quinta-feira, maio 16, 2013

Comentários sobre dados importantes.


Dos jovens entre 18 e 24 anos no Brasil, idade adequada para estar no ensino superior, 51% estão nesse nível de ensino. Entre os jovens brancos nessa faixa etária 65,7% estão em curso superior, já entre os pretos e pardos apenas 35,8% estão. Se olharmos os dados de 10 anos atrás (2001) tínhamos 39,6% dos jovens brancos entre 18 e 24 anos no ensino superior e somente 13,7% dos jovens pretos e pardos. Identificamos com isso que apesar de todos avanços dos últimos anos, a proporção de jovens pretos e pardos no ensino superior hoje ainda não iguala a proporção que os jovens brancos tinham em 2001. Sempre lembrando que a população preta e pardo no Brasil nessa faixa etária é maior que a população branca. 

Fonte: Síntese de Indicadores Sociais de 2012, IBGE.

90% dos casos de câncer na América Latina não têm origem hereditária, são frutos de sedentarismo, maus hábitos alimentares (composição dos alimentos) e poluição dos grandes centros. Diferentes de outros continentes os países latinos tem grandes dificuldades tanto de se chegar ao diagnóstico quanto de iniciar o tratamento que é caro em geral. O Brasil não chega a investir 5% do PIB em saúde pública e passa pelo fenômeno de envelhecimento contínuo da sua população. O câncer é a segunda maior causa de mortes no país e uma lei, que entra em vigor semana que vem, exige que no SUS o tratamento inicie no máximo 60 dias após o diagnóstico ser registrado no prontuário do paciente. Esse início de tratamento pode ser quimioterapia ou radioterapia ou cirurgia. Cabe a nós nos inteirarmos e exigirmos esse direito, para fazer com que a norma se torne realidade e tenha força contra a burocracia e a falta de investimento. Me refiro a Lei 12.732/12.

Fonte: Artigo assinado por mais de 70 especialistas na revista especializada Lancet Oncology. Disponível em português no link a seguir:  http://www.lancet.com/commissions/planning-cancer-control-in-latin-america-and-the-caribbean

quinta-feira, maio 09, 2013

Dois + dois = ?


Por Luis Fernando Veríssimo hoje em ZH

Um economista americano desconhecido estava revendo a tese de dois economistas muito conhecidos, que provava que a responsabilidade fiscal e a austeridade nos gastos sociais favorecia, em vez de atrasar, como diziam alguns, a recuperação econômica, e estava sendo usada por economistas oficiais para justificar o aperto aplicado pela maioria dos governos do mundo contra a crise, quando descobriu um erro. Não um erro de posicionamento, de interpretação ou de redação — um erro de matemática. Certas contas não fechavam.
Dois mais dois simplesmente não davam quatro. O economista desconhecido publicou sua descoberta, o que o tornou conhecido, e os dois economistas conhecidos reconheceram seu erro, mas não lhe deram importância, o que os tornou cúmplices declarados do massacre que a tese deles continua causando.
A certeza de que com o tempo a austeridade se justificará, demonstrada claramente nas contas erradas da dupla, só conseguiu transformar “austeridade” em palavrão, nos países em que a maioria da população continua pagando, com desemprego e miséria, pelos desmandos dos seus governos e a ditadura do capital financeiro, responsável pela crise.
Mas talvez haja uma explicação que absolva os dois economistas conhecidos. É difícil imaginar que eles não tenham recorrido aos seus laptops, ou aos laptops de assistentes, para fazer suas contas. (“Veja aí, dois mais dois quanto dá”). E os laptops podem ter fracassado.
Hoje confiamos tudo ao computador, por que não confiar na sua matemática? E a sua matemática pode entrar em pane.
Me lembrei da história do Millôr sobre o último homem do mundo que ainda sabia contar nos dedos. Um dia todos os sistemas interligados do mundo caem. Ninguém mais consegue escrever sem um teclado, o que dirá fazer contas sem uma calculadora eletrônica.
Recorrem ao homem, que cobra caro pelo seu serviço. E o fornece tranquilamente, certo de que se errar nas suas contas primitivas não haverá como comprovar o erro. Ele será a autoridade final em todas as contas.
A austeridade não está dando certo em nenhum lugar do mundo, muito menos nos países mais sacrificados pela crise, como Grécia e Espanha.
Na Inglaterra, as pompas fúnebres para Margaret Tchatcher, Mrs. Austeridade, também foram, um pouco, uma celebração provocativa do aperto promovida pelo governo conservador. O neoliberalismo dando um último chute no “welfare state” antes de ser canonizado.


terça-feira, maio 07, 2013

Homicídios: ex-secretário nacional de Segurança critica sistema prisional


Fonte: O Globo

RIO - Ex-secretário nacional de Segurança, o antropólogo Luiz Eduardo Soares discorda do modelo de encarceramento adotado no Brasil. Para ele, o sistema prisional como está é incapaz de ressocializar os detentos. Segundo ele, nem sempre o aumento do efetivo policial resulta em queda dos índices de criminalidade. Soares defende mudanças no processo de execução penal e maior treinamento dos policiais.

GLOBO - Qual a sua avaliação com relação às políticas de maior encarceramento e maior efetivo policial na redução da criminalidade?

O encarceramento tal como tem sido praticado no Brasil é um desastre. Apenas 8% dos homicídios dolosos são investigados com sucesso. A taxa de impunidade chega a espantosos 92%, como mostrou o professor Julio Waiselfisz, confirmando como taxa média para o Brasil exatamente o número que encontrei no município do Rio em 1994. Por outro lado, graças à iníqua lei de drogas, 65% dos presos no Rio entre 2006 e 2011 são jovens pobres capturados em flagrante negociando substâncias ilícitas sem uso de arma, sem vínculo com organizações criminosos e que não agiram com violência, conforme demonstrou a professora Luciana Boiteux. Será que depois de quatro anos cumprindo sentenças no inferno das penitenciárias brasileiras que sequer cumprem a lei de execuções penais eles vão sair melhores e continuarão sem vínculos com o crime organizado?
Os R$ 1.500,00 mensais que cada preso custa não seria mais bem aplicados em sua educação, formação profissional e integração à sociedade? No Brasil, temos a quarta população carcerária do mundo, 550 mil presos, e a que mais cresce no planeta: 40% são presos provisórios, dois terços cometeram crimes contra o patrimônio e tráfico. Apenas 12 mil estão cumprindo pena por crimes contra a vida. Passamos de 150 mil presos, em meados dos anos 1990, para 550 mil, hoje, e o número de homicídios dolosos no Brasil tem crescido. Em números absolutos, em matéria de homicídios dolosos só perdemos para a Rússia. Em 2000, houve 45.433 homicídios dolosos no Brasil e a população carcerária era de 232.755 presos; em 2012, houve 53.016 homicídios dolosos e há 549.577 presos. A única prisão que faz sentido e reduz a violência é aquela que afasta da sociedade quem pratica crimes contra a vida. Mas essa não é a prioridade no Brasil.

GLOBO - O senhor considera importante uma reforma no processo de execução penal, como forma de reduzir as chances de os detentos retornarem para as ruas antes do fim da sua pena fechada? Por quê?

Considero importante que não banalizemos as prisões, que renunciemos ao populismo penal, que revisemos a lei de drogas na direção da legalização, que recorramos à privação de liberdade com máxima parcimônia, quando não houver alternativa ante o risco para a sociedade. Não nos iludamos com o conto de fadas da "ressocialização". Encarcerar o ser humano nunca o fará melhor. Considero também indispensável definir a vida como prioridade absoluta. Gostaria que a justiça criminal deixasse de ser retributiva, isto é, operadora da vingança e se orientasse para a corresponsabilização, a reparação de danos e a prevenção.
A questão do preparo policial hoje já é um tema importante. Como colocar mais policiais nas ruas com as condições de formação que hoje nós temos?
Quanto ao efetivo policial, nem sempre a quantidade faz diferença e nem sempre essa diferença é positiva. Depende da qualidade dos profissionais, da formação e do treinamento, das condições nas quais trabalha -salariais e operacionais - e das políticas de segurança que lhes cumpre aplicar. De que adianta contratar mais policiais e lhes pagar salários indignos, dar-lhes armas para que eles saiam às ruas despreparados, representando riscos para eles mesmos e para a sociedade. O ofício policial, em todas as áreas, é complexo. Precisa ser valorizado. Às vezes, menos é mais.
O estudo do IPEA aponta que a evasão escolar é uma questão importante que afeta os índices de homicídios. Mas como manter as crianças nas escolas com todos os atrativos que o mundo do crime pode oferecer aos jovens, como ganho imediato, poder e etc?
As escolas têm de conquistar o imaginário e o afeto dos estudantes, e oferecer desde cedo uma formação moral em tudo distinta do moralismo hipócrita e de doutrinas. Uma formação para a paz e o respeito ao outro, a democracia e a participação responsável, e para acima de tudo valorizar a dignidade sagrada do ser humano. Em suma, uma educação nada tediosa e por tudo fascinante para a compreensão profunda e o engajamento nos direitos humanos.

GLOBO - O senhor poderia listar ao menos cinco políticas que considera essenciais para a redução da criminalidade, especialmente, os homicídios no Brasil?

Haveria muito mais do que cinco políticas a destacar. Vou mencionar apenas as principais: reforma das polícias para que operem em ciclo completo com efetivo controle externo, em jornadas de trabalho racionais e salários dignos, depois de formação consistente, planejando e avaliando suas ações com base em uma rigorosa gestão do conhecimento, norteando seu trabalho para o fiel cumprimento de seu mandato constitucional, respeitando portanto os direitos humanos, compreendendo que a população pobre é tão destinatária de seus serviços quanto as elites, e dando absoluta prioridade à vida, o que implica o banimento total das execuções extra-judiciais. Uma segunda medida, no caso do Rio, seria utilizar em sua plenitude o potencial técnico das delegacias legais (as melhores estruturas do país) e multiplicar o número de Áreas Integradas de Segurança para que cumpram as funções para as quais foram criadas com as delegacias legais, em 1999. Os demais estados sequer dispõem desse modelo. Uma terceira medida seria priorizar o controle de armas e legalizar as drogas. Uma quarta tornar o projeto das UPPs uma verdadeira política pública de policiamento comunitário, em vez de ocupação militar, articulada a programas preventivos que valorizem os jovens, reduzam a evasão escolar e estimulem a criatividade cultural nas favelas e periferias.
Outra medida seria destinar 40% dos policiais civis à investigação dos homicídios a partir do tempo zero, deixando que os 60% restantes continuem a cuidar do passivo (as centenas de milhares de inquéritos inconclusos que dificilmente terão êxito mas impedem que se melhore o trabalho para o futuro). Isso significa separar o passado do futuro. Esses 40% se dedicarão exclusivamente a crimes letais intencionais (homicídios dolosos e roubos seguidos de morte ou crimes de milicianos). Trabalharão em duplas e cuidarão de um caso por vez durante um tempo limitado (um mês ou dois), no qual se tenha boas razões para supor que a investigação terá sucesso. Todo crime desse tipo contará com a proteção da cena de sua ocorrência pela PM e será periciado por peritos em unidades móveis. Como cerca de 50% dos homicídios do estado do Rio, por exemplo, acontecem nas áreas de 10% das delegacias distritais ou das AISPs, e se concentram nas noites de sexta e sábado, deduz-se que meia-dúzia de unidades periciais móveis bem equipadas, com três equipes de quatro peritos em turnos de 8 horas, serão suficientes. A delegacia de homicídios do Rio vem fazendo um grande trabalho. Faria ainda melhor se o plano que sugiro fosse implementado sob seu comando.



segunda-feira, maio 06, 2013

Joaquim Barbosa desmascara mídia brasileira


João Brant, via Direito à Comunicação Em discurso no evento de comemoração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, realizado pela Unesco, na Costa Rica, no dia 3 de maio, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, afirmou que a mídia brasileira é afetada pela ausência de pluralismo. Ressaltando que neste ponto falava como acadêmico, e não como presidente do STF, ele avaliou que esta característica pode ser percebida especialmente pela ausência de negros nos meios de comunicação e pela pouca diversidade política e ideológica da mídia. A apresentação do presidente do STF se deu em quatro partes voltadas a apresentar uma perspectiva multifacetada sobre liberdade de imprensa. Na abertura, reafirmou o compromisso da corte e do País com a liberdade de expressão e de imprensa, e ressaltou que uma imprensa livre, aberta e economicamente sólida é o melhor antídoto contra arbitrariedades. Barbosa lembrou a ausência de censura pública no Brasil desde a redemocratização em 1985. Na segunda parte, o ministro apresentou como o tema é tratado na Constituição de 1988, que pela primeira vez reservou um capítulo específico para a comunicação. Segundo Barbosa, no sistema legal brasileiro nenhum direito fundamental deve ser tratado como absoluto, mas sempre interpretado em completa harmonia com outros direitos, como privacidade, imagem pessoal e, citando textualmente o texto constitucional, “o respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”. Nesse sentido, ressaltou o ministro, o sistema legal brasileiro relaciona a liberdade de expressão com a responsabilidade legal correspondente. “A lei se aplica a todos e deve ser obedecida. A liberdade de imprensa não opera como uma folha em branco ou como um sinal verde para violar as regras da sociedade”, afirmou Barbosa. Na terceira parte de seu discurso, Joaquim Barbosa apresentou dois casos em que o Supremo Tribunal Federal teve que lidar com a liberdade de expressão e de imprensa. No primeiro, lembrou a a análise que o STF teve de fazer sobre a publicação de obras racistas contra judeus por parte de Siegfried Ellwanger. Neste caso, a corte avaliou que a proteção dos direitos do povo judeu deveria prevalecer em relação ao direito de publicar casos discriminatórios. Em seguida, falou sobre a lei de imprensa, que foi derrubada pelo Supremo por ser considerada em desacordo com a Constituição e extremamente opressora aos direitos de liberdade de expressão e de imprensa. Antes de encerrar, porém, Barbosa fez questão de ressaltar que não estaria sendo sincero se não destacasse os problemas que via na mídia brasileira. Falando da ausência de diversidade racial, o ministro lembrou que embora pretos e mulatos correspondam à metade da população, é muito rara sua presença nos estúdios de televisão e nas posições de poder e liderança na maioria das emissoras. “Eles raramente são chamados para expressar suas posições e sua expertise, e de forma geral são tratados de forma estereotipada”, afirmou o ministro. Avaliando a ausência de diversidade político-ideológica, Barbosa lembrou que há apenas três jornais de circulação nacional, “todos eles com tendência ao pensamento de direita”. Para ele, a ausência de pluralismo é uma ameaça ao direito das minorias. Barbosa finalizou suas observações sobre os problemas do sistema de comunicação destacando o problema da violência contra jornalistas. “Só neste ano foram assassinados quatro profissionais, todos eles trabalhando para pequenos veículos. Os casos de assassinatos são quase todos ligados a denúncias de corrupção ou de tráfico de drogas em âmbito local, e representam grave violação de direitos humanos”. Em resposta a questionamentos do público, Barbosa lembrou um dos motivos da impunidade nos crimes contra a liberdade de imprensa é a disfuncionalidade do sistema judicial brasileira, que tem quatro níveis e “infinitas possibilidades de apelo”. Além disto, a justiça brasileira tem, na perspectivas de Barbosa, sistemas de proteção aos poderosos, que influenciam diretamente os juízes. “A justiça condena pobres e pretos, gente sem conexão. As pessoas são tratadas de forma diferente de acordo com seu status, cor de pele ou poder econômico”, concluiu Barbosa.

sexta-feira, maio 03, 2013

Intolerância religiosa


por Drauzio Varella para Folha

Sou ateu e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

"Os religiosos  não entendem como
se pode discordar de sua cosmovisão"
A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.

Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.

Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.

Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?

Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?

O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.

Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.

Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.

O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade - quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.

Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.

Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.


terça-feira, abril 30, 2013

O mundo ainda é cruel com as mulheres


As mulheres conquistaram nos últimos 70 anos mais direitos e espaços do que nos últimos 300, administram suas vidas privadas de um modo mais soberano e têm a liberdade sexual como marca dos nossos tempos, embora ainda não plenamente aceita pela sociedade. Os avanços políticos, sociais e econômicos são notáveis e muito importantes, porém, não são foco do que quero tratar aqui. Vou ser genérico, me referir a uma aparente maioria, pautado nas minhas impressões, que podem estar perto ou longe da realidade, ciente de que as exceções existem em todos os casos. Não tenho aqui nenhum compromisso com uma base científica sobre o tema, o conteúdo do texto é puro “achismo”.
São recorrentes nas redes sociais, nas conversas de bar e nos divãs familiares as reclamações de que as mulheres estão com dificuldades para conseguir namorados, companheiros para dividir a vida. Os homens ainda estariam em uma situação privilegiada, tanto por haver bastante demanda feminina, quanto por se sentirem melhor em relacionamentos abertos e esporádicos, isto é, não aparentam necessidade de namorar.
Não sei até que ponto isso procede estatisticamente, mas creio que há coisas aí que fazem sentido. Importante dizer de antemão que não estou afirmando, em absoluto, que todas as mulheres estão desesperadas ou buscando se relacionar e nem que todas estão com dificuldade para encontrar parceiros duradouros.
Os homens, em um primeiro momento, querem uma mulher bonita de rosto e de corpo, como sugere o padrão, por prazer e para mostrar. Mas também buscam uma mulher com um bom futuro, inteligente, delicada, informada, socialmente envolvida e etc. Lógico que as mulheres também querem homens com essas características e que ofereçam segurança e qualidade de vida, todavia, diante das diferentes condições culturais de gênero e distintas necessidades de se conseguir namoros, elas estão mais sujeitas a investir em casos furados do que eles. Será?
Homens demoram mais para decidir namorar e casar. Hoje, apesar de uma maior liberdade feminina, elas ainda querem muito se apaixonar, namorar e casar, até porque já há maturidade suficiente em várias relações para ser livre e estar em um “relacionamento sério” com alguém. Mulheres gostam de se apresentar para sociedade em um relacionamento bem mais que os homens? Mulheres passam por frustações amorosas (de ser deixada ou deixar alguém) mais que homens? Será? Ou elas falam mais disso entre amigas/os do que eles, e por isso temos essa sensação? Vamos supor que as respostas para essas perguntas sejam positivas.
Essas são distribuições de uma sociedade que ainda é desigual em termos de gênero, para que elas consigam um homem “bem sucedido”, elas têm de estar bem de corpo, bem de mente, serem interessantes e confiáveis, mas, surpreendam-se, não precisam ser “bem sucedidas”. O homem “bem sucedido” na nossa sociedade não tem metade das qualidades ou características que se exige de uma mulher para um relacionamento e teme mulheres independentes.
É claro que estou criticando esse perfil de “bem sucedido” que, em geral, é sinônimo de ser rico, por vezes conservador, um tanto alienado socialmente e especialista em algum tipo de negócio. O grande problema é que um cara bacana, seja lá o que isso signifique pra cada mulher, também exige aquelas características (bonita, gostosa, inteligente e politizada) para se relacionar, o machismo vivíssimo tem responsabilidade sobre essa lógica. O homem muito bacana tem, quase sempre, os mesmo critérios de exigência param se relacionar que um homem detestável, isso infelizmente é um tanto padronizado.
Caso esse cara bacana não encontre seu perfil de mulher preferido, ele não namora e segue se divertindo. Caso as mulheres não encontrem seu perfil desejado de homem (parece estar difícil encontrar) elas, em muitos casos, namoram pessoas de outro perfil por inúmeras razões como carência, baixa autoestima, idade e pressão social. Ratificando que esse é um exercício de generalização.
A necessidade feminina de ter alguém para mostrar para as amigas e para família é construída historicamente, a mulher ainda nasce em um mundo machista em que a felicidade é relacionada a casar e ter filhos, em que a mulher solteirona é tida como infeliz e derrotada. Diferente do homem solteiro que é encarado como “moderno”. É claro que ter alguém para dividir a vida é ótimo e significa ser feliz, mas não a qualquer preço.
Mulheres podem querer se tornar interessantes, infelizmente, para acatar exigências de uma sociedade com relações de gênero desiguais, essa é a vida real. Isto é, tentar se adaptar a um conjunto de critérios sociais e padrões estéticos. Porém, quanto mais as mulheres identificarem o que é construído socialmente e fruto do machismo, elas poderão ter mais paciência para escolher suas relações, saberão quais características combinam com elas e quais seriam forçadas.
Cuidar do corpo, cuidar da mente, ler, aprender sobre diversos assuntos, viajar, ser polida/o, educada/o são atitudes que não devem ser tomadas para conseguir um namorado/a, pelo contrário, é no processo eterno de desenvolver essas atitudes para si que pode se conhecer alguém que vale a pena ficar junto.
Ser interessante é algo amplo, depende para quem, por isso é importante se tornar interessante para si. Os homens também querem namorar e casar, só estão confortáveis em um universo que exige adequação das mulheres e não deles. Um universo em que seus amigos lhe cobram a solteirice, mesmo quando eles namoram, e em que elas são cobradas para ter alguém. Vivemos em uma sociedade em que a fulana é mulher do ciclano e não o contrário, em que a lógica da mulher como propriedade, ainda que problematizada, persiste, haja vista, os dados da violência doméstica crescente contra a mulher, em geral, protagonizada por seus companheiros[1].
Namorar envolve elementos que transcendem uma “boa aparência”, essa é a beleza e a complexidade de se relacionar. Há de se representar para o outro um acréscimo, ser visto/a como alguém necessário para a vida do outro, o que é bem diferente da vida exigir que é necessário ter alguém só por ter. Creio que não é adequado pensar em “conseguir” alguém, mas sim pensar em se encontrar com alguém, conhecer, conviver pouco, conviver mais, avaliar esse convívio e diagnosticar se a relação representa soma.
“Falar é fácil”, eu sei, mas o faço em tom de “pensar sobre”, já que esse tema é infinito, complexo e guarda as surpresas mais interessantes e inimagináveis. E o inverno tá aí, né!?

Gregório Grisa



[1] O número de mulheres mortas por violência doméstica em 2012 no RS é 100% maior do que no ano anterior. E dobrou o Número de Homicídios de Mulheres no Brasil nos Últimos 30 Anos. http://www.editoramagister.com/doutrina_24101286_DOBRA_O_NUMERO_DE_HOMICIDIOS_DE_MULHERES_NO_BRASIL_NOS_ULTIMOS_30_ANOS.aspx

segunda-feira, abril 29, 2013

Operação Concutare e suas prisões.

Prisões cinematográficas da Polícia Federal e investigações longas cujos recursos para obtenção de provas são múltiplos podem até não resultar na prisão dos políticos/corruptos do alto escalão porque eles terão recursos de defesa, privilégios no processo e afins. Porém, essas ações não são deflagradas sem diagnósticos precisos e sem elementos concretos que provam a regularidade  dos atos ilícitos. Os presos conhecidos até então na Operação Concutare, secretário estadual, municipal e ex-secretário estadual do Meio Ambiente, Carlos Fernando Niedersberg (PCdoB), Luiz Fernando Záchia (PMDB) e Berfran Rosado (PPS) respectivamente, têm seus nomes na lama, uns já o tinham, só se afundaram mais. 
As prisões ocorridas hoje são pedagógicas no mínimo em três sentidos.

1- Provar que o desespero pelo poder é sinônimo, em muitos casos, de ganância pessoal. A vocação de Záchia pela corrupção ativa ou passiva, pelo tráfico de influência, pelo descaso diante da coisa pública e da legalidade é conhecida desde o escândalo do Detran, ainda não julgado, quando ele era Chefe da Casa Civil do Governo Yeda (PSDB). Corrupção no PMDB é lugar comum, coisa que inclusive membros honestos do partido tem ciência que existe apesar de nenhum envolvimento. Berfan Rosado é corrupto de um partido fisiológico composto por grande quantidade de corruptos, mais tempo menos tempo isso será provado. 

2- Mostrar que empresários dos grandes empreendimentos da capital e do litoral norte têm pleno trânsito dentro dos órgão governamentais. Pagam, literalmente, desde a confecção quanto a agilização de licenças ambientais, fraudes que desrespeitam  não só os trâmites legais como a vida e a natureza. Tudo em busca do desenfreado lucro, mesmas empreiteiras e mesmos empresários colocam o capital acima de qualquer princípio republicano e nossa estrutura estatal e seus gestores são cúmplices nesse nefasto processo. 

3- Marcar mais um capítulo da falência do PcdoB, partido que preserva sua seriedade em meia duzia de quadros históricos mas que não tem mais identidade ética nem programática. O PcdoB quer poder a qualquer custo. Você que é do PcboB e se acha uma pessoa séria, saiba, seu partido é composto também por mercenários, oportunistas e corruptos assim como os outros partidos inseridos na lógica da governabilidade.  As provas sobre indivíduos apareceram e aparecerão, mas casos no Ministério dos Esportes, no processo do Código Florestal e na emblemática e curiosa aliança com Berfran Rosado (PPS) quando da candidatura da deputada Manuela d'Ávila à prefeitura de POA em 2008 indicam a derrocada como coletivo. 

Diante da complexidade da máquina pública, das sutilezas nas relações entre gestores públicos, funcionários e empresários a corrupção se torna tão complexa quanto. Infelizmente ela é mais comum do que imaginamos, a criatividade para o lucro infinito e ilegal é a mais vigorosa dos nossos tempos. Entretanto, cada fato como o de hoje mantem alguma esperança em um certa probidade dos processos públicos independente dos efeitos concretos que investigações densas como essa podem produzir. 

Gregório Grisa