulo a uma agricultura diversificada em cada bioma, produzindo com técnicas de agroecologia. E o governo precisa garantir a compra dessa produção por meio da Conab.
A Conab precisa ser transformada na grande empresa pública de abastecimento, que garante o mercado aos pequenos agricultores e entregue no mercado interno a preços controlados. Hoje já temos programas embrionários como o PAA (programa de compra antecipada) e a obrigatoriedade de 30% da merenda escolar ser comprada de agricultores locais. Mas isso está ao alcance agora de apenas 300 mil pequenos agricultores e está longe dos 4 milhões existentes.
O governo precisa colocar muito mais recursos em pesquisa agropecuária para alimentos e não apenas servir às multinacionais, como a Embrapa está fazendo, em que apenas 10% dos recursos de pesquisa são para alimentos da agricultura familiar. Criar um grande programa de investimento em tecnologias alternativas, de mecanização agrícola para pequenas unidades e de pequenas agroindústrias no Ministério de Ciência e Tecnologia.
Criar um grande programa de implantação de pequenas e médias agroindústrias na forma de cooperativas, para que os pequenos agricultores, em todas as comunidades e municípios do Brasil, possam ter suas agroindústrias, agregando valor e criando mercado aos produtos locais. O BNDES, em vez de seguir financiando as grandes empresas com projetos bilionários e concentradores de renda, deveria criar um grande programa de pequenas e médias agroindústrias para todos os municípios brasileiros.
Já apresentamos também ao governo propostas concretas para um programa efetivo de fomento à agroecologia e um programa nacional de reflorestamento das áreas degradadas, montanhas e beira de rios nas pequenas unidades de produção, sob controle das mulheres camponesas. Seria um programa barato e ajudaria a resolver os problemas das famílias e da sociedade brasileira para o reequilíbrio do meio ambiente.
Infelizmente, não há motivação no governo para tratar seriamente esses temas. Por um lado, estão cegos pelo sucesso burro das exportações do agronegócio, que não tem nada a ver com projeto de país, e, por outro lado, há um contingente de técnicos bajuladores que cercam os ministros, sem experiência da vida real, que apenas analisam sob o viés eleitoral ou se é caro ou barato... Ultimamente, inventaram até que seria muito caro assentar famílias, que é necessário primeiro resolver os problemas dos que já têm terra, e os sem-terra que esperem. Esperar o quê? O Bolsa Família, o trabalho doméstico, migrar para São Paulo?
Presidenta Dilma, como a senhora lê a CartaCapital, espero que leia este artigo, porque dificilmente algum puxa-saco que a cerca o colocaria no clipping do dia.

Fonte: Carta Capital

domingo, dezembro 23, 2012

Bento XVI e as ameaças contra a humanidade


Por Jean Wyllys

O papa Bento XVI disse que o casamento homossexual “ameaça o futuro da humanidade”.

Eu pensava que o que o ameaçava eram as guerras (muitas delas étnicas ou religiosas), a fome, a miséria econômica, a desigualdade e as injustiças sociais, a violência, o tráfico de drogas e de armas, a corrupção, o crime organizado, as ditaduras de todo tipo, a supressão das liberdades em diferentes países, os genocídios, a poluição ambiental, a destruição das florestas, as epidemias… Porém o papa, mesmo ciente de todos esses males e consciente de que sua instituição – a Igreja Católica Apostólica Romana – contribuiu com muitos deles ao longo da história ocidental,  disse que a humanidade é ameaçada pelo fato de dois homens ou duas mulheres se amarem e, por isso, decidirem construir um projeto de vida comum e obter o reconhecimento legal dessa união para gozar de direitos já garantidos aos heterossexuais.

O amor e a felicidade como ameaças contra a humanidade: foi o que afirmou Bento XVI.

O amor, uma ameaça?!

Dentre todos os desatinos do papa, este foi o que mais me chocou. Talvez porque sua afirmação estapafúrdia e anacrônica tenha violado diretamente a minha dignidade humana de homossexual assumido e orgulhoso de minha orientação sexual e de minha formação científica (sim, porque a afirmação de Bento XVI parte da crença absurda de que o casamento civil igualitário vai transformar todos os homens e mulheres em homossexuais e vai impedir que todas as mulheres da Terra recorram às técnicas de reprodução artificial).

Ora, o amor, como a fé, é inexplicável:  sente-se ou não. Não há dicionário que possa defini-lo; só o poeta pode dizer alguma coisa a respeito — fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente — mas para entendê-lo é preciso sentir tudo aquilo que o papa, os cardeais, os bispos e os padres, pelas regras do trabalho que escolheram desde jovens, são proibidos de sentir – seja por outro homem, seja por uma mulher.

Talvez por isso eles não entendem.

Mas o amor nunca poderia ser uma ameaça para a humanidade; antes, sim, uma salvação para os seus piores males, um antídoto contra os venenos que a intoxicam, uma vacina contra as doenças que a afligem. O papa está errado de cabo a rabo. Ele não entendeu nada mesmo.

Contudo, mesmo não entendendo, ele deveria ter um pouco de responsabilidade. Suas palavras têm poder, influência, entram na cabeça e no coração de milhões de pessoas no mundo inteiro. Ele poderia usá-las para fazer o bem. Em vez de dedicar tanto tempo e esforço a injuriar os homossexuais — eu confesso que não consigo entender o porquê dessa obsessão que ele tem com a gente — o papa poderia se colocar na luta contra os verdadeiros males que ameaçam, sim, a humanidade. Esses que matam milhões, que arruínam vidas, que condenam povos inteiros.

Bento XVI não pode continuar difundindo o ódio e o preconceito contra os gays. Ele não pode dizer que nós, só por amarmos, só por reclamarmos que o nosso amor seja respeitado e reconhecido, somos “uma ameaça”. Aliás, porque esse tipo de frases têm uma história. “Os judeus são a nossa desgraça!” (“Die Juden sind unser Unglück!”), disse o historiador Heinrich von Treitschke, e essa desgraçada expressão, publicada na revista alemã Der Sturmer e logo usada como lema pelos nazistas, deu no que deu. Nós, homossexuais, também sabemos disso: o nosso destino na Alemanha nazista, onde Bento XVI passou sua juventude, era o mesmo dos judeus, só que em vez da estrela de Davi, o que nos identificava noscampos de concentração era o triângulo rosa.

A tragédia do nazismo deveria ter servido para aprender que o outro, o diferente, não é uma ameaça, nem uma desgraça, nem o inimigo. E nós, homossexuais, não ameaçamos ninguém. O nosso amor é tão belo e saudável como o de qualquer um. E merecemos o mesmo respeito e os mesmos direitos que qualquer um.

Da mesma maneira que acontece agora com o “casamento gay”, o casamento entre negros e brancos — chamado, na época, “casamento inter-racial” — já foi considerado “antinatural e contrário à lei de Deus” e uma ameaça contra a civilização. Numa sentença de 1966, um tribunal de Virgínia que convalidou sua proibição usou estas palavras: “Deus todo-poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e as colocou em continentes separados. O fato de Ele tê-las separado demonstra que Ele não tinha a intenção de que as raças se misturassem”. O casamento entre alemães “da raça ária” e judeus também foi proibido por Hitler. Até os evangélicos tiveram o direito ao casamento negado em muitos países durante muito tempo, porque eram, também, uma ameaça para a Igreja católica. Parece que alguns pastores não se lembram, mas foi assim.

Na Argentina, que em 2010 aprovou o casamento igualitário, a primeira grande reforma ao Código Civil, no século XIX, foi impulsionada pela demanda dos protestantes, que reclamavam o direito a se casar. Vários casais não católicos se apresentaram na Justiça, como agora fazem os homossexuais. Quando o país aprovou a lei de criação do Registro Civil e, depois, o matrimônio civil, em 1888, houve graves enfrentamentos entre o governo argentino e a Igreja Católica, que incluíram a quebra das relações diplomáticas com o Vaticano. No Senado, um dos opositores ao matrimônio civil disse que, a partir de sua aprovação, perdida a “santidade” do matrimônio, a família deixaria de existir. A lei foi chamada de “obra-mestra da sabedoria satânica” por monsenhor Mamerto Esquiú, quem disse sobre os governantes argentinos da época que “amamentam-se dos peitos da grande prostituta, a Revolução Francesa”. Todas a predições apocalípticas que foram feitas contra a lei de matrimônio civil, no entanto, não se cumpriram. Anunciaram, garantiram que o mundo ia se acabar…  mas o mundo não se acabou.

Passou-se mais de um século, mas as discussões são as mesmas. Os argumentos são os mesmos. E o papa Bento XVI continua sem entender. Não entende, tampouco, que o casamento civil e o casamento religioso são duas instituições diferentes. O casamento civil está regulamentado pelo Código Civil, que pode ser modificado pelo Congresso, já o casamento religioso depende das leis de cada igreja: por exemplo, o casamento católico é diferente do casamento judeu.

O casamento religioso é feito na igreja, templo, mesquita ou terreiro; o civil, no cartório. Para celebrar o casamento religioso na Igreja católica, os noivos devem ser batizados ou fazer um juramento supletório do batismo e devem realizar um curso prévio na igreja – o que não é necessário para o casamento civil, que pode ser celebrado por pessoas de qualquer religião ou por ateus. O casamento religioso, na maioria das igrejas cristãs, é indissolúvel – já o civil admite o divórcio.

Em conseqüência, uma pessoa pode se casar na Igreja apenas uma vez na vida, mas pode casar quantas vezes quiser no cartório, desde que seja divorciada. O casamento religioso, para que produza efeitos jurídicos, deve ser registrado no cartório – os efeitos jurídicos do casamento civil são imediatos. E essas são apenas algumas das muitas diferenças que existem entre o casamento civil e o religioso…
O que nós, homossexuais, reclamamos é o direito ao casamento civil. O projeto de emenda constitucional (PEC) que estou impulsionando no Congresso não mexe em nada com casamento religioso, cujos efeitos jurídicos são reconhecidos no art. 226 § 2 da Constituição, que se manterá inalterado. Meu projeto legaliza o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, mas nada diz sobre o casamento religioso. Da mesma maneira que o Estado não deve interferir na liberdade religiosa, as religiões não devem interferir no direito civil. Este último é uma instituição laica, que deve atender por igual as necessidades daqueles e daquelas que acreditam em Deus — em qualquer Deus ou em vários Deuses — e também daqueles e daquelas que não acreditam.

Chegará o dia no qual uma criança irá à biblioteca da escola para procurar, nos livros de história, alguma explicação sobre um fato surpreendente que o professor comentou em sala de aula: “Até o início do século 21, o casamento entre dois homens ou duas mulheres não era permitido”. Para o nosso pequeno cidadão, essa antiga proibição resultará tão absurda como hoje nos resulta a proibição do casamento entre negros e brancos, ou do voto feminino. E se ele descobrir, na biblioteca, que houve um dia em que um papa disse que o casamento gay ameaçava a humanidade, provavelmente sentirá a mesma repulsa que nós sentimos ao lermos a desgraçada frase de von Treitschke.

Bento XVI deveria pensar se ele quer passar à história dessa maneira. Ainda está em tempo.

Tomara que algum dia ele seja capaz de entender e aceitar o amor — qualquer maneira de amor e de amar — e fazer aquilo que Jesus Cristo pregava: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”.

terça-feira, dezembro 18, 2012

Dobro

Tem sido tão difícil
entender, eu sei
cada um quer gostar
como convêm

Só gostar já não basta
pra seguir bem
ao ceder e apostar
vamos além?

Ser de alguém é
ser de si também?'
Então.
'Ser de alguém é um pouco
 ser seu também'

Se querer de todo
é igual a pertencer em dobro
vou passar a acreditar
em mim de novo

A indecisão, meu medo vão
podem vencer, eu sei
eu perdi a metade em ti
e me achei

'Ser de alguém é
ser de si também?'
Então.
'Ser de alguém é um pouco
 ser seu também'

G - F7+
Bb - F - D#

sexta-feira, dezembro 07, 2012