sábado, dezembro 21, 2013

Machado de Assis ama cinema argentino


Imprimir uma beleza ímpar nas miúdas rotinas, nas vírgulas e nos silêncios pode acontecer em um ensaio, quiçá noutro. No entanto, tornar essa prática a espinha dorsal de toda uma obra é um feito grandioso. O que Machado de Assis tem a ver com isso? O que o cinema argentino tem a ver com isso? E ainda, o que Machado tem a ver com esse cinema? Onde se encontram? Em mim. Por quê?



Memórias Póstumas de Brás Cubas foi o primeiro “livro de gente grande” que tenho lembrança de terminar. Na adolescência concluí-lo era mais importante do que apreciá-lo ou até entendê-lo em sua globalidade. Na releitura o proveito foi maior, então parti para alguns contos e cheguei a Dom Casmurro, encontrei nas tramas de Machado de Assis outro ritmo de dizer as coisas. Bom, é um clássico da literatura de língua portuguesa, não pretendo chover no molhado.

Dotar de beleza coisas cotidianas, pequenas e simplórias é uma qualidade artística, Machado deu aula. E não estou falando de qualquer beleza, nesse caso é como dar um laço de fita na água, é fazer do fio condutor o ator, o personagem principal. Acessar através da literatura essa capacidade do escritor de embelezar o costumeiro, ao lhe dar um ar de permanente inédito, fez com que me sentisse privilegiado. Saborear saber é privilégio.

Pensando no nosso dia a dia, em que muito se confunde informação com conhecimento, se consome grande quantidade de conteúdo, mas pouco se aprofunda, essa sensação que tive é rara. Hoje fizemos a busca rápida, não lemos textos longos e sem grandes atrativos. Hoje priorizamos as extravagâncias, o efêmero transcendeu o fast food e tomou assento em outras práticas, que não só as alimentares.

O filósofo francês Gilles Lipovetsky, em seu livro “A era do vazio”, afirma que vivemos a rotinização da novidade, isto é, nos saciamos rapidamente diante dos materiais, pela farta oferta, e só nos mantemos atentos ou curiosos com o "novo". Daí advém a ideia de perenizar a novidade, mesmo sendo ela superficial ou algo que não saibamos o que representa.

Quando verei beleza nas sutilezas do corriqueiro de novo? Perguntava-me. Estava ansioso para me sentir privilegiado acessando outro tipo de expressão artística. Aconteceu, o cinema argentino. Não repetirei os elogios que fiz a Machado de Assis, mas eles valem para o cinema argentino, que também já é muito reconhecido, logo não serei tautológico.

"O filho da noiva" 2001

Juan José Campanella e Ricardo Darín formam uma das mais virtuosas parcerias do cinema mundial nos últimos quinze anos. Diretor e ator fizeram juntos quatro filmes de um nível muito alto de delicadeza, cuidado, sapiência com os tempos e contratempos e simplicidade. Claro, acompanhados de excelentes elencos, produziram poesia na tela, as traduções para os filmes no Brasil foram: “O mesmo amor, a mesma chuva”, “O filho da noiva”, “O clube da lua” e o “O Segredo dos seus olhos”.

A inteligência convertida em sensibilidade, somada à exuberância das fotografias, roteiros, interpretações, diálogos e silêncios me fizeram ter novamente aquela sensação de quando li "dizem por ai, mas não tenho certeza, que meu sorriso fica mais feliz quando te vejo, dizem também que meus olhos brilham, dizem também que é amor, mas isso sim é certeza", em Dom Casmurro.

"O segredos dos seus olhos" 2009

O foco, às vezes no “desnecessário”, no tangencial faz com que os filmes tenham o fio condutor que acima adjetivei. Esse protagonismo do roteiro, da continuidade mais lenta, apesar das catarses bem encaixadas, deixa à deriva nossa ansiedade coletiva atual do fugaz, do bastante e da vida como um blockbuster. 
A imagem valorizada e avaliada pelo grau de consumo relacionado a ela não tem eco nessas obras, há ali qualquer coisa que tenuemente critica o projeto ético vigente e propõe substituir a política do vender pela política do sentir. 

A definição convencional de estética é “a ciência que trata do belo em geral e do sentimento que ele faz nascer em nós”, é isso, há uma marcante estética nessas películas portenhas que, simplesmente, me faz bem. Arriscaria dizer que nosso ícone literário, o afro-brasileiro Machado de Assis, teria gostado muito desse cinema argentino.

Gregório Grisa



quinta-feira, dezembro 19, 2013

"10 mandamentos" de Luiz Eduardo Soares

Por Luiz Eduardo Soares em seu facebook
No meu caso, a exaustão provocou insônia e vontade de compartilhar meus "10 mandamentos", que podem ser nove ou vinte e um. São minhas crenças, minha religião, algumas coisas que aprendi ao longo da vida:

(1) Prefiro agir, me insurgindo contra o status quo, mesmo errando, do que me resignar a conviver com desigualdades sociais, exploração econômica, opressão política e iniquidades ou injustiças. Mas se me arrisco a errar, que sejam erros novos. Portanto: erremos, mas erremos erros novos. Nada mais melancólico e patético (e regressivo) do que errar erros velhos.

(2) A iniquidade mais profunda e grave --porque estruturante--, na sociedade brasileira, é o racismo. Quatro séculos de escravidão moldaram a matriz a partir da qual as demais desigualdades têm sido formatadas e experimentadas. Por isso, ao contrário do que pensa a maioria de meus colegas, considero as desigualdades sócio-econômicas sobredeterminadas pela tirania da cor. A falta de consciência desse fenômeno, a meu juízo, resulta da naturalização do racismo, um processo violento e perverso.

3) Reconhecer a prioridade do racismo e defender com radicalidade ações afirmativas, como as políticas de cotas, não me levam a ver os meus críticos como necessariamente racistas. Há argumentos legítimos e preocupações respeitáveis contra as posições que defendo. Não concordo com a demonização dos meus adversários políticos, assim como rejeito essa atitude quando tomada pelos críticos das cotas, chamando-nos de "racialistas". Acusações generalizantes impedem o debate necessário e enriquecedor.

4) Não creio que o formato partido-político tenha salvação a médio e longo prazos. Temos de conviver com esse animal bizarro que nunca escapou à lei de ferro da oligarquização, mas recomendo manter ligado o sinal de alerta máximo. Uma democracia menos oca e hipócrita que a nossa, menos manipulativa e cúmplice das iniquidades, terá de mobilizar a imaginação e o protagonismo coletivo para que sejam inventadas novas dinâmicas e novos mecanismos de participação, capazes de submeter o Estado e os agentes econômicos ao controle popular, respeitando-se a liberdade, a diversidade e as minorias.

5) Não conheço, por ora, nenhum repertório de valores mais interessante do que aquele que inspira os direitos humanos. A dignidade da pessoa, entendida e tratada como fim, e não meio, é a pedra de toque para dar sentido às ideias de democracia e justiça. Por isso, a individualidade é uma construção, uma categoria e uma experiência matricial para a construção subjetiva de nós mesmos e de nossa vida coletiva. Não há nenhuma obra da arte ou da ciência mais bela e complexa do que uma pessoa em sua singularidade. 
Daí a importância de sacralizarmos a pessoa (sempre fim, não recurso instrumental, sacrificável em nome de entes supostamente superiores, como a nação, a pátria, a classe, o partido, a revolução, o bem coletivo, a utopia, a religião, Deus, etc…). Valorizar a pessoa em sua individualidade, ou singularidade, significa cultivar e cultuar a diversidade (que não se confunde com desigualdade, como todos sabemos). Por isso, classificar o outro, diagnosticá-lo, dizer quem ou o que ele ou ela é, constitui um ato despótico e brutal. 
Definir o outro equivale a uma espécie de Vodu ontológico e político: espeto o fetiche com o alfinete, cravo um punhal na imagem e condeno a pessoa a não ser senão aquilo que dela se diz. Identificar a essência ou a natureza de alguém implica reduzir a pessoa à qualidade que lhe atribuo, implica também condená-la a repetir para sempre o ato que justificou a classificação. É isso que faz a justiça criminal retributiva, cujas sentenças tomam a qualidade de um ato como espelho da natureza do sujeito. Por isso, afirmo que a privação de liberdade em uma instituição total é antes de mais nada uma prisão sintática, uma vez que liga um sujeito a um predicado, a um verbo, a um ato, de modo exclusivo, unilateral e inseparável.

6) Nosso grande desafio é transcender o antropocentrismo e pensar/viver uma moralidade pluriespecífica e transnatural. Para isso, impõe-se aprender com as sociedades ameríndias, como nos têm ensinado nossos colegas etnólogos, aqueles com quem mais temos a aprender, hoje.

7) A repugnância que me causa a crueldade, a humilhação, o preconceito, é a mesma que sinto ante a brutalidade do Estado, perpetrada por meio de prisões e instituições policiais (essa violência é praticada antes e sobretudo contra os próprios policiais). E é ainda maior quando observo o instituto da punição, suas práticas, sua filosofia, sua estética, sua ética. A punição é a fusão da vingança -o cativeiro do ódio- com a impotência inconsciente de si, ou com a negação da finitude (cujo nome clássico é Hybris ou onipotência). Em resumo, a punição é a troca do sexo (como entrega e destituição de si, renúncia à identidade) pelo poder, é também a substituição da compaixão pela violência, do êxtase pela propriedade.

8) Os valores, por serem belos e defensáveis, inspiradores e legítimos, não necessariamente são suscetíveis de formar uma unidade, não necessariamente são indivisíveis ou complementares. Podem se contradizer, quando aplicados. A política é o espaço em que o bem precisa da razão pública, coletiva, dialógica, negocial, para realizar-se, tanto quanto possa realizar-se. Ou seja, cumpre à política democrática reduzir os danos recíprocos que a aplicação simultânea dos valores pode produzir: o caso exemplar é o choque entre liberdade e igualdade.
Gênero, sexo e corpo se afastarão até esquecerem um do outro, deixando de fazer sentido a geração de identidades como masculino, feminino, heterossexual, homossexual, bissexual ou qualquer outro nome que aprisione a contingência dos afetos, sua complexidade, sua variedade sincrônica e diacrônica.

9) A proibição de drogas, no futuro próximo, causará horror, indignação e incredulidade a qualquer cidadão ou cidadã mediana. Pela irracionalidade, pela hipocrisia, pelo artificialismo contraditório e pelos efeitos genocidas, criminalizando a pobreza. Nesse tempo, que espero não demore, será óbvio que nosso problema crônico com a violência tinha sua origem (a qual ditava as condições de sua reprodução em grande escala) na brutalidade do Estado contra jovens pobres e negros, em territórios vulneráveis. Nesse futuro mais lúcido e menos hipócrita, soará inacreditável que a sociedade brasileira não tenha percebido que o genocídios de jovens negros era o centro de sua agenda. Ou seja, que a questão policial era chave para a democracia.

10) Nem tudo que há na sociedade existe segundo uma vontade e um interesse. Há efeitos de agregação e efeitos perversos -são consequências inesperadas das ações sociais ou que decorrem de suas combinações. Há ignorância -nem tudo é transparente, nem mesmo interesses e os projetos que melhor os expressem e defendam-- e, o mais óbvio e menos lembrado: há o erro. Assim sendo, é um equívoco primário deduzir da existência de cada fenômeno, necessariamente, um sujeito oculto, um interesse subjacente, uma lógica latente, uma finalidade estratégica se desdobrando. 
Portanto, há aquilo que não interessa a nenhum ator social, o que não significa que os mais hábeis e ágeis, os que têm mais poder e condições de atuar, deixem de tentar extrair do que há algum benefício. Entretanto, nem sempre conseguem. Também constitui um equívoco simples, embora bastante comum, mesmo entre aqueles com algum treinamento em ciências sociais, supor que aquilo que existe na sociedade, em expressando o interesse de algum grupo social, fere o interesse de outro grupo social. 
Se o vocabulário adotado é a da dominação, deduz-se que, necessariamente, o que um polo faz nada mais representa senão a reprodução do domínio ou a resistência a esse domínio. Não têm lugar, nessa visão simplificadora, reducionista, totêmica, as hipóteses de de que algo possa servir a propósitos contraditórios ou possa gerar efeitos ambivalentes ou possa suscitar consequências potencialmente duplas ou indefinidas. Ou seja, não cabe no esquema cognitivo reducionista, a ideia de que nem tudo se encaixa, nem tudo é funcional, nem tudo atende a imperativos de um sistema, nem tudo, mesmo se articulando sistemicamente, se conecta a apenas um sistema. 
Quando evoca "o sistema", o pensamento simplificador (que, no fundo, busca uma espécie de pureza maniqueista e certezas finalísticas paranoicas, sonhando mundos em que tudo sempre têm sentido, tudo se encaixa, tudo atende a interesses) sequer se dá ao trabalho de definir sistema, porque, se o fizesse, teria de renunciar ao funcionalismo, pois sistema, enquanto categoria, não exclui desfuncionalidade e contradições, espaços indefinidos, lapsos, intervalos, vazios e irracionalidades --afinal, além de funções, estruturas e dinâmicas, há os atores, há os agentes, que por vezes erram, ignoram e por vezes se autodestróem.

Bem, são apenas anotações insones. Ninguém vai ler um comentário tão longo. Talvez isso seja apenas um desabafo, depois de um ano inteiro ouvindo tantas certezas funcionais sobre o sistema, o capitalismo, a burguesia, o neoliberalismo, e como tudo se explica com tanta singeleza, bastando que o coração bata do lado certo do peito. Quem dera as coisas fossem assim tão simples.Quem dera bastasse pronunciar o nome da besta-fera para que o Outro da besta se revelasse com transparência cristalina. Prefiro a via difícil da dúvida, sempre, e começo sempre perguntando qual é o outro da besta-fera? 
O que sabemos sobre o socialismo que queremos? Se não é nada parecido com o império soviético e seus satélites, se não se confunde com as tiranias que sobraram e que ainda evocam o santo nome do socialismo em vão, se ainda não foi experimentado em escala industrial ou pós-industrial, será que não nos cabe mais humildade cognitiva, mais esforço imaginativo, mais clareza argumentativa? Afinal, está conosco o ônus da prova. Isso não nos deve desanimar, mas certamente recomenda menos arrogância de nossa parte, menos onisciência, menos onipotência, e mais reconhecimento de que está por ser construído o caminho, de que ainda não o conhecemos e de que temos de ser intelectualmente honestos para admiti-lo e politicamente corajosos para explicitá-lo. 

Prefiro quem não sabe a quem tem certeza. E me refiro não só ao projeto estratégico como também às metodologias e aos caminhos. Destes aqui não trato porque já temos assuntos em quantidade e em complexidade suficientes para boas conversas.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Escrever por escrever

Escrever sobre nada. Escrever somente por escrever, sem pretensão de doar racionalidade, de ver nexo em tudo que brota dos dedos, passa das teclas à página virtual. Escrever como ação é traduzir silêncios, diz Mia Couto. 
Escrever hoje quase não é mais ato de "próprio punho", esses ficam pousados, já há até "almofadinhas" para eles. Escrever hoje, em geral, é coisa de ponta de dedo, é unhar um significante gráfico que com seus irmãos alfabéticos formarão um significado. 
Escrever sobre nada é escrever por necessidade. Escrever para ver o que vai ocorrer, esse é o real significado de aventura que vem do latim ad, “a”, mais venire, “vir”, isto é, coisas por acontecer. Se aventurar, como sabem, sucede no ato de ler, em que desejamos descobrir o fim do causo, mas é também ao escrever que o fizemos.
Escrever por escrever é terapêutico, é um ato de autoconhecimento, "eu não escrevo em português, escrevo eu mesmo" assume Fernando Pessoa. Escrever é conversar consigo, papear com nossos outros. 
Podemos ter objetivos para escrever, quase sempre temos um tema, um dilema, um problema ou uma inspiração. Todavia, podemos não ter foco sistemático, escrever como quem atira sem alvo, ao invés de pólvora, palavras.
Escrever para não ser lido, escrever para esquecer, para lembrar. Ser lido é maravilhoso, o retorno de quem analisa o texto é fundamental, mas escrever em si pode ser orgânico, íntimo e só. Escrever como um trabalhoso ócio, sem norte, sem enredo. Escrever para fugir do medo, para encarar o medo, como forma de falar de tudo ou de nada sem ser interrompido. "Escrever é sempre esconder algo de modo que mais tarde seja descoberto" dizia o cubano/italiano Italo Calvino.
Nem sempre é preciso escrever algo que valha a pena ser lido, quantos o fizeram só por fazer e nadam comigo nas correntes da obviedade, no meu caso sem culpa. Escrever pode ser elaborar o ainda não elaborado, ou seja, labor, trabalhar as ideias. Porém, pode ser desorganizar, embrulhar presentes atemporais, pois quiça inutilidades contemporâneas se tornem lampejos e alternativas. 
Escrever na prosa, na poesia, na crônica, no conto, na opinião e na ciência, são ações distintas, claro, mas que precisam umas das outras. Pena que nos escritórios se escreva muito pouco por prazer, quem sabe se está escre-vendo sem ver, sem imaginar. 
Escrever para passar o tempo pode ser um modo de não notar ele passar. Falando sobre seu ofício, Clarice Lispector sentenciou: "escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu".
Escre-vamos?

Gregório Grisa

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Pensamento brasileiro

Por Vladimir Safacle*

No último domingo, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa a respeito do posicionamento ideológico dos brasileiros. Essa não foi a primeira vez que pesquisas dessa natureza foram feitas pelo instituto, mas foi a primeira vez que questões econômicas ligadas à função do Estado, às leis trabalhistas e à importância de financiar serviços públicos apareceram. O resultado foi simplesmente surpreendente.
Se você ler os cadernos de economia dos jornais e ouvir comentaristas econômicos na televisão e no rádio, encontrará necessariamente o mesmo mantra: os impostos brasileiros são insuportavelmente altos, as leis trabalhistas apenas encarecem os custos e, quanto mais o Estado se afastar da regulação da economia, melhor. Durante décadas foi praticamente só isso o que ouvimos dos ditos "analistas" econômicos deste país.
No entanto décadas de discurso único no campo econômico foram incapazes de fazer 47% dos brasileiros deixarem de acreditar que uma boa sociedade é aquela na qual o Estado tem condição de oferecer o máximo de serviços e benefícios públicos.
Da mesma forma, 54% associam leis trabalhistas mais à defesa dos trabalhadores do que aos empecilhos para as empresas crescerem, e 70% acham que o Estado deveria ser o principal responsável pelo crescimento do Brasil.
Agora, a pergunta que não quer calar é a seguinte: por que tais pessoas praticamente não têm voz na imprensa econômica deste país? Por que elas são tão sub-representadas na dita esfera pública?
A pesquisa ainda demonstra que, do ponto de vista dos costumes, os eleitores brasileiros não se diferenciam muito de um perfil conservador. O que deixa claro como suas escolhas eleitorais são eminentemente marcadas por posições ideológicas no campo econômico. Uma razão a mais para que tais posições possam ter maior visibilidade e estar em pé de igualdade com as posições econômicas liberais hegemônicas na imprensa brasileira.
É claro que haverá os que virão com a velha explicação ressentida: o país ama o Estado devido à "herança patrimonialista ibérica" e à falta de empreendedorismo congênita de seu povo. Essa é a velha forma de travestir egoísmo social ressentido e preconceituoso com roupas de bricolagem histórica.
Na verdade, o povo brasileiro sabe muito bem a importância da solidariedade social construída por meio da fiscalidade e da tributação dos mais ricos, assim como é cônscio da importância do fortalecimento da capacidade de intervenção do Estado e da defesa do bem comum. Só quem não sabe disso são nossos analistas econômicos, com suas consultorias milionárias pagas pelo sistema financeiro. 

*Professor do Departamento de Filosofia da USP em sua coluna na Folha de SP.

terça-feira, dezembro 10, 2013

NOVA ESTRATIFICAÇÃO DE RENDA DA POPULAÇÃO BRASILEIRA

Cerca de 180 empresas da Associação brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP)  se reuniram para  construir  uma nova metodologia de estratificação da população brasileira. Eles tomaram como base os dados de renda, e condições de vida da população levantados pelo IBGE.
Embora a estratificação se destine a detalhar mais o perfil dos vários setores sociais, para fins de dirigir pesquisas de opinião,  propagandas de publicidade e estimular consumo de determinados produtos, os dados são muito reveladores. Uma das constatações é de que a população pobre (soma da classe D com a E) é maior do que se verifica na estratificação tradicional.
Vejam a nova  estratificação social,
Classe  A       2,8% da população,  5,6 milhões de pessoas.   renda mensal familiar média de r$ 17.603,00, 64%  tem curso superior.
Classe B1      3,6% da população,  7,2 milhões de pessoas,  renda mensal familiair média  de  r$  10.005,00, e 59% tem curso superior.
A soma das duas, poderia ser a classe proprietaria no campo e na cidade, que totaliza  6,.4% da população  12,8 milhoes.
CLASSE B2   15,1% da população, 30,2 milhões de pessoas, com renda mensal familiair de R$ 4.783,00 e   23% possui curso superior.
Seria a classe média, com 30,2 milhões de pessoas.
CLASSE  C1   20,6 % da população, 41 milhões de pessoas, com renda mensal familiar de  R$ 2.745,00  e  6% tem curso superior.
Seria a classe trabalhadora que melhorou de vida nos ultimos anos.
CLASSE  C2   20,6% da população, 41 milhões de pessoas, com renda mensal familiar de  R$ 1.463,oo e  apenas 1,9% com curso superior.
CLASSE  D     22,8% da população, 56 milhões de pessoas, com renda mensal familiar de  R$  1.019,oo  e apenas  0,1% com curso superior.
CLASSE E      14,5% da população, 29 milhões de pessoas, com renda mensal familiar de  R$ 673 reais, e apenas   0,2 % com curso superior.
Total da classe trabalhadora 167 milhões de brasileiros.
Fonte: Jornal Valor econômico, 9 dez 13.

domingo, dezembro 08, 2013

O que é o individualismo hoje? Qual seu papel?







Está mais que "manjado" dizer que o individualismo é um valor cultural hegemônico do nosso tempo, dessa hipermodernidade (Gilles Lipovetsky), ou modernidade líquida (Zygmunt Bauman) que vivemos.

O sufixo "ismo" vem do grego - ismós - e significa uma ideologia, um sistema a ser seguido, ou também, na área médica,  quer dizer patologia, doença. No caso do individualismo que trato aqui, significa as duas coisas.
Braço do modo de produção capitalista, ente necessário para sua reprodução excludente, o individualismo de hoje já é uma deturpação do que o próprio iluminismo reivindicara com a noção de "indivíduo", ligada a ideia do "Homem" de direitos cuja individualidade e propriedade deveria ser respeitada. O individualismo tão pouco é um contraponto conservador a algum tipo de coletivismo, que seria um princípio mais humanista ou socialista, pois já não tem de competir com os valores do bloco comunista como fez em boa parte do século XX.
A versão neoliberal do individualismo tem como base a crença de que a distribuição dos recursos materiais e da estima social ocorre através das escolhas racionais e esforços dos indivíduos. Ou seja, crê que a sociedade é o conjunto de interesses e vontades individuais e devem "vencer" aqueles que melhor se adaptam ao seu funcionamento. A teoria da escolha racional ou a teoria do agente principal são algumas que sustentam filosoficamente o individualismo que vivemos.
O individualismo contemporâneo cumpre dois papéis fundamentais:

1- Culpabilizar o indivíduo pelos seus fracassos. (Meritocracia levada as últimas consequências, parte do pressuposto que a sociedade precisa de vencedores e vencidos e que esse formato  é o único possível.)
2 - Inviabilizar e dificultar concretamente a valorização de identidades coletivas. (Ideologia que não tolera qualquer tentativa de organização de grupos sociais em torno de uma identidade ou de tema comum).

O individualismo produz pessoas que condenam a identificação regular de discriminações e desigualdades como o racismo, a homofobia e o machismo, acusam os agentes ou grupos que o fazem de criarem teorias conspiratórias, de coitadismo, de patrulha do politicamente correto. 

O individualismo produz pessoas que acham bobagem o dia da consciência negra, direitos de comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhos ou movimentos LGBT. Pessoas que acreditam realmente, por exemplo, que ser um povo miscigenação significa viver em democracia ou harmonia racial.
O individualismo como valor tem tal poder sim, inculca nas pessoas a ideia de que se vive uma livre e leal concorrência no palco da vida. Que todos que se esforçam conseguem "chegar lá", logo qualquer denúncia de elementos impossibilitadores do "sucesso" pautada em alguma dimensão coletiva ou identitária, não passa de "desculpa" ou "neurose exagerada" daqueles que não são capazes de "ser alguém na vida". 

Gregório Grisa

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Mandela



Mandela, ser humano que nos prova que podemos ser grandiosos como espécie. Já estava na história, viveu bastante, que bom. Hoje, além disso, vira mito, uma unanimidade. Será homenageado por alguns que nem conhecem seu papel na história, talvez até por racistas. 

Uniu força e habilidade, firmeza e flexibilidade política, fez da busca pela paz sua guerra. Salve o continente africano, a luta anti-racista e um dos seus grandes protagonistas.
Sua morte pode ser um grande momento pedagógico, não só para buscáramos conhecer o passado, mas para pensarmos sobre o que, daquilo contra o qual Mandela lutou, permanece no presente. 

"Este é um mundo de grandes promessas e esperanças. Também é um mundo de desespero, doença e fome. Superar a pobreza não é um gesto de caridade. É um ato de justiça. É a proteção de um direito humano fundamental, o direito à dignidade e a uma vida decente." Mandela em julho de 2005.

terça-feira, dezembro 03, 2013

Chega de feminismo em tudo* (Como pensa um machista)

Fico me perguntando porque tanta lamentação das mulheres nas redes sociais, todos os dias se arranja um motivo para exercer o feminismo. Hoje em dia já há quase direitos iguais, uma presidentA (querem mudar a língua portuguesa também), várias ministras e o mercado de trabalho com muitas mulheres nas chefias. Parece que há um prazer em algumas mulheres em forçar a barra, achar coisas onde não existe nada. 
A ideia é: quanto mais exposição melhor, sair quase sem roupa para o parceiro reclamar, depois caso receber alguma cantada ainda terá argumento para dizer que é assédio ou algo assim. Elas conquistaram a liberdade sexual, mas parece que querem ainda mais. Que me interessa saber com quantas pessoas a fulana dormiu na semana? Se tens uma vida assim ninguém precisa ser comunicado, aí depois ficam pedindo para liberar o aborto, também, desse jeito. Essas mulheres são as mesmas que reclamam depois quando são "usadas" pelos homens, querem o quê? Mulheres devem se valorizar para serem valorizadas.
Hoje essa conversa de achar repressão feminina em qualquer propaganda ta se tornando na verdade uma opressão aos homens que têm de ficar aguentando esse papo. Têm lugares que há cotas só para mulheres, empresas e nos partidos políticos, bom se são tão preparadas para ficar pensando nas teorias e lamúrias feministas porque não participam mais da política e se capacitam profissionalmente? 
Nem pensar em fazer brincadeiras sobre mulheres na internet, porque você logo é perseguido por uma patrulha que não sabe diferenciar o que é piada do que é sério. É claro que lugar de mulher não é só na cozinha, que nem toda mulher dirige mal ou que elas gostem de apanhar, mas quando se trata de brinquedo ou metáfora ninguém está querendo ser maldoso. Desejam transformar tudo em preconceito.
Na realidade muitas mulheres gostariam de voltar no tempo, hoje além do trabalho elas ainda cuidam dos filhos e da casa, embora os homens já dividam bastante os afazeres. Elas estão sobrecarregadas e algumas não admitem, mas queriam ficar só em casa. No fundo os homens gostam de mulher que cuide do lar sim e se sentem bem se puderem sustentá-las. 
Mas dizer a verdade está muito difícil hoje em dia, o feminismo está em todo lugar e quer mudar coisas que até são naturais nas relações entre homem e mulher. Elas querem liberdade de expressão, mas não aceitam quando um homem vem e diz mesmo o que pensa. As mulheres hoje se dizem independentes, mas é só um cara de carro importado e grana chegar que elas já abrem o olho, isso é hipócrita, se querem vencer na vida tem que deixar de ser interesseira.
Além da exposição, algumas mulheres se unem a causas que nem são suas, como as que apoiam os gays, de tanta vontade de "reivindicar" elas se somam a esses grupos. Daqui a pouco viveremos uma ditadura gay/feminista no Brasil. O pior é que muitos "homens" apoiam fervorosamente esse feminismo cego, é até de se desconfiar, mas enfim. Tem tanta coisa que poderiam estar fazendo ao invés de ficar procurando pêlo em ovo e postando na internet, lavar uma louça, por exemplo kkkkkk, brincadeirinha. 

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*IMPORTANTE: O TEXTO É TECIDO DE IRONIA NA SUA PLENITUDE. ME PAUTEI EM COMENTÁRIOS DA INTERNET QUE TENHO LIDO COM FREQUÊNCIA, INFELIZMENTE, PARA CRIAR ESSE PERSONAGEM ESTEREOTIPADO DO MACHISTA DESCOLADO (ELE ACHA QUE TEM CONTEÚDO, QUE É JUSTO E ORIGINAL). NÃO COMPACTUO COM NENHUMA PALAVRA AÍ ESCRITA.



Gregório Grisa


domingo, dezembro 01, 2013

IBGE: um quinto dos jovens no Brasil é "nem-nem", não estuda nem trabalha.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) baseados na Pnad 2012 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e divulgados nesta sexta-feira (29/11/13) mostram que o número de jovens de 15 a 29 anos que não estudava e nem trabalhava chegou a 9,6 milhões no país no ano passado. 

Ou seja, um em cada cinco brasileiros (19,6%) nesta faixa etária não trabalhava nem frequentava escola em 2012. Na faixa de 18 a 24 anos, o índice é ainda mais preocupante, de quase um quarto (23,4%). 

Os indicadores mostram que 70,3% dos jovens que não trabalham e não estudam são mulheres. Dessas jovens que não têm atividade produtiva, 58,4% tinham pelo menos um filho. Há uma relação muito forte entre não estar estudando e trabalhando com a questão da maternidade.

As estatísticas mostram ainda que a maioria dos jovens da geração "nem-nem" (nem estuda nem trabalha) tinha ensino médio completo (38,6%), sendo a maior parte no subgrupo de 18 a 24 anos (43,2%). Apenas 5,6% desses jovens possuíam ensino superior (completo ou incompleto), e 32,4% representavam aqueles que não concluíram o ensino fundamental.

Segundo o IBGE, enquanto 19,% dos jovens de 15 a 29 anos não trabalham nem estudam, 45,2% somente trabalham, 13,6% trabalham e estudam e 21,6% estudam apenas.

Obs: penso que o universo do trabalho doméstico e informal cobre um significativo grupo de mulheres nessa situação. Outro aspecto preocupante é o baixo índice de jovens com ensino superior, o que mostra que existe uma demanda reprimida para ocupar vagas públicas a serem ampliadas. 

sábado, novembro 30, 2013

"Para ti" e "Saudade" poemas de Mia Couto

PARA TI

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

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SAUDADE

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quinta-feira, novembro 28, 2013

Dívida brasileira e o paradoxo da desigualdade. Entrevista especial com Maria Lúcia Fattorelli

“A dívida brasileira alcançou R$ 3,6 trilhões ou 82% do PIB”, diz a auditora fiscal.

O endividamento público de vários países gerou o que Maria Lúcia Fattorelli denomina de “sistema da dívida”, ou seja, a “utilização do endividamento público às avessas; em vez de servir para aportar recursos ao Estado, o processo de endividamento tem sido um instrumento de contínua e crescente subtração de recursos públicos, que são direcionados principalmente ao setor financeiro privado”. Segundo ela, a dívida pública é, atualmente, “um dos principais alimentos do capitalismo, especialmente na atual fase de financeirização global, e favorece a concentração de renda no setor financeiro, aumentando ainda mais o seu poder”. E dispara: “O Sistema da Dívida opera de modo similar nos diversos continentes, fundamentado no enorme poder do setor financeiro, em âmbito mundial, o que lhe possibilita exercer seu controle sobre as estruturas legais, políticas, econômicas e de comunicação de países, gerando diversos mecanismos que viabilizam esse esquema”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, a auditora fiscal também comenta a dívida dos estados brasileiros, a qual foi gerada de “forma espúria” e “passou a crescer em escala exponencial devido à extorsiva remuneração nominal cobrada pelo governo federal, correspondente à incidência de atualização monetária mensal automática calculada com base na variação do IGP-DI, cumulativa com a incidência de juros de 6 a 9% ao ano”.

De acordo com ela, a remuneração nominal tem sido abusiva e levado os estados a contraírem junto ao Banco Mundial e bancos privados. “Uma verdadeira aberração e ofensa ao Federalismo, além do risco de transferir a crise financeira para o interior do país. Isso porque tais bancos internacionais exigem, entre outras condicionalidades, a transformação do sistema previdenciário estadual para a modalidade de fundos de pensão de natureza privada, que investem fortemente em derivativos – papéis podres que provocaram a crise financeira nos Estados Unidos e na Europa”, esclarece.

Maria Lúcia Fattorelli ainda chama a atenção para as implicações sociais da dívida pública dos Estados. “O custo da dívida pública é transferido diretamente para a sociedade, em particular para os mais pobres, tanto por meio do pagamento de elevados tributos incidentes sobre tudo o que consomem, quanto pela ausência ou insuficiência de serviços públicos a que têm direito - saúde, educação, assistência social, previdência - e, ainda, entregando patrimônio público mediante as privatizações e a exploração ilimitada de riquezas naturais, com irreparáveis danos ambientais, ecológicos e sociais. O custo social é imenso”. Segundo ela, a dívida externa brasileira explica o “paradoxo inaceitável que existe em nosso país: sétima economia mundial e um dos países mais injustos do mundo, desrespeitando direitos humanos fundamentais, como denuncia a inaceitável classificação em 85º lugar segundo o IDH medido pela ONU”.

Maria Lúcia Fattorelli é auditora fiscal e coordenadora da organização brasileira Auditoria Cidadã da Dívida. Foi membro da Comissão de Auditoria Integral da Dívida Pública – CAIC no Equador em 2007-2008. Participou ativamente nos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a dívida realizada no Brasil. É autora de Auditoria Da Dívida Externa. Questão De Soberania (Contraponto Editora, 2003).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que é Sistema da Dívida? Como e por que ele se reproduz em vários países do mundo?

Maria Lúcia Fattorelli - Escolhemos o tema “Sistema da Dívida” para nortear todos os debates do seminário internacional que realizamos na semana passada devido à importância da percepção da atuação desse esquema em vários países.

O “Sistema da Dívida” corresponde à utilização do endividamento público às avessas, ou seja, em vez de servir para aportar recursos ao Estado, o processo de endividamento tem sido um instrumento de contínua e crescente subtração de recursos públicos, que são direcionados principalmente ao setor financeiro privado.

Esse esquema funciona por meio de diversos mecanismos que geram dívidas, na maioria das vezes sem qualquer contrapartida, e promovem seu contínuo crescimento. Para operar, tal sistema conta privilégios legais, políticos, econômicos e também com a grande mídia, além de contar com o suporte dos organismos financeiros internacionais para impor medidas que favorecem a atuação do “Sistema da Dívida”.

O livro “Auditoria Cidadã da Dívida: Experiências e Métodos”, que lançamos durante o seminário internacional, detalha tais mecanismos, cabendo ressaltar os esquemas de “salvamento de bancos”, a transformação de dívidas privadas em dívidas públicas e a aplicação de “Planos de Ajuste Fiscal”, que se fundamentam em cortes orçamentários, privatizações e demais reformas liberais para destinar os recursos ao “Sistema da Dívida”.

IHU On-Line - Como o Sistema da Dívida funciona internacionalmente? Todos os países são afetados por esse sistema?

Maria Lúcia Fattorelli - As experiências de auditoria já realizadas têm demonstrado que o “Sistema da Dívida” segue um modus operandi semelhante em diversos países, passando por fases permeadas de fatos graves, tais como:

• geração de dívidas sem contrapartida alguma ao país ou à sociedade;

• aplicação de mecanismos meramente financeiros (taxas de juros abusivas, atualização monetária automática, cobrança de comissões e taxas etc.), que fazem a dívida crescer continuamente, também sem qualquer contrapartida real;

• refinanciamentos que empacotam dívidas privadas e outros custos que não correspondem a entrega de recursos ao estado, provocando elevação ainda maior no volume do endividamento e beneficiando unicamente o setor financeiro privado nacional e internacional;

• utilização do endividamento gerado dessa maneira como justificativa para a implementação de medidas macroeconômicas determinadas pelos organismos internacionais (principalmente FMI e Banco Mundial) contrárias aos interesses coletivos e que mais uma vez beneficiam unicamente o mesmo setor financeiro, tais como privatizações, reforma da previdência, reforma trabalhista, reforma tributária, medidas de controle inflacionário, liberdade de movimentação de capitais etc.

A dívida pública é um dos principais alimentos do capitalismo, especialmente na atual fase de financeirização global, e favorece a concentração de renda no setor financeiro, aumentando ainda mais o seu poder. Por isso, o endividamento é um problema presente em quase todos os países capitalistas. Além de atentar para o volume da dívida, é preciso observar o valor dos juros que dirão o peso dessa dívida para cada país. Nesse sentido, o endividamento brasileiro é o mais oneroso do mundo, devido às elevadíssimas taxas de juros.

IHU On-Line - Qual a situação da dívida pública brasileira? Que percentual do orçamento federal é destinado ao pagamento da dívida?

Maria Lúcia Fattorelli - Os números da dívida pública brasileira indicam que já estamos em situação de crise da dívida. Em 31/12/2012, a Dívida Externa alcançou US$ 442 bilhões (R$ 884 bilhões a R$2,00). É verdade que a maior parte dessa dívida é privada, porém, possui a garantia do governo brasileiro e, dessa forma, constitui uma obrigação que deve ser computada em sua integralidade.

Por sua vez, a chamada Dívida Interna atingiu o patamar de R$ 2,8 trilhões em 31/12/2012. A maior parte dessa dívida está nas mãos de bancos nacionais e internacionais. Dessa forma, a dívida brasileira alcançou R$ 3,6 trilhões ou 82% do PIB.

Diversos artifícios são utilizados para “aliviar” o peso dos números, tais como:

• Dívida “Líquida”;

• Juros “reais”;

• Parte dos juros nominais contabilizada como se fosse Amortização;

• Exclusão da Dívida Externa “Privada”;

• Comparação Dívida Líquida-PIB.

IHU On-Line - Como essa dinâmica ocorre internamente entre os estados brasileiros e a União? Qual é o estado brasileiro mais endividado?

Maria Lúcia Fattorelli - O Sistema da Dívida se reproduz também internamente, tendo em vista que, no caso dos estados, quase toda a dívida não possui contrapartida real e cresce a partir de mecanismos meramente financeiros.

A maior parcela da dívida dos estados corresponde ao refinanciamento feito pelo governo federal a partir do final da década do 1990 (com base na Lei 9.496/97). Esse refinanciamento englobou passivos de bancos estaduais que seriam privatizados (PROES), ou seja, transformou parcelas de diversas naturezas em dívida pública dos estados. Tal fato evidencia a ausência de contrapartida de tais “dívidas” que foram geradas em processo não transparente e questionável sob todos os aspectos e comprova a atuação do “Sistema da Dívida”. Além disso, existem vários questionamentos acerca da origem da dívida refinanciada, conforme detalhamos no livro “Auditoria Cidadã da Dívida dos Estados”, que lançamos em maio deste ano.

Além de gerada de forma espúria, essa dívida passou a crescer em escala exponencial devido à extorsiva remuneração nominal cobrada pelo governo federal, correspondente à incidência de atualização monetária mensal automática calculada com base na variação do IGP-DI, cumulativa com a incidência de juros de 6 a 9% ao ano.

Essa remuneração nominal tem sido tão abusiva que diversos entes federados estão contraindo empréstimos junto ao Banco Mundial e bancos privados internacionais para pagar ao governo federal. Uma verdadeira aberração e ofensa ao Federalismo, além do risco de transferir a crise financeira para o interior do país. Isso porque tais bancos internacionais exigem, entre outras condicionalidades, a transformação do sistema previdenciário estadual para a modalidade de fundos de pensão de natureza privada, que investem fortemente em derivativos – papéis podres que provocaram a crise financeira nos Estados Unidos e Europa. O estado brasileiro mais endividado é São Paulo.

IHU On-Line - Em que consiste o projeto do Senado em relação à dívida dos estados?

Maria Lúcia Fattorelli - O PLP nº 238/2013 não enfrenta devidamente o problema das dívidas públicas de estados e municípios, constituindo leve paliativo. Limita-se a modificar o cálculo da REMUNERAÇÃO NOMINAL cobrada pela União e o ESTOQUE das dívidas dos estados e municípios de forma insuficiente, conforme resumido a seguir:

Novo relatório do PLP 238: A partir da aprovação do PL-238, a remuneração nominal cobrada pela União passaria a ser composta pelas seguinte parcelas:

JUROS REAIS: “calculados e debitados mensalmente, à taxa de quatro por cento ao ano, sobre o saldo devedor previamente atualizado”.

ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA: “calculada e debitada mensalmente com base na variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Ampliado – IPCA”.

O estoque das dívidas será recalculado desde a assinatura dos contratos com base na taxa Selic até 2012.

Críticas: Manutenção do privilégio de atualização monetária mensal. Tal atualização é acumulada mês a mês ao estoque da dívida. Trata-se de ilegitimidade que vem sendo perpetuada desde o início dos acordos de refinanciamento, pois foi abolida a indexação automática no País.

A remuneração proposta ainda é extorsiva, especialmente se comparada com as benesses concedidas pelo BNDES a empresas privadas, mediante contratos que cobram remuneração nominal fixa inferior a 6% ao ano (sem atualização monetária), ou apenas a TJLP (sem atualização monetária), que atualmente se encontra em 5% ao ano. Externamente, o governo empresta aos Estados Unidos a juros praticamente nulos.

Embora reconheça a necessidade de rever o cálculo desde o início da vigência dos acordos de refinanciamento com a União, a proposta de aplicação da taxa Selic corresponde à cláusula onerosa prevista nos acordos celebrados, ou seja, era considerada uma penalidade na época da celebração dos referidos acordos.

Tal proposta deixa as dívidas da maioria dos estados e municípios praticamente inalteradas. Nos estados em que o acordo prevê remuneração nominal de IGP-DI + 6%, a nova proposta seria ainda mais onerosa, já que a variação da Selic superou tal remuneração. Dessa forma, tais entes não terão benefício algum com esse recálculo do estoque.

No caso de MG (cujo acordo prevê remuneração nominal de IGP-DI + 7,5% de juros), a taxa acumulada de 1998 a 2012 cairia de 968% para 859%. Tal redução é ínfima, se compararmos com a revisão que deveria ser feita: caso aplicado juros fixos de 6% (critério concedido pelo BNDES ao setor privado), a dívida de MG já estaria totalmente paga desde 2011.

Um dos poucos beneficiados com essa proposta será o município de São Paulo, cujo acordo prevê remuneração nominal de IGP-DI + 9% de juros).

IHU On-Line - Quais são os impactos sociais e econômicos do Sistema da Dívida?

Maria Lúcia Fattorelli - Como antes mencionado, o Sistema da Dívida opera de modo similar nos diversos continentes, fundamentado no enorme poder do setor financeiro, em âmbito mundial, o que lhe possibilita exercer seu controle sobre as estruturas legais, políticas, econômicas e de comunicação de países, gerando diversos mecanismos que viabilizam esse esquema.

Ao final, o custo da dívida pública é transferido diretamente para a sociedade, em particular para os mais pobres, tanto por meio do pagamento de elevados tributos incidentes sobre tudo o que consomem, quanto pela ausência ou insuficiência de serviços públicos a que têm direito - saúde, educação, assistência social, previdência - e, ainda, entregando patrimônio público mediante as privatizações e a exploração ilimitada de riquezas naturais, com irreparáveis danos ambientais, ecológicos e sociais. O custo social é imenso.

O gráfico do orçamento federal evidencia que, na medida em que absorve quase a metade dos recursos, todas as áreas sociais ficam prejudicadas, o que explica o paradoxo inaceitável que existe em nosso país: sétima economia mundial e um dos países mais injustos do mundo, desrespeitando direitos humanos fundamentais, como denuncia a inaceitável classificação em 85º lugar segundo o IDH medido pela ONU.

É necessário conhecer que dívidas os povos estão pagando. A AUDITORIA é a ferramenta que nos permite conhecer e documentar este processo. O papel da cidadania é de suma relevância, pois além de conhecer o processo, deve procurar incidir nessa realidade. Não pode estar passiva diante do contínuo e crescente escoamento de recursos públicos orçamentários, acompanhado da entrega de riquezas nacionais de forma infame. É necessário fundamentar - com documentos e provas - as denúncias desse vergonhoso esquema que tem submetido países e povos a uma escravidão incompatível com a situação econômica real, suficiente para garantir vida digna e abundante para todas as pessoas.

Assim, a auditoria cidadã se converte em uma ferramenta de luta social.

quarta-feira, novembro 27, 2013

Pensamento do Papa Francisco sobre a atual economia mundial.

Sou ateu, a igreja católica e o Papa não traduzem em nada o que penso sobre a vida e as relações humanas. Dito isso, no entanto, penso que pelo teor político, vale a pena destacar alguns trechos da primeira exortação apostólica do Papa Francisco, chamada Evangelii Gaudium. Essa é uma longa publicação que dita caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos.

Segue breves passagens

Papa Francisco

Não a uma economia da exclusão

53. Assim como o mandamento “não matar” põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o fato de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do “descartável”, que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenômeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são “explorados”, mas resíduos, “sobras”.
54. Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da “recaída favorável” que pressupõem que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma.
Não à nova idolatria do dinheiro
55. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo.
56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.
Não a um dinheiro que governa em vez de servir
57. Por detrás desta atitude, escondem-se a rejeição da ética e a recusa de Deus. Para a ética, olha-se habitualmente com um certo desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa. Em última instância, a ética leva a Deus que espera uma resposta comprometida que está fora das categorias do mercado. Para estas, se absolutizadas, Deus é incontrolável, não manipulável e até mesmo perigoso, na medida em que chama o ser humano à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética não ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana. Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países a considerarem as palavras de um sábio da antiguidade: “Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos”.
58. Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los. Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano.
Não à desigualdade social que gera violência
59. Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarraigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado “fim da história”, já que as condições de um desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente implantadas e realizadas.
60. Os mecanismos da economia atual promovem uma exacerbação do consumo, mas sabe-se que o consumismo desenfreado, aliado à desigualdade social, é duplamente daninho para o tecido social. Assim, mais cedo ou mais tarde, a desigualdade social gera uma violência que as corridas armamentistas não resolvem nem poderão resolver jamais. Servem apenas para tentar enganar aqueles que reclamam maior segurança, como se hoje não se soubesse que as armas e a repressão violenta, mais do que dar solução, criam novos e piores conflitos. Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa “educação” que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos vêem crescer este câncer social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes.

segunda-feira, novembro 25, 2013

"Veja" cada vez mais "nítida" (Sobre as cotas)

A coerência da revista Veja com sua filiação ao pensamento liberal-conservador tem sido gigante. Em uma reportagem (link no fim do texto) sobre ensino superior, intitulada "O drama de estudantes – e famílias – afetados pelas cotas" a revista mostra a vida de famílias que pagam os estudos dos seus filhos em escolas privadas e agora estariam sendo "prejudicadas" pela Lei da Cotas nas instituições federais, que prevê que até 2016, 50% das vagas desses estabelecimentos de ensino devem ser reservadas a estudantes que fizeram todo o Ensino Médio em escolas públicas.
Sem rodeios devo dizer que a reportagem só consegue enganar ou sensibilizar ingênuos ou leigos completos. Em um atentado a lógica e a qualquer estudo teórico sério na área da educação, a reportagem se utiliza de artifícios e argumentos pueris, construção de retórica oportunista e desonesta.

1 - Utiliza-se de exceções (casos de pessoas com bolsas em escolas privadas) para criar e induzir uma falsa regra, que chama de "drama" de milhares. Culpabiliza uma política e a quem ela atende pelo "sofrimento" das famílias da matéria.

2 - Busca explicar o todo ao apresentar a parte. Na frase que se diz "Como aluna de escola privada, ela só terá direito a disputar a metade das vagas restantes.", tenta apresentar como injusto o fato de 50% das vagas para alunos de escolas privadas. Vamos ao todo, no Brasil 88% das matrículas do Ensino Médio são públicas e 12% são em instituições privadas. Historicamente, a ocupação das universidades federais se dava em sua ampla maioria por alunos de escolas privadas. 

3 - Depois de depreciar o ensino público brasileiro, Veja questiona como a política de cotas irá melhorar esse mesmo ensino básico público, como se a função dessa política, do ponto de vista prático, fosse essa. Tentativa de reforçar aquele argumento batido de que "o problema é o ensino básico que tem que melhorar", argumento descontextualizado que tenta usar do não feito para não fazer. Cotas não exclui em nada melhorias na educação básica, pelo contrário, pressiona para tal.

4- A ideologia da meritocracia, calcada em uma realidade de fantasia, da conquista de estima social por via puramente individual, guia a reportagem, no trecho metade das vagas "não serão mais ocupadas segundo o mérito acadêmico dos candidatos", despreza -se toda concorrência, mérito, esforço que há no universo de, no mínimo, 88% dos alunos de escolas públicas que irão disputar as vagas. Cenário bem mais "competitivo" que se ficasse somente com os estudantes de escolas privadas. Argumento preconceituoso e mal intencionado.


5 - Por que mal intencionado? Por uma questão simples que também remete ao todo da questão. No Brasil, 27% das vagas no ensino superior são públicas, dessas 56% são nas instituições federais, as quais cobrem as cotas. Falamos, mais ou menos, de 2 pedaços em uma pizza de 12 fatias, em uma metáfora rápida, as cotas ainda são metade disso, isto é 1 pedaço. 7 milhões de inscritos no ENEM, para 120 mil vagas das instituições federais, não há concorrência ou mérito nessa disputa? Já que tanto louvam esses valores.


7 - Os defensores do setor privado na educação (pois a entendem como serviço e não como direito) retratam o revés que as cotas estão causando na vida de estudantes de escolas privadas. Esses sempre ocuparam a universidade federal e vão continuar ocupando, desproporcionalmente, pois são 12% das matrículas e terão 50% das vagas. E a lei trata apenas de exigência de ensino médio no sistema público, isto é, quem fez o ensino fundamental em uma escola privada poderá concorrer pelas cotas. 

O desespero de preservar privilégios que traduz tudo o que produz a revista Veja é alarmante, não pela ofensa que faz à inteligência das pessoas, mas porque vivemos num país injusto e desigual que precisa de muito mais. Imaginamos se mudanças substantivas ocorrerem o que será capaz de fazer esse meio de comunicação se diante de mudanças pequenas e pontuais já faz esse papel tão baixo e mesquinho.


Os sacrifícios das famílias narrados na reportagem são transformados em bodes expiatórios para tocar as pessoas e convencê-las de que a realidade é a soma de decisões e esforços individuais. Valor sublime do liberalismo, o individualismo alçado a proporções inimagináveis, a realidade é bem mais difícil de explicar que isso. 
Essas famílias sonham e investem em seus filhos, ótimo, esses têm seus lugares reservados há muitos anos e seguirão tendo. Com as cotas, estamos falando de quem até então nunca sonhou nem pode investir na educação dos filhos, de quem pela primeira vez na história de sua família pode pensar em outra possibilidade a não ser trabalhar em sub-empregos e viver sub-felicidades.

Vocês podem perguntar porque tu ainda lês a Veja e dás importância para as bobagens que são publicadas. Bom, faço isso porque minha disputa agora, na vida é de ideias.  Porque essa revista é postada por conhecidos meus, porque ela está na maioria dos consultórios médicos do Brasil e em repartições públicas e porque as pessoas vão ao médico e, em repartições, elas esperam, leem e eu, com muitos companheiros/as tenho que disputar a ideologia dessas pessoas com essa péssima revista.


*Dados são dos últimos Censos, do Ensino Superior e do Ensino Médio.