segunda-feira, fevereiro 06, 2012

O Deus de Spinoza

“Pára de ficar rezando e batendo no peito!
O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti!

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa...
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias.
Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti!

Pára de me culpar da tua vida miserável!
Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.
Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho...
Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir.
Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim...
Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo.
Eu sou puro Amor!

Pára de me pedir perdão.
Não há nada a perdoar.
Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei.
Essas são artimanhas para te manipular, para te controlar,
que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.
A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida,
que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é a única que há aqui e agora!
E a única que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre.
Não há prêmios nem castigos.
Não há pecados nem virtudes.
Ninguém leva um placar.
Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho: Vive como se não o houvesse!
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir!
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não...
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste!...
Do que mais gostaste?
O que aprendeste?

Pára de crer em mim!
Crer é supor, adivinhar, imaginar...
Eu não quero que acredites em mim.
Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar!

Pára de louvar-me!
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem.
Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo!
Te sentes olhado, surpreendido?...
Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas!
Para que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora!
Não me acharás.
Procura-me dentro...
Aí é que estou, batendo em ti”.


(Baruch Spinoza)


As sábias palavras são de Baruch Espinoza - nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677.
Foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna

segunda-feira, janeiro 30, 2012

“2012 o primeiro ano realmente com cotas na UFRGS”



O tom provocativo do título se deve ao fato de que no vestibular desse ano as vagas reservadas para alunos egressos de escolas públicas autodeclarados negros serão mais preenchidas na UFRGS. Uma mudança, pautada pelo DCE e promovida pelo CEPE (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão), responsável por medidas técnicas referentes ao vestibular, fez com que mais redações dos candidatos cotistas fossem corrigidas, fazendo com que as vagas oferecidas fossem ocupadas em maior escala. Essa medida se deu para solucionar uma discrepância que existia entre a Decisão 134/2007 que implanta a reserva de vagas (que prevê 30% para alunos de escola pública e alunos de escola pública autodeclarados negros) e o processo seletivo (vestibular) e suas dinâmicas.
Com o ingresso de mais alunos negros, inclusive nos cursos mais procurados, a resolução acima mencionada, aprovada legitimamente pelo Consun (Conselho Universitário) em 2007, começa a ser efetivada. Apesar de todo o impacto inclusivo no ingresso de alunos de escolas públicas e negros desde 2008 através das cotas, tínhamos um déficit grande em relação à ocupação das vagas ofertadas, principalmente no caso dos autodeclarados negros.
Com o fato histórico de que, por exemplo, no curso de medicina ingressaram 21 candidatos negros, a pseudopolêmica voltou a ser tema central da imprensa. Interessante pensarmos sobre o cenário de conflito que parte da grande mídia tenta produzir quando trata das cotas na UFRGS. Esse movimento se dá em duas frentes, a primeira é a tentativa de reeditar, devido a reavaliação que vai ocorrer em 2012 da política, um debate defasado de ser contra ou a favor de cotas. As universidades brasileiras estão em outro nível de diálogo sobre essa matéria, as cotas são políticas consolidadas nas maiores instituições do país e as energias dos gestores e professores estão centradas no processo de qualificação dessa política pública.
Outra frente que denuncia a parcialidade de algumas matérias jornalísticas é a tentativa de inculcar um pânico generalizado na comunidade acadêmica e na sociedade no que se refere ao rendimento dos alunos cotistas e a possibilidade deles terem dificuldade de acompanhar e se formar. Essa alusão advém do argumento preconceituoso da possível baixa da qualidade requentado ou revestido pela preocupação de que os alunos se formem. Por trás dessas tentativas de enfraquecer as ações afirmativas está à noção ainda medieval de que a universidade é lugar somente do mérito e não é espaço para se promover ou impulsionar mudanças sociais, simbólicas e de valores.
Na Ufrgs no máximo 30% dos alunos se formam no tempo mínimo do curso, são minoria em todos os segmentos e áreas de conhecimento. Inclusive por essa razão que os alunos têm o direito de se formar no dobro do tempo de duração do seu curso. O desafio da universidade é dar condições para que todos os alunos se formem no tempo adequado e não somente aos cotistas, até porque qualquer avalição feita com apenas cinco anos de cotas é bastante precoce e limitada, tendo em vista que pela média geral poucos cotistas irão se formar nesse período.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Vida virtual


Entendo que o capitalismo contemporâneo chegou a um estágio tão hegemônico que torna quase todos os mecanismos de acesso à cultura e ao conhecimento historicamente construído uma modalidade de mercadoria. Fazendo com isso com que para os sujeitos acessem o conhecimento eles têm de ser antes de tudo um consumidor.
No bojo desse contexto está o grande crescimento das mídias virtuais, do alcance a internet via múltiplos aparelhos e a confecção de uma vida social com base nessas tecnologias. Entre tantas outras coisas esse processo tem produzido um borramento da fronteira do público e do privado, da intimidade e do social. Isso é alavanca de uma mudança tão significativa que o fato mesmo da invasão da privacidade esta sendo substituído, por certa aceitação de expor a privacidade. Isto é, o próprio sujeito para ser aceito, se valorizar, se afirmar ou mesmo chamar a atenção faz questão de mostrar sua intimidade virtualmente ou dar luz a suas sensações e emoções.
Isso denota uma inversão na lógica de exposição da privacidade, esse movimento agudiza o problema de quem é mais vulnerável emocionalmente ou tem problema de autoestima que acaba sofrendo com uma necessidade de exposição que nem sempre é interessante para qualificar suas relações sociais. 

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Adeus doloroso


Por Fabiano Baldasso

D’Alessandro não é um atleta do Internacional. É uma instituição a serviço de outra.
Existem vários fatores que vão tornando um jogador importante para o clube e D’Alessandro não se limitou a passar por todos eles…passou com o tradicional drible “LA Boba”, olhou pra trás e riu de todos os percalços que para ele fizeram parte apenas de uma brincadeira…como se fosse.
D’Alessandro virou homem Grenal, homem Sulamericana, homem Libertadores… Quem não lembra da Sulamericana de 2008, na Bombonera, quando D’Ale botou o dedo na cara dos “bosteros” que são odiados por ele desde o ventre materno. Palco onde, anos antes, Chiquinho e Dieguinho tiravam fotos e arregalavam os olhos com pavor do adversário.
Pernas finas, voz pequena, alma gigante e envolvimento oceânico.
D’Alessandro é o melhor jogador do Internacional desde Falcão, mas ganhou mais…vibrou mais…sofreu mais…reclamou mais…
O futebol gaúcho pode estar perdendo seu principal expoente em décadas.
Um argentino insolente que vestiu a camisa colorada como muitos…e a dignificou como poucos.
D’Alessandro pode se ir…e  deixar o coração despedaçado de milhares de colorados.
Fica na história, belíssima história…uma das páginas mais bonitas e vencedoras do auto intitulado campeão de tudo.
E se foi campeão de tudo, muito foi por causa dele.
Adios Cabeçon! Obrigador por ter feito o futebol gaúcho mais vencedor.

Fonte: Blog do Fabiano Baldasso

domingo, janeiro 08, 2012

Pois é

“Se eu quiser que alguém respeite meus pontos de vista sobre política, ciência e arte, terei que conquistar esse respeito por meio da argumentação, da justificação, da eloqüência ou do conhecimento relevante, (…) Porque não há limites para as opiniões religiosas? Por que nós temos que respeitá-las pela simples razão de que elas são religiosas?”.

Richard Dawkins

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Oportunidades das festas de fim de ano

Festas de fim de ano tem suas boas peculiaridades, além de encontrar pessoas que foram, são e podem vir a ser importantes na vida, nós conhecemos outras e nos permitimos mais do que no restante do ano. Claro que isso depende de cada pessoa, mas em geral essas festas constituem essa aura favorável. No ano que passou entre tantas coisas que aprendi destaco o fato de realmente tentar e conseguir viver com a diferença, ou seja, conviver com pessoas e grupos bem distintos sem deixar de expressar meu pensamento sobre as coisas, enfim, minha identidade na medida do bom senso. Sem dúvida que essa dinâmica pode e deve ser aperfeiçoada, mas noto em mim que isso é algo positivo apesar de causar estranheza em algumas pessoas e ser algo insignificante para outras. Alguns se impactam com a crueza de algumas conversas ou com posturas mais desprendidas, mas há de se romper com hipocrisias interioranas e há de se denunciar as limitações de convívio que os preconceitos e  as desinformações nos impõe. Não existe avanço nas relações do ponto de vista individual, nós dependemos dos outros pra nos descobrirmos e to feliz de perceber nesse processo que algumas pessoas estão me ensinando ao arejar suas noções e quem sabe no decorrer da vida seus valores. Esse relato pode parecer um tanto umbilical e introspectivo e até é mesmo, entretanto, ele não diz só de mim porque nasceu dos outros. 

Feliz 2012 a todos e dá-lhe vida.  

terça-feira, dezembro 27, 2011

Lições de fim de ano

Jacques Derrida perguntava-se: pode-se aprender a viver? É possível ensinar a viver? O filósofo francês não deu respostas a essas questões. Existirão essas respostas? Cada um de nós as procura e, de certa forma, as encontra a cada dia.
O grande escritor Oscar Wilde achava, com cinismo, que a experiência era apenas a soma dos nossos erros, o que significava não acreditar em nossa capacidade de aprender com o passado e com os próprios erros. Somos melhores do que pensava Wilde.
Muitas vezes, não aprendemos como os nossos erros por vontade de perdoar tudo, de esquecer, de começar de novo com a alma leve, o coração livre, sem rancor nem pé atrás.
     Viver e deixar viver é um modo especial de superar essa contradição entre a necessidade de tirar lições dos erros e o desejo de estar aberto ao que der e vier. Mas viver e deixar viver não quer dizer aceitar tudo do outro nem se permitir tudo em relação aos outros.
 A vida é um delicioso e complexo jogo no fio da navalha, eternamente em busca do ponto de equilíbrio. Perdoar, com freqüência, é um ato de tamanha grandeza e libertação que mesmo abrindo as portas a novos tombos impõe-se como um aprendizado da vida. O ideal, imagina-se, é perdoar sem esquecer. A verdade, porém, é que o esquecimento funciona como um auxilar do perdão. Aprendemos a viver quando aprendemos o momento de esquecer, de perdoar ou, ao contrário, de persistir na lembrança e na recusa por mais algum tempo.
     Todos nós aprendemos a viver a cada dia. Aprendemos a viver quando sorrimos para quem nos abre a porta, perdendo alguns segundos de uma pressa cada vez mais normal, num gesto afetivo que se esvai no tempo e, sem nenhuma exigência de recompensa, se farta no sorriso recebido.
Todos nós aprendemos a viver quando, redescobrindo atitudes arcaicas, damos o lugar no ônibus a alguém, mesmo a um homem, que nos parece mais necessitado daquele assento.
Aprendemos mais ainda a viver quando tudo se resume ao simples prazer de ser gentil, abrir uma porta, cumprimentar alguém, puxar uma cadeira, levantar um objeto do chão, contemplar a felicidade de uma criança no parque, dar sem esperar recompensa, assim mesmo.
     Outro dia, no ônibus, uma moça ofereceu-se para segurar a minha pasta. Não havia a menor necessidade daquilo. A pasta era leve e com uma alça.
Faz quase parte do meu braço. Ela e eu aprendemos um pouco a viver naquele gesto absolutamente sem interesse nem necessidade, a não ser a da civilidade, da gentileza e da alegria de servir aos outros. Entreguei-lhe a pasta contente. Talvez tivesse sido mais prático avançar e ocupar outro lugar, mesmo em pé, mais na frente, mas não era possível deixar de passar por aquele minúsculo aprendizado de cidadania e de vida, o aprendizado da pieguice como cola social.
     Ensinamos a viver quando dominamos as nossas manias, os nossos rompantes, os nossos preconceitos e as nossas certezas para ponderar, sentir, examinar a postura do outro. Nada mais bonito do que ser convencido, abrir mão de uma maneira de pensar em benefício de outra, acolhendo o argumento antes combatido como o fruto colhido numa árvore que se deu o trabalho de nos fazer ver mais claro e nos alimentar. Ensinamos a viver quando nos propomos a aliar razão e emoção a serviço de uma vida simplesmente melhor.
     Aprendemos e ensinamos a viver quando, apesar de nossas tarefas importantes e das nossas sérias responsabilidades, encontramos tempo para brincar, jogar, sonhar, festejar e estar com os outros.
O que significa aprender a viver? O que quer dizer ensinar a viver? Ninguém ensina a vida a outro como se fosse o dono absoluto de um saber a ser repassado numa sala de aula à moda antiga. Na vida, ensinamos e aprendemos o tempo todo, alternando papéis e trocando experiências. A vida é um curso em tempo integral que exige atualização permanente e construção pelo diálogo do saber de cada um. A vida sempre foi interativa.
     São tantos os desafios e impasses. Aprendemos e ensinamos a viver quando respeitamos a crença do outro sem nos deixar intimidar por ela. Aprendemos e ensinamos a viver quando respeitamos o direito à diferença sem perder o direito à crítica. Aprendemos e ensinamos a viver quando descobrimos a tolerância sem fazer dela um álibi para a intolerância dos outros.
Viver é simplesmente ensinar a aprender e aprender a ensinar.
Somos escolas bípedes.
Salvo, talvez, algumas celebridades.

Juremir Machado da Silva

sábado, dezembro 17, 2011

Terceira Carta às Esquerdas


Boaventura de Sousa Santos

Quando estão no poder, as esquerdas não têm tempo para refletir sobre as transformações que ocorrem nas sociedades e quando o fazem é sempre por reação a qualquer acontecimento que perturbe o exercício do poder. A resposta é sempre defensiva. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem vai ser o líder nas próximas eleições, e as reflexões e análises ficam vinculadas a esse objetivo. 


Esta indisponibilidade para reflexão, se foi sempre perniciosa, é agora suicida. Por duas razões. A direita tem à sua disposição todos os intelectuais orgânicos do capital financeiro, das associações empresariais, das instituições multilaterais, dos think tanks, dos lobbistas, os quais lhe fornecem diariamente dados e interpretações que não são sempre faltos de rigor e sempre interpretam a realidade de modo a levar a água ao seu moinho. Pelo contrário, as esquerdas estão desprovidas de instrumentos de reflexão abertos aos não militantes e, internamente, a reflexão segue a linha estéril das facções.



Circula hoje no mundo uma imensidão de informações e análises que poderiam ter uma importância decisiva para repensar e refundar as esquerdas depois do duplo colapso da social-democracia e do socialismo real. O desequílibrio entre as esquerdas e a direita no que respeita ao conhecimento estratégico do mundo é hoje maior que nunca.

A segunda razão é que as novas mobilizações e militâncias políticas por causas historicamente pertencentes às esquerdas estão sendo feitas sem qualquer referência a elas (salvo talvez à tradição anarquista) e muitas vezes em oposição a elas. Isto não pode deixar de suscitar uma profunda reflexão. Essa reflexão está sendo feita? Tenho razões para crer que não e a prova está nas tentativas de cooptar, ensinar, minimizar, ignorar a nova militância. 



Proponho algumas linhas de reflexão. A primeira diz respeito à polarização social que está a emergir das enormes desigualdades sociais. Vivemos um tempo que tem algumas semelhanças com o das revoluções democráticas que avassalaram a Europa em 1848. A polarização social era enorme porque o operariado (então uma classe jovem) dependia do trabalho para sobreviver mas (ao contrário dos pais e avós) o trabalho não dependia dele, dependia de quem o dava ou retirava a seu belprazer, o patrão; se trabalhasse, os salários eram tão baixos e a jornada tão longa que a saúde perigava e a família vivia sempre à beira da fome; se fosse despedido, não tinha qualquer suporte exceto o de alguma economia solidária ou do recurso ao crime. Não admira que, nessas revoluções, as duas bandeiras de luta tenham sido o direito ao trabalho e o direito a uma jornada de trabalho mais curta. 150 anos depois, a situação não é totalmente a mesma mas as bandeiras continuam a ser atuais.



E talvez o sejam hoje mais do que o eram há 30 anos. As revoluções foram sangrentas e falharam, mas os próprios governos conservadores que se seguiram tiveram de fazer concessões para que a questão social não descambasse em catástrofe. A que distância estamos nós da catástrofe? Por enquanto, a mobilização contra a escandalosa desigualdade social (semelhante à de 1848) é pacífica e tem um forte pendor moralista denunciador.


Não mete medo ao sistema financeiro-democrático. Quem pode garantir que assim continue? A direita está preparada para a resposta repressiva a qualquer alteração que se torne ameaçadora. Quais são os planos das esquerdas? Vão voltar a dividir-se como no passado, umas tomando a posição da repressão e outras, a da luta contra a repressão?



A segunda linha de reflexão tem igualmente muito a ver com as revoluções de 1848 e consiste em como voltar a conectar a democracia com as aspirações e as decisões dos cidadãos. Das palavras de ordem de 1848, sobressaíam liberalismo e democracia. Liberalismo significava governo republicano, separação ente estado e religião, liberdade de imprensa; democracia significava sufrágio “universal” para os homens. Neste domínio, muito se avançou nos últimos 150 anos. No entanto, as conquistas têm vindo a ser postas em causa nos últimos 30 anos e nos últimos tempos a democracia mais parece uma casa fechada ocupada por um grupo de extraterrestres que decide democraticamente pelos seus interesses e ditatorialmente pelos interesses das grandes maiorias. Um regime misto, uma democradura. 

O movimento dos indignados e do occupy recusam a expropriação da democracia e optam por tomar decisões por consenso nas sua assembleias. São loucos ou são um sinal das exigências que vêm aí? As esquerdas já terão pensado que se não se sentirem confortáveis com formas de democracia de alta intensidade (no interior dos partidos e na república) esse será o sinal de que devem retirar-se ou refundar-se?

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

quarta-feira, novembro 16, 2011

A teoria em evolução Darwin Estava Errado? Não. Os indícios da evolução são inegáveis.

  Trecho desse texto retirado do site da National Geogrpihic Brasil.


A evolução por meio da seleção natural, a concepção fundamental de toda a obra de Charles Darwin, é uma teoria – uma teoria sobre a origem da adaptação, complexidade e diversidade dos seres vivos na Terra. Para os mais céticos e menos familiarizados com a terminologia científica, é grande a tentação de dizer que se trata de “apenas” mais uma teoria. No mesmo sentido, a relatividade, tal como descrita por Albert Einstein, não passa de uma teoria. A noção de que a Terra gira em torno do Sol, proposta por Copérnico em 1543, também é “apenas” uma teoria. A deriva continental é outra. A existência, estrutura e dinâmica dos átomos? Teoria atômica. Até mesmo a eletricidade é uma elaboração teórica, postulando a existência dos elétrons, minúsculas unidades de massa eletricamente carregadas e jamais vistas. 
Todas essas teorias são explicações que foram confirmadas, até certo ponto, por meio de observações e experimentos, e que os especialistas aceitam como fatos. É isso o que os cientistas querem dizer quando propõem uma teoria: não uma especulação vaga e pouco confiável, mas uma explicação capaz de dar conta das evidências. Eles adotam tais explicações de maneira provisória – considerando-as como a melhor concepção disponível da realidade, até que surjam dados conflitantes ou melhores.
Nós, que não somos cientistas, em geral concordamos na prática com eles. Ligamos nosso aparelho de TV na tomada da parede, nosso ano é medido pelo comprimento da órbita da Terra e, de muitas outras maneiras, levamos adiante nossa vida, confiando na realidade dessas teorias.
A teoria da evolução, porém, é um pouco diferente. Afinal, é uma concepção da vida tão fantástica e abrangente que alguns a consideram inaceitável, apesar da montanha de indícios comprobatórios. Quando aplicada à nossa própria espécie, Homo sapiens, ela parece ainda mais ameaçadora. Muitos cristãos fundamentalistas e judeus ultra-ortodoxos não se conformam com a idéia de os seres humanos descenderem de primitivos primatas, em contradição com suas leituras literais do Gênesis bíblico. O desconforto tem paralelo entre os criacionistas islâmicos que consideram uma verdade literal o relato da Criação em seis dias. Para o falecido Srila Prabhupada, do movimento Hare Krishna, Deus criou “os 8,4 milhões de espécimes vivos no princípio”, a fim de oferecer múltiplos patamares para a ascensão das almas reencarnadas.


por David Quammen

segunda-feira, novembro 14, 2011

Farroupilhas e a Liberdade


<br /><b>Crédito: </b> PEDRO LOBO SCALETSKY



Todo dia 14 de novembro eu penso no massacre de Porongos, acontecido em 1844, no final da "gloriosa" Revolução(?) Farroupilha, quando, por simples coincidência, tropas imperiais caíram justo sobre o acampamento dos negros a serviço dos farrapos e os assassinaram. O acampamento dos brancos teve mais sorte. Na véspera da chacina, o comandante farrapo Davi Canabarro recebeu um aviso por um emissário da irmã do general Neto, fazendeira na região, de que os imperiais estavam na área. Canabarro saiu-se com uma bravata: "O Moringue sentindo a minha catinga aqui não vem. Marche para a sua casa e não ande espalhando esta notícia aterradora aqui no acampamento". Não bastasse, mandou desarmar a infantaria, tirando-lhe o cartuchame. Está tudo documentado. Faço uma minuciosa análise de tudo o que aconteceu em meu livro, odiado por muitos, que prometeram até me capar, "História Regional da Infâmia, o Destino dos Negros Farrapos e Outras Iniquidades Brasileiras".

Não falo disso para fazer autopropaganda. Não é preciso. O livro vende muito bem. Falo para homenagear os negros que foram sacaneados. Eram, na maioria, escravos dos imperiais cooptados pelos farroupilhas com a promessa de liberdade em caso de vitória. Tornaram-se, porém, um obstáculo para a paz, pois seus donos exigiam que fossem devolvidos. O providencial ataque aos negros desarmados em Porongos eliminou uma parte considerável do problema. Aqueles que escaparam foram entregues a Caxias e enviados para o Rio de Janeiro, onde se tornaram escravos da Nação, depositados no Arsenal da Marinha. Existe também a famosa carta assinada por Caxias que dá conta de uma combinação com Canabarro, que acabou fugindo só de cuecas, para eliminar os negros. A carta teria sido assinada depois dos fatos. Um caso único. Assinatura verdadeira, conteúdo falso. Uma linda fábula farroupilha. Malabarismos são feitos para justificar Caxias e Canabarro, que morreram mudos sobre o assunto. Tenta-se explicar a retirada do cartuchame. Tudo lógico demais para ser verdadeiro. Os negros foram rifados em Porongos.

Lanceiros e infantes negros morreram para que um acerto entre os fazendeiros brancos e o Império se concretizasse. Tentou-se apagar previamente a imagem futura de traição dos farrapos aos negros, com a entrega deles aos imperiais, com uma traição ainda maior, a entrega das suas vidas ao inimigo que se sabia próximo e pronto para atacar. Eu li tudo. Não me contaram. Não venham com "subsídios". Eu analisei como ninguém todo o processo e provei que os negros foram levados para o Rio de Janeiro, não para a Fazenda Santa Cruz como se dizia, quando não se negava isso, mas para o Arsenal da Marinha. Provei também que a revolução louvada como abolicionista vendeu negros no Uruguai para se financiar. Por isso, todo ano, em novembro, eu penso naqueles bravos negros massacrados em função de uma esperteza dos nossos "heróis". Aquilo foi malandragem e covardia. Não me venham com "eram os valores da época". A infâmia é intemporal e universal. Os negros sabiam muito bem disso.

Juremir Machado da Silva

quarta-feira, novembro 02, 2011

Sobre educação, racismo e miséria


Douglas Belchior

 
A presidenta Dilma Rousseff elegeu o combate à miséria como prioridade de seu governo. A relevância do tema provoca expectativa, em especial por conta da óbvia compreensão de que o combate à miséria requer algo mais do que políticas compensatórias superficiais, marca das ações governamentais nos últimos anos.
A superação da pobreza depende, fundamentalmente, do rompimento com os interesses do grande capital, no Brasil representado por uma elite racista e preconceituosa, formada por latifundiários e empresários do agronegócio, por banqueiros, especuladores financeiros, grandes meios de comunicação e empresas transnacionais de diversas áreas. Daí porque somente uma mudança estrutural nas relações políticas, sociais, raciais e econômicas seria capaz de combater efetivamente as desigualdades.
 
Pobreza e analfabetismo
Não podemos permitir ou compactuar com corte de recursos ou investimentos públicos nas áreas sociais. Ao contrário, devemos exigir uma ampliação desses investimentos, sempre considerando o peso da variável “raça” na estruturação das desigualdades sociais no Brasil. Para isso, basta analisar os dados do Censo 2010 do IBGE, segundo o qual aproximadamente 16,2 milhões de brasileiros vivem em condições de extrema pobreza. Desses, mais de 70% são negras e negros.
Já a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) divulgada no final de 2010 apontou que o Brasil possui 14 milhões de analfabetos. E mais uma vez, percebe-se a população negra entre os mais preteridos no acesso ao direito à educação.
Aqueles que conseguem superar o analfabetismo encontram inúmeros desafios para completar o ensino médio, ter acesso a cursos técnicos e, principalmente, às universidades. Mesmo com o ProUni e o Enem enquanto via de acesso, as camadas mais empobrecidas têm ficado às margens das oportunidades visto o déficit na preparação prévia adequada e a própria limitação dos programas. São os cursinhos comunitários em todo Brasil que ocupam as lacunas deixadas pelo abandono do Estado. No caso da UNEafro-Brasil, mais de 2 mil jovens oriundos de escolas públicas se organizam em 42 núcleos, aliando estudo e luta em favor da educação pública. Será possível uma política efetiva de combate à miséria sem que haja ações dirigidas à população negra?
 
Lei 10.639/03 e o PNE
O racismo é constitutivo do capitalismo brasileiro. É uma ideologia de dominação sem a qual a elite brasileira não se manteria. Esse quadro explica, em parte, o fato de a Lei 10639/03 (alterada pela lei 11645/08), apesar de sua histórica e festejada aprovação, não ter saído do papel. Afinal, sua intenção é justamente contribuir para a superação dos preconceitos e atitudes discriminatórias por meio de práticas pedagógicas que incluam o estudo da influência africana e indígena na cultura nacional.
É necessário trabalhar para que o Plano Nacional de Educação (PNE), que volta a ser debatido, contemple a necessidade de radicalizar na efetivação das leis 10639/03 e 11645/08. E mais que isso. Em tempos de reivindicação pelo aumento dos investimentos em educação para a ordem de 10% do PIB, a UNEafro-Brasil propõe uma bandeira paralela tão importante quanto: a obrigatoriedade da destinação de, no mínimo, 10% dos recursos da educação de municípios, estados e federação para a aplicação das Leis 10639/03 e 11645/08. É preciso também regulamentar punições severas aos gestores públicos que as descumprirem.
A educação, num sentido ampliado, é tudo o que rodeia e forma o indivíduo, seja na escola formal, no ambiente familiar, nos diversos espaços de sociabilidade. E hoje, mais que nunca, também através dos meios de comunicação, em especial a televisão, a produção cultural (sobretudo na música) e as redes sociais da internet. Essa realidade nos coloca o desafio de pensar numa radical reformulação da educação brasileira, não apenas no que diz respeito aos recursos, mas ao modelo educacional, aos valores e aos métodos.
No Brasil, os afro-brasileiros representam 51% da população (IPEA). Diante dessa realidade, é sempre bom lembrar as palavras do mestre Kabengele Munanga: “Para qualquer pessoa se afirmar como ser humano ela tem de conhecer um pouco da sua identidade, das suas origens, da sua história”.
 
10% do PIB para educação
Não é possível imaginar um desenvolvimento sustentável e socialmente justo em uma sociedade que não prioriza a educação, não valoriza professores e não democratiza o acesso. Sobretudo, é necessário dar uma basta ao modelo neoliberal de educação que, infelizmente caminha a passos largos em nosso país. Exigimos 10% do PIB para o investimento em uma educação de qualidade, gratuita, popular, laica, antirracista, antimachista e antihomofóbica.
 
Douglas Belchior é professor de História e membro do Conselho Geral da UNEafro-Brasil.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Mais de nós


Eu tenho andando tão contente e sinceramente isso está vindo de você
Cada alegria diferente faz com que a gente não consiga esquecer
Conto um, dois passos ao acaso pra deixar de lado tudo que não vou levar.
Monto um discurso decorado que é pra dar o recado logo que você chegar

Tento inventar mil motivos pra te dar um pouco mais de nós
Para descobrir se a paz que eu senti ainda mora lá.

Tem conversa boa, demorada e outras agitadas para o sangue aquecer
Tem o dia cinza que esfria, mas o da alegria não demora a amanhecer
Tive um sonho de realidade em que a cidade só se abria pra você
Acordei um pouco preocupado, com o café ao lado deu pra entender


Capotraste na quarta casa.

G – G/F# - Em – Em/D – C – C/ B – A

Refrão – C – Em – D – Am – Em – G – G7
                                                           (C) segunda volta. 

domingo, outubro 23, 2011

A memória




A memória é tecido
enredo de juízo
onde se encontram
manhãs dominicais
e objetivos universais

A memória é costura
de registro e previsão
por vezes um decide
e o outro não

A memória é o enlace
em que se atam
a ilusão do ser para sempre
às lembranças que para sempre serão

A memória é tear
máquina de sonhar e recordar
os dois fios do nó
que é viver e amar

Gregório Grisa

sexta-feira, outubro 21, 2011

Palavra povo

A palavra povo tinha um sentido exato quando se podia juntar em uma praça todos os cidadão de uma cidade, mas o crescimento das populações de milhares para milhões fez da palavra povo um termo monstruoso cujo sentido depende da frase em que entra. Algumas vezes povo é a totalidade indistinta e nunca presente em lugar nenhum, outras vezes é o maior número de indivíduos oposto ao pequeno círculo de pessoas ricas que decidem. 

Paul Valéry

Não existe amor em SP

Música de Criolo vencedora do prêmio de melhor música do VMB da MTV.
Não existe amor em SP
Um labirinto mistico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você
Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu
Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus

domingo, outubro 16, 2011

Sobre as mobilizações mundiais



O dia 15 de outubro de 2011 ficará marcado como dia de grandes manifestações pelo mundo, jovens em sua maioria, reivindicam várias demandas e clamam pelo que chamam de uma democracia real. Tendo como exemplo o movimento de Porto Alegre, do qual participei, fica evidente que algo novo está nascendo. Novo no sentido de agregar forças políticas diferentes e setores da sociedade que até então pareciam estar mais para ver a banda passar do que para tocar na banda.

As mobilizações nos países árabes e principalmente na Europa (Espanha, Portugal e Grécia) e nos EUA em Wall street parecem que deram o aval para que a juventude de classe média alta brasileira fosse para a rua e perdesse o temor de levantar uma faixa com tema político. Mesmo com demandas genéricas ou muito focalizadas esse movimento que se diz suprapartidário, embora coordenado e organizado por bases de partidos, traz consigo o aspecto inovador de ser algo minimamente unificado honra o nome do movimento que é “Juntos!”.

Nas falas e debates se faz menção direta aos grandes problemas mundiais, aos limites que o capitalismo e as formas de democracia de baixa intensidade vêm impondo ao nosso modo de organizar a política e a vida. Isso cumpre um papel formativo e pedagógico importante, tendo em vista que a juventude com a qual me deparei na praça não é a que cresceu ouvindo um discurso crítico socialista e muito menos anarquista como alguns setores desse movimento se reivindicam.

Aqui cabe uma observação, o povo, aqueles quase 60 milhões (levando em conta que temos 30 milhões de carteiras assinadas hoje no Brasil com uma população economicamente ativa de quase 100 milhões) de brasileiros que trabalham na informalidade e que dependem absolutamente dos serviços públicos, não esta inserido nesse contexto de mobilizações.

Apesar de sermos o povo enquanto projeto de sociedade e intencionalidade política não podemos ser ingênuos de não perceber que há nessas mobilizações mundiais mais parcelas da pequena burguesia e da classe média do que da classe trabalhadora, entendida aqui nos moldes clássicos para fins didáticos.

Acredito que essas características não retiram a relevância de todo esse processo, é legitimo que todos os grupos sociais se mobilizem e a juventude universitária e em geral vem mostrando que está despertando para algumas ações. Não podemos querer prever qual o resultado prático ou efeito histórico que o movimento “Juntos!” pode promover, mas é necessário olharmos para isso como algo novo sim, aglutinador e que apesar de ser feito basicamente por parcelas das esquerdas pode ter, inclusive por esse perfil agregador, muito a ensinar as esquerdas e os movimentos sociais populares brasileiros.

Um dos vários desafios que esses movimentos reivindicatórios têm, a partir dessas manifestações unificadas, é o de criar mecanismos de comunicação com essa grande parcela da população que não está inserida nesses processos. Não está envolvida por razões variadas e complexas que perpassam a anestesia do consumo que vivemos, os valores que nossa sociedade prioriza e a multiplicidade de experiências vividas pelos grupos sociais.

Isso significa, portanto, que para acessar essa grande parcela de trabalhadores é imperioso fazer a constante disputa do ponto de vista da subjetividade e da ideologia com a grande mídia monopolizada e com as igrejas exploradoras/conservadoras. E ainda há a disputa que deve se dar na objetividade do trabalho informal (sem direitos garantidos) e formal na busca de práticas sociais e econômicas que se orientem por outra lógica da produção material da vida e das relações de trabalho e humanas.

terça-feira, outubro 11, 2011

Flor da estação

Tarde de lembrar o que tem pra esquecer

Vontade de saber de vez

Noite de pensar no sonho a escolher

Luar pra iluminar vocês

Eles são um par de unir e separar

Se fosse só contar até três

Pode ser que não, histórias vem e vão;

Mas pode ser que sim, um ainda guarda o outro ali.

Domingo de sentir a paz que pode vir

Garoa pra molhar a mão

Sol pra esquentar o presente a se dar

Uma flor da estação

Em – A – D – F# - G – D – A

Refrão: Bm – F#m – G – A – Bb ° - Em

domingo, outubro 09, 2011

Che Guevara e os mortos que nunca morrem

Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia. Assim seria ele hoje. Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che. E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais.

sábado, outubro 01, 2011

Detalhes do processo educativo

É sempre difícil encarar uma folha em branco, temos receio de que nossas ideias que ali serão registradas ganhem um formato desajeitado, desarticulado. A ansiedade de dizer tudo da forma como nosso pensamento conjectura nos consome apesar de sabermos que a escrita ao mesmo tempo em que registra limita, pois tem suas formas e seus encaixes não tão sistemáticos e flexíveis como o pensamento.
Há métodos para escrever, uns seguem à risca algumas técnicas, outros preferem esperar inspiração (sentados de preferência) e tem ainda os que escrevem de modo mais aberto e artesanal. O processo de escolarização pelo qual passam os brasileiros ainda não garante uma formação para a pesquisa, só temos acesso a esse universo no ensino superior quando muito. A dificuldade de escrever é um sintoma desse processo, a escrita advém da prática de ler. Experimentem escrever uma página sobre algum assunto no fim de uma semana sem ter lido nada sobre ele e depois escreva outra página após uma semana em que você leu meia hora por dia sobre o tema. A diferença será significativa.
Qual é o padrão de avaliação que temos durante o ensino fundamental e médio? Salvo exceções a maioria das avaliações se resume a provas objetivas, de marcar a resposta certa. A influência desse modelo compartimentado de avaliar sobre a dificuldade de escrevermos e pesquisarmos é substancial. Tanto que ainda na universidade notamos o sofrimento que é para boa parte dos educandos exercitar a fala e a escrita, darem suas opiniões sobre assuntos corriqueiros ou até que tenham estudado para apresentar para os colegas.
Dissertar exige começar a fazê-lo, sem dúvida que outros elementos como o emocional e a história de vida influenciam nossa capacidade de falar em público, de se expressar com autonomia, porém é imperativo que nos posicionamos sobre questões de relevância, tanto universais como do nosso entorno. Dar uma opinião não requer estar certo, por vezes pelo contrário, no diálogo meus interlocutores só podem saber se estou equivocado ou se meu pensamento está restrito sobre algo se eu materializar por meio da linguagem (oral, escrita ou outras) meus juízos.
Daí a importância de sabermos ouvir e estimularmos as pessoas mais inibidas a contribuírem com suas versões sobre as coisas. Em debates mais profundos é necessário que tenhamos a sensibilidade no modo de se expressar para que o outro não nos entenda prepotente, a forma como se diz ou escreve algo pode limitar ou potencializar o conteúdo. Há casos em que você até concorda com o que a pessoa pensa, mas a maneira como tal noção é colocada faz com que nos distanciamos do seu bloco.
A diferença existe e deve ser respeitada, o fato de termos convicção de que nossa representação da realidade é mais correta não nos autoriza a desconsiderar a representação do outro. Não será por meio da imposição da nossa representação que o conhecimento vai se desenvolver, pelo contrário, será tendo como ponto de partida a representação do outro que se pode avançar, o processo educativo deve levar em conta esses detalhes. Aqueles que realmente nos ensinaram e irão ensinar levam em conta essas questões, isto é, analisam nossas representações do real e a partir delas nos mostram outras óticas para refinemos nossa capacidade de entender a vida, o mundo e as relações das quais somos frutos e construtores.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Fatos em foco

Professores públicos de Minas precisam da solidariedade nacional dos trabalhadores

28/09/2011

Hamilton Octavio de Souza


Evasão crescente

O grande problema de facilitar a vinda do capital estrangeiro para o Brasil é que a evasão da riqueza gerada aqui, com o suor dos trabalhadores brasileiros, não para de crescer. Em agosto, a remessa de lucros das transnacionais instaladas aqui chegou a 5,1 bilhões de dólares, 180% superior à remessa do mês anterior. É o recorde registrado pelo Banco Central em mais de 60 anos. Por que não existe exigência de investimento no Brasil?

Devastação

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou, dia 21, versão piorada da reforma do Código Florestal. Em nota, o movimento Greenpeace denunciou a manobra ao afirmar que “os senadores empurraram para frente um Código Florestal que desprotege as florestas”. Por sua vez, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil decidiu engrossar a defesa das florestas em campanha junto aos fiéis. A luta continua!

Luta operária

O Sindicato dos Químicos, que representa uma das maiores categorias profissionais de São Paulo, aprova dia 30 a pauta da campanha salarial deste ano, que inclui reposição da inflação mais 6% de aumento real, piso de R$1.200, participação nos lucros, redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e fim das dispensas imotivadas – nos termos da Convenção 158, da OIT, que é de 1982 e ainda não vigora no Brasil.


Pura retórica

Assim como os políticos e governantes dos Estados Unidos e Europa falam em aumentar os impostos dos ricos para conter os estragos da crise econômica, aqui no Brasil alguns parlamentares adotaram o mesmo discurso para captar recursos destinados ao falido sistema público de saúde. Só falta mesmo alguma iniciativa séria para transformar o discurso em medidas concretas. Quem tem coragem?

Vulnerabilidade

A mais séria pesquisa realizada no Brasil sobre tecnologias da informação e da comunicação, publicada em 2011, constata que 74% dos usuários da Internet na faixa dos 10 aos 15 anos de idade participam de sites de relacionamento, 69% tem ao menos um amigo virtual, 12% já namoraram pela rede, 11% já divulgaram fotos íntimas e 33% sabem de amigos que sofreram cyberbullying. Como promover os direitos de crianças e adolescentes no ciberespaço?

Empulhação

A aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que cria a Comissão da Verdade, piorado pelas concessões do PT ao DEM e ao PSDB, está sendo muito criticada por entidades de direitos humanos e familiares das vítimas da ditadura civil-militar (1964-1985). Todos pedem que o Senado realize várias mudanças no texto para assegurar a apuração efetiva dos crimes praticados pelo Estado. Será que o Senado vai sair do acordão?

Ação paramilitar

A Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, do Rio de Janeiro, está mobilizando apoio em todo o país para denunciar as ameaças e atentados contra a militante dos direitos humanos Márcia Honorato, que há vários anos é perseguida por policiais e milicianos e, recentemente, quase foi atropelada, próximo da Central do Brasil, por um carro ocupado por homens encapuzados. A segurança da Márcia depende das autoridades!

Solidariedade já!

A greve dos professores públicos de Minas Gerais é legal, justa e legítima. Eles defendem o piso salarial nacional e a dignidade da categoria. Estão sofrendo ameaças do governo tucano, de chefetes capachos, do Tribunal de Justiça do Estado e da mídia conservadora. Precisam da solidariedade nacional dos trabalhadores e de todos os cidadãos e cidadãs que defendem uma educação pública de qualidade. Chega de enganação!

Correção

Na coluna anterior informei erradamente que um programa da Rede Bandeirantes – sobre prostituição infantil – não teria ido ao ar por veto da direção da emissora. Na verdade, o programa acabou indo ao ar com alterações feitas a pedido de diretores da Band, que estavam receosos de que o impacto do programa pudesse prejudicar negócios da emissora na cidade do Recife. A censura, mesmo pequena, existiu.

Coluna originalmente publicada na edição impressa 446 do Brasil de Fato

sexta-feira, setembro 23, 2011

10% do PIB para a educação já!


Tomar as ruas, lutar por direitos, assumir bandeiras coletivas, eis a função social real de nos movermos todos pela educação.

Por Roberta Traspadini

Fonte: Brasil de Fato


1. A educação pede socorro:

O orçamento geral da União de 2010 foi de R$1,4 trilhão de reais. Este valor é dividido, como gasto público, com base nas prioridades do Governo Federal. Foram destinados R$635 bilhões (44,93%) do total do orçamento a pagamentos de juros e amortizações das dívidas do Governo Federal, enquanto a educação recebeu somente 2,89% do valor total.

Neste processo de priorizar o pagamento das dívidas e o financiamento de projetos do capital, crescem as iniciativas sociais de “recuperação da educação pública brasileira”, protagonizadas pelas organizações sem fins lucrativos (ONG´s).

Amigos da Escola e Todos pela Educação são exemplos da lógica dominante de aparente socorro do público pelo privado, que mascara a condução política dos recursos públicos pelo grande capital.

O projeto Todos pela educação criado em 2006, traça 5 metas para o período de 2006-2022 que, segundo seus porta-vozes, deverão reverter o quadro de dependência e sujeição histórica da fração mais pobre da sociedade brasileira.

As metas são: 1) Toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola; 2) Toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos; 3) Todo aluno com aprendizado adequado à sua série; 4) Todo jovem com o Ensino Médio concluído até os 19 anos; 5) Investimento em Educação ampliado e bem gerido.

Entre os patrocinadores do projeto estão: Santander, Dpaschoal, institutos Unibanco, HSBC, Camargo Correa, Odebrecht, Itaú Social, Gerdau, Fundações Bradesco, Suzano papel e celulose. A Rede Globo entra como parceira e Amigos da Escola e Microsoft, apoiadores.

Estas pessoas jurídicas acima são o corpo social do grande capital, cuja razão real de ser, é desconhecida por grande parte da sociedade brasileira. O que caracteriza a responsabilidade social? Quanto uma fundação que executa atividades como estas, pode isentar-se de parte dos impostos devidos sobre sua base de lucros no ano corrente?

Também chama a atenção no site Amigos da Escola a concepção de trabalho voluntário, a partir da consciência individual sobre a participação para um futuro inclusivo para fração da sociedade.

Em nenhum destes programas o problema central da educação nos remete ao processo político dos gastos públicos brasileiros que transforma o essencial em periférico, como é o caso da educação.

Estes projetos contam com todos os recursos para propagandear suas verdades, uma vez que consolidam a concepção do voluntário cidadão que está servindo ao futuro da Nação, ao destinar seu tempo e coração a estas ações.

Os trabalhadores voluntários merecem nossa atenção, dada a disputa que necessitamos realizar. Mas os que convocam, são usurpadores do tempo, do trabalho, da cidadania participativa concreta.

2. Luta pela educação como direito:

O que estes projetos ocultam, na faceta de amigos e todos pela escola, é a real necessidade do direito democrático e popular do povo brasileiro de exigir e lutar por/pela:

- uma educação pública de qualidade com o compromisso do Estado de cumprir com sua função republicana de destinar uma verba compatível com aquilo que recebe de impostos de sua sociedade. 10% do PIB para a educação já.

- condições dignas de trabalho e de remuneração para os educadores e funcionários públicos da educação, que têm atuado, a partir dos salários que recebem como voluntários pela justiça social.

- garantia de acesso-permanência da criança e do jovem na escola e de uma aprendizagem de saberes múltiplos que remetam o papel essencial da escola na vida destes sujeitos. A escola como espaço fomentador de beleza e cultivo, próprio para gerar algo para além de seus muros: a realização dos sonhos potencializada pela educação pública de qualidade.

- realização de uma alimentação escolar digna. Na atualidade, tanto as crianças como as merendas são tratadas como recursos em disputa a serem barateados.

- conformação de um serviço público prioritário, em que não se terceirizem funções estratégicas do cuidar, como a limpeza, a segurança e a manutenção geral do ambiente escolar.

3. Sujeitos de direitos x amigos da escola:

Agiremos em prol da educação como cidadãos se deixarmos de sermos amigos e passarmos à condição de sujeitos de direitos e deveres em pé de igualdade. Isto requer ver a escola não a partir do que cada um possa dar, mas pela instituição do caráter legítimo e legal de que todos devem ter acesso à educação de qualidade, como direito.

Tomar as ruas, lutar por direitos, assumir bandeiras coletivas, eis a função social real de nos movermos todos pela educação.

Gerar um antivalor à educação projetada pelo capital, associado à governança pública, cuja ação é a de substituir direito por benevolência, recursos públicos por trabalho voluntário, consciência de classe por doação individual de seus saberes.

A movimentação social da educação mineira, há mais de 100 dias em greve, nos dá ares reais da necessidade de reversão do histórico quadro de precarização da educação pública. Mexeu com o professor, mexeu conosco em qualquer parte do País e do mundo!

A escola pública brasileira não necessita de amigos. Necessita de políticas públicas que consolidem direitos e garantam a prioridade na formação da infância e da juventude. Há um projeto em disputa. É necessário que compremos a briga, que declaremos nossas diferenças, que instituamos nossas verdades frente à fantasia organizada pelo grande capital.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Quarto de dormir

um dia desses você vai ficar lembrando de nós dois
e não vai acender a luz do quarto quando o sol se for
bem abraçada no lençol da cama vai chorar por nós
pensando no escuro ter ouvido o som da minha voz
vai acariciar seu próprio corpo e na imaginação
fazer de conta que a sua agora é a minha mão
mas eu não vou saber de nada do que você vai sentir
sozinha no seu quarto de dormir

no cine-pensamento eu também tento reconstituir
as coisas que um dia você disse pra me seduzir
enquanto na janela espero a chuva que não quer cair
o vento traz o riso seu que sempre me fazia rir
e o mundo vai dar voltas sobre voltas ao redor de si
até toda memória dessa nossa estória se extinguir
e você nunca vai saber de nada do que eu senti
sozinho no meu quarto de dormir

Composição: Marcelo Jeneci e Arnaldo Antunes