sábado, abril 30, 2011

Alternância de Poder como instrumento de controle burguês

Por Raphael Tsavkko

Fonte Diário da Liberdade

Alternância de poder é o nome bonito que a burguesia, a elite, usa para garantir que nenhum governo de Esquerda possa durar mais do que o tempo que esta elite permitir.


Alternância de poder é a forma pela qual a burguesia faz parecer que respeita a democracia, criada por ela, a mesmo tempo em que nada muda. De forma inteligente, transformam a alternância em algo ligado apenas à pessoa, ao indivíduo, mas jamais ao partido ou ao grupo político em si.

A idéia de alternância é corrompida por uma elite interessada em se perpetuar, e ao mesmo tempo, acaba demonstrando uma falha tradicional das esquerdas, que é a insistência em fabricar líderes personalistas e não uma variedade de quadros de renome.

A elite fabrica um número quase infinito de candidatos, investe quanto dinheiro tiver interesse neles e pode trocá-los de tempos em tempos, fazendo parecer que houve alguma alternância, quando, na verdade, mudou a figura teoricamente no poder, mas não a classe por trás, não os que se beneficiaram do governo e muito menos mudou o modelo, a estrutura.

A esquerda, por outro lado, tem a tradição de ter um nome forte, um Chávez, um Morales (até mesmo um Vargas para determinados grupos) que, ao buscarem se re-eleger - pois dificilmente fazem sucessores tão fortes quanto eles - são acusados pelas forças conservadoras de desrespeitar o princípio sagrado da alternância de poder, simplesmente porque seu modelo de governo não corresponde aos anseios da elite.

O fato de "democracia" significar, em termos eleitorais, que quem tem mais votos vence, sempre que o vencedor se opõe, mesmo que minimamente, aos interesses da elite, é tachado de ditador (ou ditatorial).

Sempre aquele que se elege distante dos interesses da burguesia é chamado de perigo para esta mesma democoracia. É um perigo que alguém possa, dentro de um modelo criado para as elites, se perpetuar, chegar ao poder e ficar.

As elites apenas fingem que o poder está nas mãos do povo (apesar do voto ser igual pra todos, a mídia está nas mãos da elite, que pode manipular aqueles que votam), na verdade seu interesse é dar a impressão de que o povo decide, mas é seu poder econômico, representado pelo consumismo, pela propaganda, pelo mais puro marketing que (deve) prevalecer.

Quando isto não funciona, a democracia está em perigo.

Isto pode ser perfeitamente ilustrado por uma notícia recente do Opera Mundi, em que o candidato às eleições peruanas Alvaro Toledo, que acabou longe do segundo turno, a ser disputada por Keiko Fujimori e Ollanta humala, anuncia a todos que a "democracia está ameaçada" porque o candidato em primeiro lugar é um socialista aos moldes Chavistas, logo, não representa os interesses da elite que Toledo representa.

A direita brasileira também é incrível. Partidos hoje com nomes irônicos como "Democratas" ou "Partido Popular" foram base de sustentação do regime absolutamente anti-democrático conhecido como Ditadura Militar, mas posam de defensores eternos da democracia. Muitos relembram com saudosismo o período em que a alternância de poder se dava entre generais, sem qualquer participação popular.

Muitos destes hoje se declaram defensores da democracia (apenas porque ainda lhes garante lucros), mas não se cansaram de bradar que Lula era um ditador, por ter virado um objeto de adoração por parte de ampla camada da sociedade. Fernando Henrique pressionou o congresso para criar o instrumento da reeleição - que não existia antes - para que este pudesse continuar no poder. Por representar os interesses das elites, não houve reclamação.

A mídia criou o factóide de que Lula iria buscar uma segunda re-eleição, e foi uma gritaria.

Mesmo que Lula não tenha sido em si um opositor das elites - em muitos aspectos defendeu ou não se opôs a seus interesses -, seu discurso as desconcertava.

Exemplos semelhantes são inúmeros, inesgotáveis. A idéia central, enfim, é a de que a Alternância de Poder é um instrumento tipicamente burguês enquanto compreendido apenas como a troca de nomes, de figuras simbólicas, mas sem que haja qualquer modificação nas estruturas.

quarta-feira, abril 27, 2011

Papai, o que é Páscoa?

Por Luiz Fernando Veríssimo



Papai, o que é Páscoa?

- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
Igual ao Natal?

- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.

- Ressurreição?
- É, ressurreição. Marta , vem cá !


- Sim?


- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido.

Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu ?

- Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?

- O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho...

Jesus Cristo é o Papai do Céu ! Nem parece que esse menino foi batizado!
Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã !

Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola ? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!



- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus ?

- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade... Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.


- O Espírito Santo também é Deus?

- É sim.

- E Minas Gerais?

- Sacrilégio!!!

- É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?

- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa ?


- Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

- Coelho bota ovo ?

- Chega ! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais !

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa ?


- Era... era melhor, sim... ou então urubu.


- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né ? Que dia ele morreu ?



- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.


- Que dia e que mês?

- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sabado de Aleluia.


- Um dia depois!

- Não três dias depois.


- Então morreu na Quarta-feira.


- Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde!



- Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como ?

- Pergunte à sua professora de catecismo!

- Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?


- É que hoje é Sabado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.


- O Judas traiu Jesus no Sábado ?

- Claro que não ! Se Jesus morreu na Sexta !!!


- Então por que eles não malham o Judas no dia certo ?

- Ui...


- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

- Cristo. Jesus Cristo.

- Só ?


- Que eu saiba sim, por quê?

- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?


- Ai coitada

- Coitada de quem?

- Da sua professora de catecismo!










segunda-feira, abril 18, 2011

Lula, a metamorfose que ambula

O ex-presidente Lula, os jornais anunciaram com estardalhaço, iniciou com êxito uma nova e promissora carreira. Ele agora vende palestras. Um palestrante "motivacional" polivalente que oferece o seu talento aos mercados do mundo. O pacote de encomendas, mal começado o outono, se mostra promissor e recheado de clientes de elevadíssimo coturno.

A estréia foi aqui mesmo no Brasil, em São Paulo, no dia 2 de abril: uma "injeção de ânimo" para os vendedores da LG Eletronics, a gigante coreana. A primeira palestra internacional foi contratada por outro portento dos negócios, a Microsoft, e aconteceu em Washington, para onde o ex-presidente se deslocou em jato particular emprestado pela Coteminas, outra grande empresa. Em Acapulco, escala seguinte, o pagamento ficou por conta da Associação dos Bancos do México. Na segunda semana do novo trabalho, o ex-presidente pousou em Londres, com jato fretado, para palestrar sob encomenda da multinacional Telefónica.

Em eventos de tal natureza, fala mais alto o brilho que emana da simples presença da celebridade contratada. Fotografias, autógrafos, coisas do gênero. Trata-se de um ritual onde, ao invés do conteúdo das palestras, o que importa mesmo é a celebração das afinidades. A LG, ao lançar novos produtos, reverencia no palestrante a explosão do consumo na "linha branca". A Microsoft o exibe como exemplo no "Fórum de Líderes do Setor Público para a América Latina e Caribe". Os banqueiros do México e a multinacional da telefonia buscam realçar o que consideram modelar no tratamento dispensado ao capital financeiro e na privatização de serviços públicos.

A remuneração dos "animadores" de tão seletos auditórios nunca é revelada. No entanto, os especialistas que organizam tais eventos afirmam que o ex-presidente assumiu a condição de palestrante mais caro do Brasil. É mais um espaço em que, fazendo a mesma coisa, o Lula produz um rendimento maior do que o Fernando Henrique. Cobra, dizem, duzentos mil reais por palestra no Brasil e até 500 mil no exterior. O ex-presidente, a ser verdade o que está nos jornais, já embolsou mais de um milhão de reais só nas duas primeiras semanas de abril. Se já não é, vai ficar rico.

Não se trata, claro, de criticar a escolha atual do Lula. A opção preferencial pelos ricos vem de antes, da guinada programática operada em seu primeiro governo, e já mereceu a crítica de muitos. O doloroso da novidade de agora é constatar a consolidação de um padrão de política. Além do sindicalismo de resultados, da propaganda suja em campanha eleitoral e até do assassinato em série, essa moda de ex-presidente virar palestrante de luxo é mais uma manifestação do processo de "americanização" da sociedade brasileira.

O Lula fará o que o Fernando Henrique já faz. E a escolha de ambos não passa de uma decorrência lógica e natural da postura adotada pelos dois quando governantes. Eles recebem agora a gratidão e o reconhecimento daqueles setores que se beneficiaram muitíssimo com as políticas postas em prática por seus respectivos governos.

Aliás, a nova carreira do Lula o coloca como colega não apenas de FHC. Ele passa a fazer parte de um verdadeiro time de ex-líderes que, na chefia de governos, agiram como artífices da subordinação da política aos desígnios dos donos do poder econômico. Assim como Lula e FHC, Bill Clinton, Tony Blair, Mikhail Gorbachev, entre outros, também são palestrantes de luxo, pagos não por acaso a peso de ouro.

Social-democratas, trabalhistas, socialistas e até comunistas, oriundos de grupamentos políticos críticos da exploração capitalista, eles governaram como convertidos ao credo financeiro, cristãos novos de uma cruzada cujo deus é o dinheiro. O que o historiador Tony Judt usou para definir Tony Blair, sem dúvida, vale para o grupo inteiro: "ele não acredita em privatização, mas também não é contra ela... ele apenas gosta de gente rica".

No começo da sua carreira anterior, quando deixava o trampolim sindical para a disputa no campo aberto da política, o Lula já fazia sucesso como palestrante. Em assembléias, caravanas, comícios e até em reuniões freqüentadas pela nata da nossa melhor intelectualidade ele dizia coisas muito interessantes e, também ao contrário de agora, não cobrava nada.

Em 1981, no discurso da primeira convenção nacional do PT, ele afirmava que o partido então criado, "uma inovação histórica", viria para livrar a classe trabalhadora da condição de "massa de manobra dos políticos da burguesia". Dizia que o sindicato é ferramenta adequada para melhorar as relações entre o capital e o trabalho, mas o partido é para ir além: "queremos que os trabalhadores sejam os donos dos meios de produção e dos frutos do seu trabalho". Afirmava saber que "o mundo caminha para o socialismo" e que o PT, com sua mística radical, não tinha como objetivo "buscar paliativos para as desigualdades do capitalismo".

Nenhum banqueiro ou multinacional de qualquer área cometeria o equívoco de colocar seus convidados para ouvir o que falava o Lula da fase anterior. Intuitivo talentoso, empirista radical, pragmático até a medula, o ex-presidente está em outra, fala "outras palavras". Afinal, ele nunca escondeu de ninguém a sua condição de metamorfose ambulante. O discurso inaugural da carreira anterior serve para mostrar o tamanho da mudança e para onde a metamorfose ambula.

Léo Lince é sociólogo.

sexta-feira, abril 15, 2011

Elogio do Comunismo


Ele é razoável. Todos o compreendem. Ele é simples.
Você, por certo, não é nenhum explorador. Você pode entendê-lo.
Ele é bom para você. Informe-se sobre ele.
Os idiotas dizem-no idiota e os porcos dizem-no porco.
Ele é contra a sujeira e contra a estupidez.
Os exploradores dizem-no um crime,
mas nós sabemos
que ele é o fim dos crimes;
ele não é a loucura e sim
o fim da loucura.
Não é o caos e sim
uma nova ordem.
Ele é a simplicidade.
O difícil de fazer.


Bertolt Brecht

domingo, abril 03, 2011

Quando matar se torna prazer

Imagens de militares norte-americanos matando civis indefesos no Sul do Afeganistão evoca o temor de um novo Abu Ghraib

Militar sorri frente à sua vítima. Os próprios soldados registraram as cenas<br /><b>Crédito: </b> Reprodução / www.rolingstone.com / cp
Militar sorri frente à sua vítima. Os próprios soldados registraram as cenas
Crédito: Reprodução / www.rolingstone.com / cp


Washington - Em fevereiro de 2009, o então recém-empossado presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, determinou o envio de um reforço de 17 mil soldados para o Afeganistão. O novo contingente teve por base duas grandes formações: a 2 Brigada Expedicionária de Fuzileiros Navais, sediada em Camp Lejeune, Carolina do Norte, e a 5 Brigada Stryker da 2 Divisão de Infantaria, de Fort Lewis, Washington. Aproximadamente um ano depois, um grupo de soldados desta segunda formação viria a ser protagonista de um dos casos mais nefastos e brutais de violação dos direitos humanos ocorridos em quase dez anos de guerra no país asiático.

Ao longo dos primeiros cinco meses de 2010, um pelotão da 5 Brigada Stryker, que opera em Kandahar, no Sul afegão, teria assassinado, de forma aleatória e gratuita, civis afegãos desarmados. Além disso, o grupo é acusado de mutilar vários dos cadáveres em um remoto vilarejo da região, chamado de Mohammad Kalay. Não satisfeitos, os militares do denominado "Time da Morte" registraram a matança em dezenas de fotos, tendo chegado a postar algumas delas em sites de relacionamentos da Internet.

Segundo informação da revista norte-americana Rolling Stone, antes de os crimes de guerra tornarem-se públicos o Pentágono tomou medidas extraordinárias para suprimir as fotos da rede - desenvolvendo um enorme esforço para encontrar todos os arquivos e neutralizá-los antes que pudessem deflagrar um escândalo na escala que marcou os casos de tortura a prisioneiros iraquianos por soldados estadunidenses na prisão de Abu Ghraib, localizada em Bagdá.

Muitas destas imagens - cerca de 150 delas -, porém, foram obtidas e divulgadas pela Rolling Stone e pela revista alemã Der Spiegel. A publicação norte-americana chegou a disponibilizar as fotos em seu website, juntamente com uma reportagem especial sobre o assunto, datada de 27 de março e assinada pelo jornalista Mark Boal. Segundo a Rolling Stone, as imagens "retratam a cultura de uma linha de frente entre as tropas dos EUA em que a morte de civis inocentes é vista como motivo de comemoração".

Assim que a publicação alemã Der Spiegel chegou às bancas, no dia 21, a secretária de Estado Hillary Clinton teria telefonado ao governo afegão para falar sobre o caso. "A maioria das pessoas dentro da unidade não gostava do povo afegão", disse um dos soldados aos investigadores do Exército depois que os crimes vieram à tona. "Toda mundo diria que eles são selvagens."

obs: reportagem retirada do Correio do povo de 03/04/2011

sexta-feira, abril 01, 2011

A Ditadura brasileira ainda viva – a cidadania torturada

Por Alexandre Haubrich, jornalista, editor do blog Jornalismo B (http://jornalismob.wordpress.com / http://twitter.com/jornalismob / http://twitter.com/alexhaubrich)

Aos quatro anos de idade, Edson Teles entrou em um prédio na Rua Tutóia, no bairro do Paraíso, em São Paulo para encontrar os pais, que não via há alguns dias. Simpáticos nomes o da rua e o do bairro. Edson ouviu a voz da mãe chamando seu nome, mas, quando se virou, não reconheceu o rosto e o corpo que portavam aquela voz. Em seguida, encontrou o pai, em outra sala, sentado em uma cadeira aparentemente normal para uma criança. Mas havia cintas de couro nos braços da cadeira. Era 1972, e Edson visitava os pais no DOI-CODI, centro da repressão da Ditadura Militar brasileira. “Meu filho perguntou 'por que o pai é verde?' e minha filha perguntou por que eu estava azul”, contou anos atrás a mãe de Edson, Maria Amélia de Almeida Teles.

Na última semana, em um seminário em Porto Alegre, Edson desabafou: “me envergonho de ser brasileiro. Oferecemos o Brasil para ser paraíso dos torturadores. Se torturarem em nome do Estado, aqui são anistiados”. E Edson e sua irmã Janaína não são um caso raro. Muitas crianças viram seus pais serem torturados pelo Estado brasileiro que, entre 1964 e 1985, impôs a seus cidadãos o fim da cidadania e de qualquer possibilidade de dignidade. Socos e pontapés eram carinhos. A violência vinha através de choques elétricos por todo o corpo, afogamentos, fuzilamentos simulados. Homens e mulheres, muitas vezes nus, eram pendurados em paus-de-arara, humilhados de todas as formas, reduzidos a nada. E se Edson e Janaína não são um caso raro, e tampouco a tortura a que foram submetidos seus pais foi um caso raro, também não foi a tortura a única forma pela qual cidadãos brasileiros foram agredidos por seu próprio Estado.

Assassinatos e sequestros também eram comuns. Sim, hoje ainda são. Mas, naqueles anos, quem cometia esses crimes era o Estado, e os cometia como Estado, não apenas através de indivíduos que corrompiam as instituições. O Estado e seus agentes eram os criminosos, os assassinos, sequestradores, torturadores. Brasil nunca mais. Muitos cidadãos brasileiros foram obrigados a fugir do país. Deixaram para trás seu lugar e seus familiares, amigos, colegas. Deixaram para trás toda uma vida para começarem a construir outra longe daqui.

O silêncio, para os militares e civis que referendaram o Golpe de 1964, era a causa pela qual lutavam. Gritos? Permitidos apenas nas salas de tortura, e apenas gritos de dor. Parte significativa da imprensa apoiou a Ditadura de seu início até as portas de seu fim, quando percebeu que, ou abandonava o moribundo, ou morreria junto. A outra parte da imprensa, porém, a parte séria, viu muitos de seus representantes torturados, desaparecidos ou acuados. O fetiche do silêncio.

Derrubada a democracia que se aprofundava no governo João Goulart, os golpistas não queriam mais saber de política, apenas de poder. Um professor falando sobre política em aula poderia ser denunciado por um aluno como terrorista. A mesma coisa em conversas de bar ou de qualquer lugar. O risco de tortura, assassinato ou “desaparecimento” sempre iminente. Se antes a política já era afastada do povo, em 64 o Estado tirou do povo o direito de se aproximar da política.

Com a chamada “abertura democrática” da década de 1980, não acabou-se verdadeiramente com a Ditadura. Até hoje suas sobras contaminam a vida dos brasileiros. A herança da Idade das Trevas tupiniquim está no autoritarismo e na violência policial, na despolitização popular, na agressividade da direita, na ignorância, no conservadorismo moral preconceituoso, racista, machista e homofóbico. Esses resquícios sobrevivem também no imaginário demente de alguns políticos e alguns militares que anseiam pela reinstitucionalização de todos esses absurdos.

Continuam dominando importantes setores do país as pessoas que financiaram e apoiaram de diversas formas a Ditadura Militar. Grandes empresários, destacados políticos, graduados militares. Os donos da comunicação brasileira também entram nesse bolo. É por tudo isso que, enquanto nossos países vizinhos agem para limpar a sujeira deixada por suas respectivas ditaduras – sem varrer essa sujeira para baixo do tapete –, aqui o silêncio segue imposto.

É para punir os responsáveis pelo massacre da cidadania brasileira que é necessário revisar a Lei da Anistia, assinada em 1979, que, ao mesmo tempo em que beneficiou quem lutava por um Estado democrático, absolveu automaticamente as pessoas que, em nome do Estado brasileiro, cometeram todos os tipos de crime. A tortura e o assassinato em nome do Estado foram permitidos, o que configura uma arbitrariedade e um desrespeito aos brasileiros representados por esse Estado. Os cidadãos que lutaram contra a Ditadura Militar já foram fortemente punidos das mais diversas formas ainda durante aquele período. Os representantes dessa Ditadura, não. Além disso, a Lei da Anistia foi aprovada pelos opositores ao regime com uma arma na cabeça. Da mesma forma que obtinham confissões através da tortura, os governantes de então impuseram sua própria imunidade como condição para deixarem o povo brasileiro ser re-empoderado minimamente.

A abertura imediata de todos os arquivos da Ditadura Militar e a ampla divulgação de seu conteúdo, assim como o trabalho de resgate histórico do que vivemos, é outra obrigação do Estado brasileiro. Os cidadãos têm o direito de conhecer sua própria história, a história de seu país. Se o Estado é uma instituição da sociedade, e esta é formada pelo conjunto dos indivíduos, o Estado somos nós, e nós temos o direito de conhecer a verdade e o dever de lutar por esse direito. Para que não corramos o risco de retornar àquela situação de terror precisamos saber detalhadamente o que nos levou a ela o que a manteve por tanto tempo. Só assim, com a punição dos gerentes da nossa Idade das Trevas e com o direito à verdade, poderemos realmente encarar de frente as heranças daquele tempo que ainda nos assombram.

quarta-feira, março 30, 2011

Einstein

Obs: eu usaria o termo "ser humano" ao invés de "homem", mas naquela época as conquistas feministas eram mais modestas que em nosso tempo.

"Estranha é a nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta passagem, sem saber por quê, ainda que algumas vezes tentando adivinhar um propósito. Do ponto de vista da vida cotidiano, porém, de uma coisa sabemos: o homem está aqui pelo bem de outros homens - acima de tudo daqueles de cujos sorrisos e bem-estar nossa própria felicidade depende." Albert Einstein

Essa passagem se encontra na página 274 do livro "Deus um delírio" de Richard Dawkins.

segunda-feira, março 21, 2011

Kadafi e as potências ocidentais

Por Frei Betto, publicado no sítio da Adital:

As potências ocidentais, lideradas pelos EUA, botam a boca no trombone em defesa dos direitos humanos na Líbia. E as ocupações genocidas do Iraque e do Afeganistão? Quem dobra os sinos por um milhão de mortos no Iraque? Quem conduz à Corte Internacional de Justiça da ONU os assassinos confessos no Afeganistão, os responsáveis por crimes de lesa-humanidade? Por que o Conselho de Segurança da ONU não diz uma palavra contra os massacres praticados contra os povos iraquiano, afegão e palestino?

O interesse dos EUA e da União Europeia não é a defesa dos direitos humanos na Líbia. É assegurar o controle de um território que produz 1,7 milhão de barris de petróleo por dia, dos quais depende a energia de países como Itália, Portugal, Áustria e Irlanda.

O caso do Iraque é exemplar: os EUA inventaram as jamais encontradas "armas de destruição em massa” de Saddam Hussein para exercer o controle sobre um país que é o segundo maior produtor mundial de petróleo – 2,11 milhões de barris por dia, só superado pela Arábia Saudita. E possui uma reserva calculada em 115 bilhões de barris. Soma-se a essa riqueza o fato de ocupar uma posição geográfica estratégica, já que faz fronteiras com Arábia Saudita, Irã, Jordânia, Kwait, Síria e Turquia.

No próximo dia 20 de março completam-se oito anos que os EUA e parceiros invadiram o Iraque sob o pretexto de "estabelecer a democracia”. O governo de Maliki está longe do que possa ser considerado uma democracia. Em fevereiro último, milhares de iraquianos foram às ruas para reivindicar trabalho, pão, eletricidade e água potável. O exército os reprimiu brutalmente, com mortes, detenções arbitrárias e sequestro de ativistas. Nenhuma potência mundial clamou em favor do direitos humanos nem sugeriu que Maliki responda perante tribunais internacionais.

A ONU é, hoje, lamentavelmente, uma instituição desacreditada. Os EUA a utilizam para aprovar resoluções que justifiquem seu papel de polícia global a serviço de um sistema injusto e excludente. Quando a ONU aprova resoluções que contrariam a Casa Branca – como a condenação do bloqueio a Cuba e da opressão dos palestinos – ela simplesmente faz ouvidos moucos.

Kadafi está no poder desde 1969. São 42 anos de ditadura. Por que os EUA e a União Europeia jamais falaram em derrubá-lo? Porque, apesar de seus atentados terroristas, era conveniente manter ali um déspota que atraía investimentos estrangeiros e impedia que chegassem à Europa os imigrantes ilegais da África subsaariana, ou seja, todos os países ao sul do deserto de Saara.

Agora que o povo líbio clama por liberdade, os EUA ocupam posições estratégicas no Mediterrâneo. Barcos anfíbios, aviões e helicópteros são transportados pelos navios de guerra US Ponce e US Kearsarge. A União Europeia, por sua vez, não está preocupada com a democracia na Líbia, e sim em evitar que milhares de refugiados desembarquem em seus países combalidos pela crise financeira.

Temem ainda que a onda libertária que assola os países árabes produtores de petróleo elevem o preço do produto, onerando ainda mais as potências ocidentais, que lutam com dificuldade para vencer a crise do sistema capitalista.

Fala-se em estabelecer uma "zona de exclusão aérea” na Líbia. Isso significa bombardear os aeroportos do país e todas as aeronaves ali estacionadas. E exige o envio de porta-aviões às costas africanas. Em suma: uma nova frente de guerra.

O fato é que a Casa Branca foi surpreendida pelo movimento libertário no mundo árabe e, agora, não sabe como proceder. Era mais cômodo prosseguir cúmplice dos regimes autoritários em troca de fontes de energia, como gás e petróleo. Mas como opor-se ao clamor por democracia e evitar o risco de o governo de tais países cair em mãos de fundamentalistas?

Kadafi chegou ao poder com amplo apoio popular ao derrubar o regime tirânico do rei Idris, em 1969. Mordido pela mosca azul, com o tempo esqueceu todas a promessas libertárias que fizera. Em 1974, valendo-se da recessão mundial, expulsou as empresas ocidentais, expropriou propriedades estrangeiras, e promoveu uma série de reformas progressistas que fizeram melhorar a qualidade de vida dos líbios.

Finda a União Soviética, a partir de 1993 Kadafi deu boas-vindas aos investimentos estrangeiros. Após a queda de Saddam, temendo ser a bola da vez, assinou acordos para erradicar armas de destruição em massa e indenizou vítimas de seus atentados terroristas. Tornou-se feroz caçador de Osama Bin Laden. Pediu ingresso no FMI, criou zonas especiais de livre comércio, abriu o país às transnacionais do petróleo e eliminou os subsídios aos produtos alimentícios de primeira necessidade. Iniciou o processo de privatização da economia, o que fez o desemprego aumentar cerca de 30% e agravar a desigualdade social.

Kadafi mereceu elogios de Tony Blair, Berlusconi, Sarkozy e Zapatero. Como ao Ocidente, desagradou-lhe a derrubada dos governos tirânicos da Tunísia e do Egito. Agora, atira contra um povo desarmado que aspira vê-lo fora do poder.

Para as potências ocidentais, Kadafi tornou-se uma carta fora do baralho. O problema, agora, é como derrubá-lo de fato sem abrir uma nova frente de guerra e tornar a Líbia um "protetorado” sob controle da Casa Branca. Se Kadafi resistir, Bin Laden pode ganhar mais um aliado ou, no mínimo, um concorrente em matéria de ameaças terroristas.

O discurso do Ocidente é a democracia. O interesse, o petróleo. E para o capitalismo, só isto interessa: privatizar as fontes de riqueza. Enquanto a lógica do capital predominar sobre a da liberdade, o Ocidente jamais conhecerá verdadeiras democracias, aquelas nas quais a maioria do povo decide os destinos da nação.

segunda-feira, março 14, 2011

Sobre a educação no governo Tarso Genro

Texto retirado da edição de 14/03/2011 do Correio do povo.

Gregório Grisa

Parece que o novo secretário de Educação, professor doutor José Clóvis de Azevedo, sabe que implantar políticas meritocráticas significa tratar dos efeitos dos problemas educacionais e não das causas. O poder Executivo deve ter como prioridades atacar problemas experimentados por quem vive o chão da escola. O Estado deve retomar uma política de concursos públicos e valorização da carreira do magistério. Hoje, a política de contratação do magistério tem priorizado o contrato ao concurso, isso promove um conjunto de problemas, desde a insegurança e a falta de compromisso do trabalhador, que vê seu emprego flexibilizado, até o fato dessa situação servir de mecanismo de controle político exercido por diretores e administradores públicos.

Em inúmeras bibliotecas de escolas estaduais não há bibliotecários, quem ocupa tal função são professores ou funcionários realocados para um serviço em que não são especializados nem preparados. Esse fenômeno é muito comum e prejudica, não só a qualidade do trabalho nas bibliotecas, como as relações profissionais dentro da escola, pois o redirecionamento de pessoal também é mecanismo punitivo, ou de garantia de privilégio, dependendo do caso. Essa realocação ocorre, também, no lecionar das disciplinas de Filosofia e Sociologia do ensino médio que, em muitos casos, são dadas por pedagogos ou assistentes sociais.

Esses são alguns tópicos para pensar medidas possíveis e acertadas. Sabemos que os maiores problemas são estruturais e que, sem base salarial justa, sem estrutura física de qualidade nas escolas, sem aperfeiçoamento da gestão democrática em todos os níveis, pouco vai se avançar. Ao invés de seguir "medindo" índices de aprendizagem e buscando estratagemas mil para interpretá-los, é necessário consolidar conquistas de carreira e avançar.

pedagogo, doutorando em Educação na Ufrgs

sábado, março 12, 2011

As várias formas de escrever o belo

Por Israel Dutra

O filme “Biutiful” merece muito mais do que um Oscar. Ele toca fundo. E, curiosamente, das mais variadas formas. Podemos atribuir destaque a um enredo provocante, inovador. Podemos eleger uma coleção de cenas, que por si só, são inesquecíveis. Podemos reverenciar a atuação brilhante de Bardem. Poderíamos, contudo, ressaltar a beleza ímpar do cinema de González Iñárritu, cheia de artifícios riquíssimos. Ou só pelos contrastes das fotografias, uma estética improvisada e segura, num cenário repleto da vida de Barcelona. As variantes do belo conformam o mosaico de Biutiful.

A história é contada com grande sensibilidade. Uxbal, o protagonista interpretado por Javier Bardem, é um médium, sem emprego formal, vivendo sempre em crise. Por um lado, tem a árdua tarefa de criar dois filhos- com quem mantém uma relação carinhosa-, encarar a relação com a ex-esposa [bipolar, com fortes transtornos compulsivos]. Sua vida social alterna entre a atividade espiritual e uma série de atividades ilícitas de contrabando e agenciamento de mão de obra ilegal. Os outros personagens que se enlaçam no filme são o seu irmão[sustentado pela vida noturna], um empresário chinês que vive controversa relação homossexual e depende diretamente da exploração da mão de obra semi-escrava de seus compatriotas, imigrantes africanos ilegais que vivem de contrabando, um policial corrupto. Toda esta trama está marcada pela incidência da morte. Os “encaixes” se dão de forma inusitada, levando a interessantes diálogos, onde o contraste com a morte serve para ressaltar os aspectos mais luminosos da vida. A descoberta, por parte de Uxbal, de um câncer de próstata terminal, sela o destino dos personagens do filme. A morte, que o acompanha na lida cotidiana como espiritualista, vai rondar sua vida como “farsa” e “tragédia”- dezenas de chineses são mortos por conta de um vazamento de gás, oriundo da precariedade dos aquecedores que Uxbal encomenda, pensado ser estes a salvação dos trabalhadores ilegais. Ainda assim, por mais “existencialista” que se possa perceber o roteiro, ele tem um inicio, meio e fim; o trajeto bem definido começa e termina com cenas idênticas, contudo, redefinidas no tempo, espaço e significado da obra.

As cenas, mesmo que separadas entre si, são geniais. A primeira cena é marcante. Num dialogo com a filha, Uxbal, voz rouca e debilitada, lembra sua família, seus pais, como exilados que vão para o México para escapar da ditadura de Franco. Logo após, ele recorda que escutava uma rádio, quando pequeno, que reproduzia o som das ondas do mar. A cena se agiganta, com a entrada de sons de rádio em sintonia e das próprias ondas do mar. Outra cena: no meio dos Pirineus, Uxbal alterna o dialogo com seu pai e seu filho, numa visão futurista. Outra cena incrível , contudo, é a que uma imigrante senegalesa apresenta seu filho, Samuel. Ela explica que é uma homenagem do pai, torcedor do Barcelona ao craque camaronês E´to. E na maior parte destas cenas riquíssimas, ao fundo encontramos Barcelona, de inúmeras formas. Quase como uma provocação, ela aparece sempre a meia luz, seja em suas praças centrais ou no território da periferia ou submundo, privilegiando o chamado “lusco-fusco”, a indefinição se é dia ou noite.

Bardem, de sua parte, chega ao auge, podemos dizer. Ele se aproxima de sua atuação em “Mar Adentro”- quando representa o caso real de Ramon San Pedro, tetraplégico aos 26 anos que lutou por seu direito à morte. Na interpretação de Uxbal , leva ao extremo a valorização da vida, na suas relações com os filhos, com a ex-esposa e com os trabalhadores que agencia. Irranitu não utiliza do moralismo, ao contrário, o interdita. A caminhada ao lado da morte, traz a Uxbal o contraste da vida. Bardem assume o personagem quase como o próprio “médium”, numa atuação que entra para a história recente do cinema.

O toque do diretor completa a obra. Depois da ruptura de Inarritu com seu tradicional parceiro dos aclamados 21 Gramas e Babel, Guillermo Arriaga, pairavam dúvidas sobre os novos rumos do diretor mexicano. A trama psicológica que é guiada pelo pano fundo de vários conflitos sociais explicitos traz originalidade. Barcelona, a “cidade aberta” de uma Europa cada vez mais fechada, é apresentada sem fetiches. Os dramas dos imigrantes, com condições desumanas que lembram em muito as fábricas do capitalismo do século XIX, a rede de corrupção que se articula em torno da ilegalidade, as condições precárias de habitação dos suburbios da Catalunha, são elementos que convivem com a vida, a morte e a consciência de Uxbal. O flerte com o fantástico, adicionando sons, imagens distorcidas à uma realidade crua soa como genial, nos olhos e trejeitos de Bardem. O debate existencial, despido como dito, de qualquer moralismo, vai conduzindo a trama, quase que despretenciosamente para as reminiscencias do próprio diretor. A retirada do pai de Uxbal para o México de Inarritu, a dedicatória final ao pai, a relação dilacerada e preocupada de um pai com seus dois filhos; o mundo de Inarritu aparece e desaparece a cada minuto no filme, se realizando de forma defitiva na mais bela metáfora do filme: Como se escreve a palavra “biutiful”?

A relativização do que é ou não é belo, a noção dialética entre a vida e a morte, a perspectiva de uma alteridade no julgamento moral do protagonista, abrem a cabeça. Os mesmos aquecedores que trariam redenção aos chineses são seus algozes silenciosos. A paixão arrebatadora do casal homesexual leva a desconfiança e a morte. A loucura da ex-esposa de Uxbal o faz mais sensato. No jogo do claro-escuro de Barcelona, Inarritu articula sua unidade e luta de contrários. Não há uma “moral da história”.

Os valores e os sentidos da vida devem ser pensados, como queria Sartre, com a consciência de que levamos “A morte na alma”.

domingo, março 06, 2011

Tudo ou nada



Sempre tem algo não é? Todo dia a notícia acontece ou é inventada, a vida não espera nada. Quando digo a vida não falo da minha nem da tua, mas da do mundo, do universo. Sempre acontece tudo e quase sempre não acontece nada para gente, para nossa individual existência, nossa rotina, nossa caminhada de trilhos desenhados na nossa mente. Pessoas morrem sempre, inexoravelmente, às vezes notáveis outras vezes famosos e ainda há a morte dos que famosos ficam exatamente por morrer. Sempre há uma revolta popular, um golpe sendo planejado, um negócio bilionário sendo fechado, um concurso sendo feito e um texto a ser escrito.
Sempre é uma palavra muito definitiva, assim como nunca não é? Não. O sempre existe e o nunca também, embora isso castre nossa veia utópica ou poética. São características do mundo, da vida, nunca vamos voar sozinhos, assim como sempre dependeremos do ar para manter nossa espécie. Sem carbono nunca haveria vida nos moldes que conhecemos, e sem a imaginação sempre iríamos fazer como as formigas que trabalham do mesmo modo a milhões de anos.
O que importam essas informações? Depende. A resposta pode ser nada, se caso você não tem tempo para pensar no tema ou acredita que existe uma transcendência que transforma tudo isso em pó de tão irrelevante. Ou pode ser muito, caso seu cérebro tire folga com freqüência e passeie pelos vales da subjetividade e dedique atenção para entender mais sobre as intrigantes formas que temos de entender o mundo, a nós, e aos outros. A arte cumpre esse papel de uma maneira linda, faz o papel de guia turístico desse passeio. Pena que 80% da humanidade não acessa a beleza, a sensibilidade, as entrelinhas, os achados, a leveza, a profundidade, o conteúdo, o significante e o significado da arte.
Como perde a humanidade com isso, como poderíamos ser melhores, mais justos, tomarmos melhores decisões, como formularíamos melhores nossos juízos se as artes inundassem as mentes dos seres humanos. Menos seriam os absurdos, as violências de toda ordem e teríamos não uma plenitude de felicidade, não me iludo com isso, mas viveríamos nossas infelicidades com mais lucidez, haveria mais nitidez de que as tristezas são parte da existência e podem ser superadas.
Conseguiríamos organizar melhor a vida coletiva, a política, os seres humanos não têm desvios éticos e morais no seu DNA, nem nascem com doses de má fé e vontade. O ser humano construiu e constrói sua história, faz escolhas que se acumulam, se repetem e se transformam em cultura, ninguém é bom ou ruim por natureza. Esse maniqueísmo só serve para convencer e formar ingênuos, as relações humanas são mais complexas que isso. Complexo, aqui no caso, não e sinônimo de difícil, mas sim de maior, mais amplo. Não há solução para tudo, não há perfeição, não há receita para o que não se desenvolveu ficar pronto, ao contrário de um bolo de cenoura, que é engendrado para ter uma forma, o ser humano vive da incompletude e que bom.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Grande Santiago

Eram quase duas horas da manhã, as pálpebras de Alfredo já enfraquecidas diminuíam a curiosidade sobre o horizonte e a caminhada já estava chegando ao fim. Viajar é uma prática comum da família do nosso rapaz e dessa vez o destino foi o Chile. Santiago se mostrava uma capital charmosa e movimentada que mescla a estética do mundo moderno com a contemplação da arquitetura de outrora. Essa é a viagem mais longa que família já fez e custou o preço de não ter havido passeio nas férias últimas.

Dividiram o tempo com a disciplina devida em viagens únicas, conheceram pontos turísticos, aproveitaram a gastronomia e os passeios, tudo dentro do orçamento contado. Santiago, por ser no vale central chileno, oferece um fundo branco e montanhoso, ou se preferirem, a Cordilheira dos Andes, a cidade é o fundo de uma panela de tantas montanhas que a cercam.

O apóstolo Santiago foi homenageado bem longe da terra santa por ser patrono da Espanha e Alfredo se pôs curioso quando na chegada ao hotel ficou sabendo disso através de um senhor que tomava conhaque no bar onde ele fora buscar chá verde para o seu pai. Devido ao horário o serviço de quarto já não funcionava e logo que o chá chegou Alfredo, que gostara do espanhol lento e paciente do senhor, levou-o num pé e retornou no outro.

Ali ficou mais uma hora daquela noite agradável ao se entreter ouvindo mais sobre o Chile e sua capital, ou sobre a opinião daquele senhor sobre sua terra, mas, sobretudo agradou aquele sujeito que adorou ser ouvido com atenção, essa necessária tanto pela língua quanto pelo tema. Alfredo tem sensibilidades como essas que afloram de vez em quando, percebeu que o senhor tinha sede de só e que trôpego ficaria de qualquer forma, então lhe ofereceu companhia para que ambos cambaleassem mais alegres. O senhor das pernas e Alfredo, que não provou nada além de tônica, tropeçava no espanhol mesmo.