segunda-feira, outubro 25, 2010

Carta à verdadeira esquerda brasileira


Gregório Grisa

Articulação e ideologia

Primeiramente, é importante destacar a que não se presta o presente documento, faz-se isso para que desde já não haja nenhum tipo de confusão sobre seu conteúdo reflexivo e propositivo. Não se quer aqui relativizar a importância e a necessidade primordial de condutas éticas e comprometidas com princípios fundamentais, absolutamente. Também não se está propondo que a radicalidade propositiva e organizativa da verdadeira esquerda seja abrandada e nem que se conceda menor valor às principais demandas históricas do socialismo.

A presente reflexão não trata desses aspectos, o tema central aqui é a maneira como a verdadeira esquerda brasileira tem confeccionado suas articulações políticas e, para se debater essa questão, é indispensável pensar sobre a ideologia, ou como o imaginário e as múltiplas visões de mundo se constituem e se relacionam. Esse texto não se pretende acadêmico e não é dotado de preocupações com normas ou qualquer tipo de formalismo.

A definição para se construir articulações políticas de esquerda tem de mudar no cenário atual brasileiro, é necessário, entre outras coisas, levar a cabo uma inversão pontual, qual seja: priorizar ou ter mais em conta a possibilidade do desenvolvimento de práticas que modifiquem, de alguma forma, o rumo histórico e o pensamento dos grupos articulados (que nunca terão identidade absoluta), do que pré-requisitos de posturas ideológicas e morais ou práticas já promovidas por esses grupos. Tendo em vista as diferentes e múltiplas condições concretas de cada grupo e de seus indivíduos ao desenvolverem suas atuais ideias e práticas, é urgente que se faça essa inversão.

A possibilidade de unificação na diferença deve estar na frente da necessidade absoluta de identidade ideológica e programática. Os efeitos de uma possível articulação política devem sobrepor os pré-requisitos ou causas carregadas de condicionantes para fazê-la.

O desenvolvimento de uma prática social iluminada pela teoria coerente, não pode ter, nessa teoria, seu ponto de impossibilidade, não deve tê-la como absoluta, pois incorre no erro de não desenvolver o seu critério de verdade, qual seja, a prática social, e assim o fazendo, desliza para um idealismo que prioriza o discurso e a teoria pré-estabelecida. A prática social com base teórica deve privilegiar a possibilidade, o devir, sem buscar a segurança de prever, adivinhar ou em outros termos, pré-teorizar o resultado ainda inexistente de uma articulação ou prática política. Os teóricos de esquerda devem se tornar também práticos sociais e os práticos sociais de esquerda devem se tornar também teóricos. Essas duplas transformações devem ser frequentes e dinâmicas, atravessadas por outro tipo de articulação política e desprendidas das redomas “acadêmicas”, do “voluntarismo pseudoneutro” e “da militância detentora da moralidade”.

A teoria que nos orienta não pode querer, isoladamente, estar certa sobre o futuro, pois se mistificaria em uma postura astrológica de “vidente”. Na práxis, a teoria é constantemente reformulada, filha da incerteza e da possibilidade do real, isto é, das relações concretas entre os sujeitos e grupos. Não são as configurações à priori das forças e grupos sociais que devem balizar as articulações, mas sim seus potenciais, suas possibilidades diferentes de amadurecimento e intervenção social e histórica. Ou seja, devemos transferir os critérios para iniciar e desenvolver as relações entre os grupos sociais das origens “genéticas” de classe para os efeitos ou resultados possíveis dessa articulação ou nova prática social coletiva.

É necessário superarmos a visão simplificadora de que as pessoas de determinadas classes têm um pensamento inscrito, como códigos sociológicos pré-definidos ou genética e culturalmente herdados. O modo de pensar e a visão de mundo das pessoas não são como “pacotes de costumes e valores” que se codificam nos cérebros, mas sim, construções dinâmicas, dialéticas, processuais que guardam em si a possibilidade de diferentes horizontes e de mudanças.

Há, sem dúvida, condicionantes ideológicos reais, advindos de processos históricos socioeconômicos e culturalmente dispostos, no entanto, há a possibilidade de práticas e articulações que apontem para outras direções, mas essas articulações hão de ser construídas, desenvolvidas, criadas, engendradas e é aí que reside o desafio contemporâneo. Como superar os preconceitos políticos e a eterna vontade de unanimidade ideológica que temos em um espaço concreto que “fisicamente” não permite tal unanimidade? As diferentes trajetórias dos sujeitos e dos coletivos impedem essa possibilidade. Como superar as avaliações superficiais e até preconceituosas que são feitas pela esquerda acerca de coletivos e grupos relativamente desconhecidos? Tais avaliações congelam a compreensão e sectarizam as práticas.

A luta de classes está viva e sendo feita pelos adversários (a direita que luta para manter privilégios) com muito mais poder de acesso às pessoas (mídia, entre outros mecanismos) e com mais poder de propor articulações. E a essa conjuntura se deve o fato de as pessoas e grupos sociais terem construído e estarem continuamente construindo suas ideologias, suas visões de mundo de modo compatível com a classe que os acessa com mais volume e frequência. Isso se dá hoje via as tecnologias multimídia, pelo Estado, pelas igrejas, pela mídia televisiva, pelas relações de trabalho, pela escola, pelo monopólio da informação. E nas relações familiares e institucionais, tal pensamento se multiplica em proporções infinitas. Todos esses segmentos reproduzem valores que os constituem e a visão de mundo que mais os acessa. Essa reprodução não é linear, determinista, mas existe e tem diferentes graus de eficácia e abrangência.

Porém esse processo é dinâmico e acreditar na rigidez das ideias dos sujeitos é uma armadilha, pois isso imobiliza para a luta ideológica e política. O modo como as pessoas interpretam o mundo é diferente e passível de mudança constante, essas transformações dependem muito das condições de vida e de articulações que as pessoas acessam. As coletividades contemporâneas, em geral, oferecem um contexto de promoção da alienação e da mistificação da realidade, ou então, reproduzem um conjunto de “verdades” que asseguram a passividade dos sujeitos que, ao perceberem suas relações com o mundo como algo “natural”, não vislumbram outro entendimento.

Pressupor que o sujeito forma seu pensamento e o detém com total noção desse processo seria uma ingenuidade, é a maleabilidade dessa formação que carrega a possibilidade de mudança do pensar. O movimento dialético de constituição de uma visão de mundo não se dá como uma inscrição ou um depósito de valores e ideias no sujeito, esse a desenvolve sem saber que o está fazendo por uma ótica ou perspectiva específica (no caso mais comum, a hegemônica), tanto que, quando atinge um grau minimamente elaborado, ele considera tal arcabouço de ideias constituído uma produção somente sua, puramente individual, o que até não deixa de ser, entretanto, é também fruto de um conjunto de experiências e ideias que o formaram. Seu pensamento agora instituído sofreu mais influências externas da sua conjuntura histórica, do seu meio e de quem mais o acessou do que da sua capacidade autônoma de discernir.

Pode-se dizer que os níveis de ideologia têm suas dosagens condicionadas pelo grau maior ou menor de acessibilidade e envolvimento concreto dos sujeitos às e nas relações sociais, políticas, culturais e econômicas específicas. As ideias são passíveis de mudança não no sentido de as trocarmos por outras absolutamente diferentes, como se faz com um chip de telefone, mas sim, através de um processo incessante de descobertas, de acesso a outros bens e relações culturais e, principalmente, pela mudança concreta das condições materiais de vida. Como Gramsci nos lembra com freqüência, as múltiplas visões de mundo ou ideologias só se tornam historicamente efetivas se constantemente vencerem a disputa pelo senso-comum e, inclusive, parcialmente forem se transformando nele. Entendendo a esquerda como corrente histórica, veja o que esse autor afirma:

Cada corrente histórica deixa para trás um sedimento de senso-comum; este é o documento de sua eficácia histórica. O senso-comum não é rígido ou imóvel, mas se transforma continuamente, se enriquece com ideias científicas e opiniões filosóficas que se infiltram na vida comum. O senso-comum cria o folclore do futuro, que é uma fase relativamente rígida do conhecimento popular num dado local e tempo. (passagem de Gramsci, citado in HALL, Stuart, Da diáspora identidades e mediações culturais, pg. 303).

Para se direcionar a sensibilidade a outro rumo ou a um horizonte mais complexo e maduro, é necessário sentir e interagir com essa possibilidade. Com o perdão da dupla tautologia, mas sensibilidade nenhuma irá ser aflorada ou redimensionada sem sentir outras sensações, e o que pode oferecer isso são articulações diferentes, amplas e desenraizadas do jeito hegemônico de fazer política e enraizadas nas possibilidades orientadas pela eterna busca pela emancipação humana em seu sentido ontológico.

É claro que a noção repetidamente aqui proposta de inversão das causas pelos efeitos, da troca dos pré-requisitos carregados pelas possibilidades do devir para se construir outras articulações políticas não se refere a algo mecânico, isto é, algo como uma lógica ou receita, isso seria uma inversão de predeterminações. Trata-se de uma autocrítica pessoal e coletiva que a esquerda como um todo deve fazer, caso isso não ocorra, essa mesma esquerda, nos moldes atuais de organização e representatividade, tende literalmente a sumir nas próximas gerações ou a ficar limitada a micro células sociais que serão tratadas como grupos caricatos e exóticos mais do que já as tratam.

Há um mito tácito dentro da verdadeira esquerda brasileira de que estabelecer um diálogo com setores da sociedade sem uma explícita identidade ideológica é um fato político que a rebaixaria ética e moralmente. Ninguém se diminui por se relacionar criticamente com diferentes grupos políticos, assim como ninguém é mais “puro” ou coerente por fazer a luta política isoladamente como vanguarda. Essa é uma visão de fazer política ultrapassada, a articulação que propomos aqui não se pauta na busca comunicativa por consensos entre as classes e grupos de diferentes orientações programáticas, mas sim, tem como pauta a construção de alternativas concretas e factíveis através do confronto.

É ingênuo ter o consenso como centralidade, o que define a identidade e a práxis da esquerda é o confronto, seja ele político, social ou ideológico. Sendo assim, para que haja o confronto, é necessária a relação, isto é, a articulação. Se o modelo de articulação política que a esquerda vem produzindo não dá conta de desenvolver renovação e ampliação dos seus debates e muito menos de construir um confronto, este “constituidor” da prática social de esquerda, que responda a essas demandas.

A esquerda política hoje, salvo alguns movimentos sociais populares, está engolida pelo aparato legal e eleitoral do Estado. As últimas eleições servem de exemplo claro de que, ou a esquerda se recicla enquanto práticas e articulações, ou ficará cada vez mais refém do formato eleitoral excludente que privilegia o capital e a fama e irá realmente rumar para um ostracismo no que se refere, principalmente, à capacidade de acesso às novas gerações, cada vez menor.

Portanto, é urgente que, ao mesmo tempo em que a verdadeira esquerda se diferencie dos “pseudocomunistas” (apoiados e aparelhados nos grêmios escolares, no movimento estudantil e no discurso da governabilidade do Estado) e da nova direita com roupagem “ecológico-democrática”, ela também vislumbre possibilidades de diálogo, articulações e confronto. Que se repense e deixe de se ver somente como guardiã da coerência, da ética, da moralidade e da verdade, mas transcenda esse olhar catedrático para melhor entender, interagir e intervir na realidade que se apresenta, cada vez mais, dinâmica e complexa. Que se perca a vergonha de fazer um tipo de política contemporânea que contrasta com a tradicional, pois isso não desqualifica a ação nem a torna menos original e honesta, ao contrário, é um ato de contextualização e de reinterpretação do atual bloco histórico brasileiro.

sexta-feira, outubro 22, 2010

Leandro Fortes, em CartaCapital: Quebra do sigilo de tucanos é fruto da guerra Serra-Aécio

OBS: o texto é longo, porém explicativo, se queres entender os meandros da política é uma leitura interessante.

A mídia rebola para esconder o fato: a quebra do sigilo da turma de Serra é fruto de uma guerra tucana.

Apesar do esforço em atribuir a culpa à campanha de Dilma Rousseff, o escândalo da quebra dos sigilos fiscais de políticos do PSDB e de parentes do candidato José Serra que dominou boa parte do debate no primeiro turno teve mesmo a origem relatada por CartaCapital em junho: uma disputa fratricida no tucanato.

Obrigada a abrir os resultados do inquérito após uma reportagem da Folha de S.Paulo com conclusões distorcidas, a Polícia Federal revelou ter sido o jornalista Amaury Ribeiro Júnior, então a serviço do jornal O Estado de Minas, que encomendou a despachantes de São Paulo a quebra dos sigilos. O serviço ilegal foi pago. E há, como se verá adiante, divergências nos valores desembolsados (o pagamento­ ­teria ­variado, segundo as inúmeras versões, de 8 mil a 13 mil reais).

Ribeiro Júnior prestou três depoimentos à PF. No primeiro, afirmou que todos os documentos em seu poder haviam sido obtidos de forma legal, em processos públicos. Confrontado com as apurações policiais, que indicavam o contrário, foi obrigado nos demais a revelar a verdade. Segundo contou o próprio repórter, a encomenda aos despachantes fazia parte de uma investigação jornalística iniciada a pedido do então governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que buscava uma forma de neutralizar a arapongagem contra ele conduzida pelo deputado federal e ex-delegado Marcelo Itagiba, do PSDB. Itagiba, diz Ribeiro Júnior, agiria a mando de Serra. À época, Aécio disputava com o colega paulista a indicação como candidato à Presidência pelo partido.

Ribeiro Júnior disse à PF ter sido escalado para o serviço diretamente pelo diretor de redação do jornal mineiro, Josemar Gimenez, próximo à irmã de Aécio, Andréa Neves. A apuração, que visava levantar escândalos a envolver Serra e seus aliados durante o processo de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso, foi apelidada de Operação Caribe. O nome sugestivo teria a ver com supostas remessas ilegais a paraísos fiscais.

Acuado por uma investigação tocada por Itagiba, chefe da arapongagem de Serra desde os tempos do Ministério da Saúde, Aécio temia ter a reputação assassinada nos moldes do sucedido com Roseana Sarney, atual governadora do Maranhão, em 2002. Naquele período, a dupla Itagiba-Serra articulou com a Polícia Federal a Operação Lunus, em São Luís (MA), que flagrou uma montanha de dinheiro sujo na empresa de Jorge Murad, marido de Roseana, então no PFL. Líder nas pesquisas, Roseana acabou fora do páreo após a imagem do dinheiro ter sido exibida diuturnamente nos telejornais. Serra acabou ungido a candidato da aliança à Presidência, mas foi derrotado por Lula. A família Sarney jamais perdoou o tucano pelo golpe.

Influente nos dois mandatos do irmão, Andréa Neves foi, por sete anos, presidente do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) de Minas Gerais, cargo tradicional das primeiras-damas mineiras, ocupado por ela por conta da solteirice de Aécio. Mas nunca foi sopa quente ou agasalho para os pobres a vocação de Andréa. Desde os primeiros dias do primeiro mandato do irmão, ela foi escalada para intermediar as conversas entre o Palácio da Liberdade e a mídia local. Virou coordenadora do Grupo Técnico de Comunicação do governo, formalmente criado para estabelecer as diretrizes e a execução das políticas de prestação de contas à população. Suas relações com Gimenez se estreitaram.

Convenientemente apontado agora como “jornalista ligado ao PT”, Ribeiro Júnior sempre foi um franco-atirador da imprensa brasileira. E reconhecido.­ Aos 47 anos, ganhou três prêmios Esso e quatro vezes o Prêmio Vladimir Herzog, duas das mais prestigiadas premiações do jornalismo nativo. O repórter integra ainda o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e é um dos fundadores da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Entre outros veículos, trabalhou no Jornal do Brasil, O Globo e IstoÉ. Sempre se destacou como um farejador de notícia, sem vínculo com políticos e partidos. Também é reconhecido pela coragem pessoal. Nunca, portanto, se enquadrou no figurino de militante.

Em 19 de setembro de 2007, por exemplo, Ribeiro Júnior estava em um bar de Cidade Ocidental, em Goiás, no violento entorno do Distrito Federal, para onde havia ido a fim de fazer uma série de reportagens sobre a guerra dos traficantes locais. Enquanto tomava uma bebida, foi abordado por um garoto de boné, bermuda, casaco azul e chinelo com uma arma em punho. O jornalista pulou em cima do rapaz e, atracado ao agressor, levou um tiro na barriga. Levado consciente ao hospital, conseguiu se recuperar e, em dois meses, estava novamente a postos para trabalhar no Correio Braziliense, do mesmo grupo controlador do Estado de Minas, os Diários Associados. Gimenez acumula a direção de redação dos dois jornais.

Depois de baleado, Ribeiro Júnior, contratado pelos Diários Associados desde 2006, foi transferido para Belo Horizonte, no início de 2008, para sua própria segurança. A partir de então, passou a ficar livre para tocar a principal pauta de interesse de Gimenez: o dossiê de contrainformação encomendado para proteger Aécio do assédio da turma de Serra. O jornalista tinha viagens e despesas pagas pelo jornal mineiro e um lugar cativo na redação do Correio em Brasília, inclusive com um telefone particular. Aos colegas que perguntavam de suas rápidas incursões na capital federal, respondia, brincalhão: “Vim ferrar com o Serra”.

Na quarta-feira 20, por ordem do ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a cúpula da PF foi obrigada a se movimentar para colocar nos eixos a história da quebra de sigilos. A intenção inicial era só divulgar os resultados após o término das eleições. O objetivo era evitar que as conclusões fossem interpretadas pelos tucanos como uma forma de tentar ajudar a campanha de Dilma Rousseff. Mas a reportagem da Folha, enviezada, obrigou o governo a mudar seus planos. E precipitou uma série de versões e um disse não disse, que acabou por atingir o tucanato de modo irremediável.

Em entrevista coletiva na quarta-feira 20, o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, e o delegado Alessandro Moretti, da Divisão de Inteligência Policial (DIP), anunciaram não existir relação entre a quebra de sigilo em unidades paulistas da Receita Federal e a campanha presidencial de 2010. De acordo com Moretti, assim como constou de nota distribuída aos jornalistas, as provas colhidas revelaram que Ribeiro Júnior começou a fazer levantamento de informações de empresas e pessoas físicas ligadas a tucanos desde o fim de 2008, por conta do trabalho no Estado de Minas. A informação não convenceu boa parte da mídia, que tem arrumado maneiras às vezes muito criativas de manter aceso o suposto elo entre a quebra de sigilo e a campanha petista.

Em 120 dias de investigação, disse o delegado Moretti, foram ouvidas 37 testemunhas em mais de 50 depoimentos, que resultaram nos indiciamentos dos despachantes Dirceu Rodrigues Garcia e Antonio Carlos Atella, além do office-boy Ademir Cabral, da funcionária do Serpro cedida à Receita Federal Adeildda dos Santos, e Fernando Araújo Lopes, suspeito de pagar à servidora pela obtenção das declarações de Imposto de Renda. Ribeiro Júnior, embora tenha confessado à PF ter encomendado os do­cumentos, ainda não foi indiciado. Seus advogados acreditam, porém, que ele não escapará. Um novo depoimento do jornalista à polícia já foi agendado.
De acordo com a investigação, a filha e o genro do candidato do PSDB, Verônica Serra e Alexandre Bourgeois, tiveram os sigilos quebrados na delegacia da Receita de Santo André, no ABC Paulista. Outras cinco pessoas, das quais quatro ligadas ao PSDB, tiveram o sigilo violado em 8 de outubro de 2009, numa unidade da Receita em Mauá, também na Grande São Paulo. Entre elas aparecem o ex-ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, e Gregório Preciado, ex-sócio de Serra. O mesmo ocorreu em relação a Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor do Banco do Brasil e tesoureiro de campanhas de Serra e FHC.

Segundo dados da PF, todas as quebras de sigilo ocorreram entre setembro e outubro de 2009. As informações foram utilizadas para a confecção de relatórios, e todas as despesas da ação do jornalista, segundo o próprio, foram custeadas pelo jornal mineiro. Mas o repórter informou aos policiais ter disposto de 12 mil reais, em dinheiro, para pagar pelos documentos – 8,4 mil reais, segundo Dirceu Garcia – e outras despesas de viagem e hospedagem. Garcia revelou ao Jornal Nacional, da TV Globo, na mesma quarta 20, ter recebido 5 mil reais de Ribeiro Júnior, entre 9 e 19 de setembro passado, como “auxílio”. A PF acredita que o “auxílio” é, na verdade, uma espécie de suborno para o despachante não confessar a quebra ilegal dos sigilos.
A nota da PF sobre a violação fez questão de frisar que “não foi comprovada sua utilização em campanha política”, base de toda a movimentação da mídia em torno de Ribeiro Júnior desde que, em abril, ele apareceu na revista Veja como integrante do tal “grupo de inteligência” da pré-campanha de Dilma Rousseff. Embora seja a tese de interesse da campanha tucana e, por extensão, dos veículos de comunicação engajados na candidatura de Serra, a ligação do jornalista com o PT não chegou a se consumar e é um desdobramento originado da encomenda feita por Aécio.

A vasta apuração da Operação Caribe foi transformada em uma reportagem jamais publicada pelo Estado de Minas. O material, de acordo com Ribeiro Júnior, acabou por render um livro que ele supostamente pretende lançar depois das eleições. Intitulado Os Porões da Privataria, a obra pretende denunciar supostos esquemas ilegais de financiamento, lavagem de dinheiro e transferência de recursos oriundos do processo de privatização de estatais durante o governo FHC para paraísos fiscais no exterior. De olho nessas informações, e preocupado com “espiões” infiltrados no comitê, o então coordenador de comunicação da pré-campanha de Dilma, Luiz Lanzetta, decidiu procurar o jornalista.

Lanzetta conhecia Ribeiro Júnior e também sabia que o jornalista tinha entre suas fontes notórios arapongas de Brasília. Foi o repórter quem intermediou o contato de Lanzetta com o ex-delegado Onézimo Souza e o sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, o Dadá. O quarteto encontrou-se no restaurante Fritz, localizado na Asa Sul da capital federal, em 20 de abril. Aqui, as versões do conteú­do do convescote divergem. Lanzetta e Ribeiro Júnior garantem que a intenção era contratar Souza para descobrir os supostos espiões. Segundo o delegado, além do monitoramento interno, a dupla queria também uma investigação contra Serra.

O encontro no Fritz acabou por causar uma enorme confusão na pré-campanha de Dilma e, embora não tenha resultado em nada, deu munição para a oposição e fez proliferar, na mídia, o mito do “grupo de inteligência” montado para fabricar dossiês contra Serra. A quebra dos sigilos tornou-se uma obsessão do programa eleitoral tucano, até que, ante a falta de dividendos eleitorais, partiu-se para um alvo mais eficiente: os escândalos de nepotismo a envolver a então ministra da Casa Civil Erenice Guerra.

O tal “grupo de inteligência” que nunca chegou a atuar está na base de outra disputa fratricida, desta vez no PT. De um lado, Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte que indicou a empresa de Lanzetta, a Lanza Comunicações, para o trabalho no comitê eleitoral petista. Do outro, o deputado estadual por São Paulo Rui Falcão, interessado em assumir maior protagonismo na campanha de Dilma Rousseff. Essa guerra de poder e dinheiro resultou em um escândalo à moda desejada pelo PSDB.

Em um dos depoimentos à polícia, Ribeiro Júnior acusa Falcão de ter roubado de seu computador as informações dos sigilos fiscais dos tucanos. Segundo o jornalista, o deputado teria mandado invadir o quarto do hotel onde ele esteve hospedado em Brasília. Também atribuiu ao petista o vazamento de informações a Veja. O objetivo de Falcão seria afastar Lanzetta da pré-campanha e assumir maiores poderes. À Veja, Falcão teria se apresentado como o lúcido que impediu que vicejasse uma nova versão dos aloprados, alusão aos petistas presos em 2006 quando iriam comprar um dossiê contra Serra. Em nota oficial, o parlamentar rebateu as acusações. Segundo Falcão, Ribeiro Júnior terá de provar o que diz.

As conclusões do inquérito não satisfizeram a mídia. Na quinta 21, a tese central passou a ser de que Ribeiro Júnior estava de férias – e não a serviço do jornal – quando veio a São Paulo buscar a encomenda feita ao despachante. E que pagou a viagem de Brasília à capital paulista em dinheiro vivo. Mais: na volta das férias, o jornalista teria pedido demissão do Estado de Minas sem “maiores explicações”.

É o velho apego a temas acessórios para esconder o essencial. Por partes: A retirada dos documentos em São Paulo é resultado de uma apuração, conduzida, vê-se agora, por métodos ilegais, iniciada quase um ano antes. Não há dúvidas de que o diá­rio mineiro pagou a maioria das despesas do repórter para o levantamento das informações. Ele não é filiado ao PT ou trabalhou na campanha ou na pré-campanha de Dilma.

Ribeiro Júnior pediu demissão, mas não de forma misteriosa como insinua a imprensa. O pedido ocorreu por causa da morte de seu pai, dono de uma pizzaria e uma fazenda em Mato Grosso. Sem outros parentes que ­pudessem cuidar do negócio, o jornalista decidiu trocar a carreira pela vida de pequeno empresário. Neste ano, decidiu regressar ao jornalismo. Hoje ele trabalha na TV Record.

Quando o resultado do inquérito veio à tona, a primeira reação do jornal mineiro foi soltar uma nota anódina que nem desmentia nem confirmava o teor dos depoimentos de Ribeiro Júnior. “O Estado de Minas é citado por parte da imprensa no episódio de possível violação de dados fiscais de pessoas ligadas à atual campanha eleitoral. Entende que isso é normal e recorrente, principalmente às vésperas da eleição, quando os debates se tornam acalorados”, diz o texto. “O jornalista Amaury Ribeiro Júnior trabalhou por três anos no Estado de Minas e publicou diversas reportagens. Nenhuma, absolutamente nenhuma, se referiu ao fato agora em questão. O Estado de Minas faz jornalismo.”

No momento em que o assunto tomou outra dimensão, a versão mudou bastante. Passou a circular a tese de que Ribeiro Júnior agiu por conta própria, durante suas férias. Procurado por CartaCapital, Gimenez ficou muito irritado com perguntas sobre a Operação Caribe. “Não sei de nada, isso é um absurdo, não estou lhe dando entrevista”, disse, alterado, ao telefone celular. Sobre a origem da pauta, foi ainda mais nervoso. “Você tem de perguntar ao Amaury”, arrematou. Antes de desligar, anunciou que iria divulgar uma nova nota pública, desta vez para provar que Ribeiro Júnior, funcionário com quem manteve uma relação de confiança profissional de quase cinco anos, não trabalhava mais nos Diários Associados quando os sigilos dos tucanos foram quebrados na Receita.

A nota, ao que parece, nem precisou ser redigida. Antes da declaração de Gimenez a CartaCapital, o UOL, portal na internet do Grupo Folha, deu guarida à versão. Em seguida, ela se espalhou pelo noticiário. Convenientemente.

O que Gimenez não pode negar é a adesão do Estado de Minas ao governador Aécio Neves na luta contra a indicação de Serra. Ela se tornou explícita em 3 de fevereiro deste ano, quando um editorial do jornal intitulado Minas a Reboque, Não! soou como um grito de guerra contra o tucanato paulista. No texto, iniciado com a palavra “indignação”, o diário partiu para cima da decisão do PSDB de negar as prévias e impor a candidatura de Serra contra as pretensões de Aécio. Também pareceu uma resposta às insinuações maldosas de um articulista de O Estado de S. Paulo dirigidas ao governador de Minas.

“Os mineiros repelem a arrogância de lideranças políticas que, temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação, pretendem dispor do sucesso e do reconhecimento nacional construído pelo governador Aécio Neves”, tascou o editorial. Em seguida, desfiam-se as piores previsões possíveis para a candidatura de Serra: “Fazem parecer obrigação do líder mineiro, a quem há pouco negaram espaço e voz, cumprir papel secundário, apenas para injetar ânimo e simpatia à chapa que insistem ser liderada pelo governador de São Paulo, José Serra”. E termina, melancólico: “Perplexos ante mais essa demonstração de arrogância, que esconde amadorismo e inabilidade, os mineiros estão, porém, seguros de que o governador ‘político de alta linhagem de Minas’ vai rejeitar papel subalterno que lhe oferecem. Ele sabe que, a reboque das composições que a mantiveram fora do poder central nos últimos 16 anos, Minas desta vez precisa dizer não”.

Ao longo da semana, Aécio desmentiu mais de uma vez qualquer envolvimento com o episódio. “Repudio com veemência e indignação a tentativa de vinculação do meu nome às graves ações envolvendo o PT e o senhor Amaury Ribeiro Jr., a quem não conheço e com quem jamais mantive qualquer tipo de relação”, afirmou. O senador recém-eleito disse ainda que o Brasil sabe quem tem o DNA dos dossiês, em referência ao PT.

Itagiba, derrotado nas últimas eleições, também refutou as acusações de que teria comandado um grupo de espionagem com o intuito de atingir Aécio Neves, no meio da briga pela realização de prévias no PSDB. “Não sou araponga. Quando fui delegado fazia investigação em inquérito aberto, não espionagem, para pôr na cadeia criminosos do calibre desses sujeitos que formam essa camarilha inscrustada no PT.”

Leandro Fortes

Leandro Fortes é jornalista, professor e escritor, autor dos livros Jornalismo Investigativo, Cayman: o dossiê do medo e Fragmentos da Grande Guerra, entre outros. Mantém um blog chamado Brasília eu Vi. http://brasiliaeuvi.wordpress.com

segunda-feira, outubro 18, 2010

ENREDO PARA GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ

O fato abaixo narrado ocorreu nos últimos dias na campanha eleitoral brasileira e a grande mídia se nega a divulgar. A gráfica é da irmã do coordenador da campanha de Serra e estava produzindo os panfletos, mas no PIG, na Globo, na Folha, no Estadão não veremos esse escândalo.

Dom Bergonzini, bispo da extrema direita num país latinoamericano, encomenda 20 milhões de panfletos que simulam a chancela da Igreja católica para atacar e caluniar a candidata da esquerda nas eleições presidenciais, a 15 dias da votação. Um lote do material é descoberto na gráfica da irmã do coordenador da campanha adversária, liderada por um falso carola, um papa hostia de ocasião, apoiado pelos endinheirados e conservadores, cuja hipocrisia explode na figura da mulher, uma bailarina que fez aborto e acusa a adversária do marido de ser ' a favor de matar as criancinhas’. A imprensa sem escrúpulos resiste em perguntar: --De onde veio o dinheiro, Dom Bergonzini? Tampouco cogita indagar se o bispo e os donos da gráfica tem contato com outro personagem obscuro, um certo Paulo Preto --que o candidato conservador chama de 'Paulo afro-descendente'. Apontado como o caixa 2 da campanha da direita, Paulo desviou R$ 4 milhões, mas guarda segredos e faz ameaças, obrigando o líder a ir aos jornais declará-lo um cidadão acima de qualquer suspeita.

sábado, outubro 16, 2010

O CAMINHO DA CALÚNIA

OBS: Sabe esses emails de calúnias sobre a candidata Dilma Rousseff que circulam na internet? Encontraram as fontes desses materiais e no texto abaixo isso fica bem explicadinho. Essas informações transcendem a campanha eleitoral, nos mostram o quão é viva e extrema direita e seu perfil golpista no Brasil. E ainda nos faz um alerta sobre como mentiras editadas e montagens podem influenciar a cabeça de jovens como tenho percebido e de pessoas que acessam só seus emails e não debatem sobre política. Entenda o processo!


por Tony Chastinet

Recebi o­ntem à noite um daqueles e-mails nojentos e anônimos, que estão circulando na internet, com calúnias contra a candidata Dilma Roussef. Decidi gastar alguns minutos para tentar identificar os autores. Consegui, e repasso abaixo as informações sobre os autores da baixaria – incluindo as fontes da pesquisa.
Há um e-mail circulando na internet com o seguinte título: “Candidatos de esquerda”. Na mensagem há uma série de calúnias contra Dilma, e o pedido para se votar no Serra. Também recomenda a leitura do site www.tribunanacional.com.br.
Entrei na página e de cara me deparei com aquela foto montada da Dilma ao lado de um fuzil. Uma verdadeira central de calúnias ligada à extrema direita. Vejam uma amostra neste link http://www.tribunanacional.com.br/v2/editorial/a-terrorista/.

O e-mail foi enviado para minha caixa postal na noite de domingo. O remetente é um tal de Ingo Schimidt (ingo@tribunanacional.com.br). O site está registrado na Fapesp em nome do “Círculo Memorial Octaviano Pinto Soares”.
Essa associação tem CNPJ (026.990.366/0001-49), está localizada na SCRN, 706-707, Bloco B, Sala 125, na Asa Norte, em Brasília. O responsável pelo site chama-se Nei Mohn. Em uma pesquisa superficial na internet, descobre-se que ele foi presidente da “Juventude Nazista” em 1968. Era informante do Cenimar e suspeito de atos de terrorismo na década de 80 (bombas em bancas de jornais e outros atentados feitos pela tigrada da comunidade de informações). Também foi investigado por falsificar o jornal da Igreja Católica, atacando religiosos que denunciavam torturas, assassinatos e desaparecimentos (vejam abaixo nas fontes).
Nunca foi investigado e sequer punido pelas barbaridades que aprontou. Para isso, contou com a proteção dos militares e da comunidade de informações para abafar os escândalos e investigações.

Prossegui na pesquisa e descobri que o filho de Nei, o advogado Bruno Degrazia Möhn trabalha para um grande escritório de advocacia de Brasília contratado por Daniel Dantas para representar o deputado federal Alberto Fraga (DEM) em ação no TCU movida pelo deputado para tentar impedir a compra de ações da BRT/OI pelos fundos de pensão.
Interessante essa ligação entre a extrema direita, nazistas e Daniel Dantas. Mas tem mais.
No registro do site ainda há outros dois nomes apontados como responsáveis pela página: Antonio Afonso Xavier de Serpa Pinto e Zoltan Nassif Korontai.

Serpa Pinto trabalha na Secretaria da Fazenda de Mato Grosso. Korontai é responsável pelo site http://www.projetovendabrasil.com.br. É um negócio estranho como pode ser visto na página da internet. Ele atua na área de tecnologia e fez concurso para analista de sistemas no TRE do Paraná.
O cadastro do site dele está em nome da CliqueHost Internet Hosting e Eletro Eletrônicos (CNPJ 008.144.575/0001-90 – Avenida Doutor Chucri Zaidan, 246, SL 18, São Paulo). O responsável chama-se Frederich Resende Soares Marinho.
Marinho é consultor de informática e trabalha em Piraúba (MG). Há uma série de reclamações de que ele vendeu hospedagens de site e não entregou o serviço. Ele é membro da Assembleia de Deus em Sorocaba.
Outro dado interessante: Ingo coloca um link no e-mail para quem não quiser mais receber as mensagens. Esse link aponta para o seguinte endereço: ingo.newssender.com.br. Newssender é um serviço de marketing eletrônico (leia-se spam) registrado e vendido pela Locaweb Serviços de Internet S/A. O curioso é que é o mesmo provedor que hospeda o site do candidato tucano.


Fontes:

– Tribuna Nacional – Dados do Registro.br
domínio: tribunanacional.com.br
entidade: Círculo Memorial Octaviano Pinto Soares
documento: 026.990.366/0001-49
responsável: Nei Möhn

2 – Nei Mohn
Matéria Veja de 1980 – http://www.arqanalagoa.ufscar.br/pdf/recortes/R06814.pdf
Matéria da Isto É de 1982 – http://www.arqanalagoa.ufscar.br/pdf/recortes/R03648.pdf

3 – Filho de Nei
Bruno Degrazia Möhn (OAB/DF 18.161)
Trabalha no escritório Menezes e Vieira Advogados Associados – http://www.migalhas.com.br/mostra_noticia_articuladas.aspx?cod=11457 – artigo defesa ppp

Escritório contratado por Dantas no caso BRT – http://www.anapar.com.br/noticias.php?id=6602

4 – Antonio Afonso Xavier de Serpa Pinto
Funcionário da secretaria estadual da fazenda de mato grosso
http://app1.sefaz.mt.gov.br/Sistema/Legislacao/legislacaopessoa.nsf/2b2e6c5ed54869788425671300480214/88e35b271696c3bf0425738500423ded?OpenDocument

5 – Zoltan Nassif Korontai
Site dele – http://www.projetovendabrasil.com.br/?pg=calculadora-de-ivestimento&p=253
Dados do registro.br
domínio: projetovendabrasil.com.br
entidade: CliqueHost Internet Hosting e Eletro Eletrônicos L

sexta-feira, outubro 15, 2010

A questão do aborto

por Juremir Machado da Silva em 12/10/10.

O aborto é legal em alguns dos mais católicos países do mundo: na Itália papista, na Espanha da Opus Dei, em Portugal e na França. É permitido também nas nações mais desenvolvidas e civilizadas do planeta: Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Dinamarca, Áustria, Suécia, Suíça, Noruega, Irlanda, Escócia, etc. Em geral, até o terceiro mês de gestação. Em todos esses lugares, obviamente, há quem seja contra. Em estados laicos, porém, resta às religiões aconselharem seus adeptos a agirem desta ou daquela forma. Estará o Brasil na vanguarda? Ou apenas em contradição? Dilma Roussef, para não perder votos, está sendo obrigada a renegar as suas convicções. É do jogo.

A legislação brasileira permite o aborto em dois casos. Por exemplo, se houver estupro. José Serra normatizou a aplicação dessa lei em São Paulo. Em termos rigorosamente lógicos, cabe perguntar: a defesa de uma vida permite exceções? Não seria o caso, como querem os mais extremados, de dizer que vida é vida independentemente das condições da sua geração? Parece justo afirmar que Serra é favorável só ao assassinato justificado de crianças. É isso mesmo? Ou, seguindo a tendência da Europa e dos Estados Unidos, seria mais razoável justamente o oposto, ou seja, permitir o aborto em nome da liberdade da mulher até certo momento da gestação definido pelas condições atuais da ciência? Uma coisa é certa: uma candidata ser obrigada a negar o que pensa, em consonância com os países mais adiantados do mundo, para obter votos conservadores é uma contradição.

Mais estranho ainda é que o candidato de um partido que se quer moderno, racional e sofisticado entre nessa jogada. Serra poderia ser acusado de infidelidade partidária: está trocando o PSDB pelo Dem em plena campanha. Enquanto isso, mulheres ricas fazem abortos em boas clínicas clandestinas. Jovens pobres fazem do jeito que dá. Será que há uma real preocupação com a defesa da vida nesse entrevero ou se trata apenas de uma maneira duvidosa de pegar a adversária no contrapé? O problema é mesmo o aborto ou é a manutenção de programas como o Bolsa-Família? A questão do aborto precisa entrar na pauta da sociedade brasileira um dia depois das eleições. Por que não se faz o plebiscito proposto por Marina Silva? As posições religiosas devem ser respeitadas e entrar no debate. Mas é a sociedade que deve decidir.

O jeito como a questão do aborto entrou nesta campanha eleitoral só pode ser rotulado de uma forma: baixaria. Prova de que na hora do pega para capar, como dizemos, qualquer método é válido. Já vimos esse filme. É a política do terrorismo simbólico. A opção de Dilma Rousseff parece pragmática: dar um passo atrás, constrangida, para quem sabe dar dois passos à frente. A de Serra parece o oposto: dar um passo à frente para talvez dar dois passos atrás. Uma sociedade aberta precisa decidir sobre temas que antes eram tabus: aborto, casamento de homossexuais, liberação das drogas. Quanto a este último item, Serra está atrasado em relação a Fernando Henrique? Será por isso que fica longe dele?

quinta-feira, outubro 14, 2010

Green Day

Esse vídeo é dos melhores momentos do show de ontem no gigantinho. Eu e o Fabrício Lopes fomos ver o GREEN DAY. O Billie Joe, trata com carinho o público, deu selinho em menina, em menino, deixou uma fã cantar um música inteira no lugar dele e simplesmente deu a guitarra pra ela depois. Bom!

segunda-feira, outubro 11, 2010

E não é que isso pode voltar.

Trago abaixo um trecho de texto do jornalista Aloysio Biondi feito em 1999, que avaliava a gestão do então presidente FHC do PSDB. Sem dúvida está em jogo nesse segundo turno a volta ou não da política descrita nessa passagem.


No começo dos anos 90, o sonho estava ao alcance da mão, o amanhã chegava. O Brasil conquistara uma posição entre as dez maiores economias do mundo. Melhor ainda: o Brasil nadava em dólares, porque era capaz de realizar exportações muito maiores do que as importações. Poucos se lembram disso hoje, mas o Brasil tinha um dos maiores saldos comerciais positivos (exportações menos importações) do mundo, na casa dos 10 a 15 bilhões de dólares por ano. Tinha dólares seus, não precisava mais de empréstimos ou de capital das multinacionais para realizar investimentos e manter a economia em expansão, para criação de empregos e solução dos problemas do seu povo. Foi ontem, e está tudo tão distante.

A serviço de outros países, o governo escancarou o mercado às importações e às multinacionais. Feiticeiros malditos transformaram o saldo positivo da balança comercial em um “rombo” permanente, deram vantagens na cobrança de impostos sobre a remessa de juros e de lucros estimulando o envio de dólares para o exterior, elevaram os juros para cobrir os rombos criados, “quebraram” assim a União, Estados, Municípios. Destruíram a indústria e a agricultura. Em cinco ou seis anos, clones malditos dos intelectuais de ontem destruíram o que havia sido construído ao longo de décadas. Destruíram mais. Destruíram o sonho, a Alma Nacional.

O que somos hoje? Um quintal dos países ricos? Não. Somos um curral. Bovinos ruminando babosamente enquanto o vizinho do lado, o trabalhador, o funcionário público, o aposentado, o agricultor, o empresário, todos, um a um, são arrastados para o grande matadouro em que o país se transformou, com suas mil formas de abate como o desemprego, os cortes na aposentadoria, as falsas reformas do funcionalismo, a falência, as importações. Bovinos ruminando no curral, enquanto empresas de todos os portes são engolidas por grupos estrangeiros e até o petróleo, ou os campos mais fabulosos de petróleo do mundo, com poços capazes de produzir 10.000 (dez mil) barris por dia, em um único poço, são entregues a preço simbólico às multinacionais.

Em cinco anos, o governo Fernando Henrique Cardoso não destruiu apenas a economia nacional, tornando-a dependente do exterior. Seu crime mais hediondo foi destruir a Alma Nacional, o sonho coletivo. Para isso, e com a ajuda dos meios de comunicação, jogou o consumidor contra os empresários nacionais, “esses aproveitadores”; o contribuinte contra os funcionários públicos, “esses marajás”; o pobre contra os agricultores, “esses caloteiros”; a opinião pública contra os aposentados, ”esses vagabundos”.

No governo FHC, o brasileiro foi levado a esquecer que, em qualquer país do mundo, a sociedade só pode funcionar com base em objetivos que atendam aos interesses, necessidades de todos – ou, mais claramente, não se pode por exemplo ter uma política de importação indiscriminada, a pretexto de beneficiar o consumidor, sem provocar desemprego e quebra de empresas. Ou, a longo prazo, desemprego generalizado.

Com o jogo perverso de estimular a busca de pretensas vantagens individuais, o governo FHC destruiu a busca de objetivos coletivos. Destruiu a Alma Nacional, o Projeto Nacional. A violenta desnacionalização sofrida pelo Brasil, em sua economia, vai eternizar a remessa de lucros, dividendos, juros para o exterior. Isto é, vai torná-lo totalmente dependente da boa vontade dos governos de países ricos em fornecer dólares e, portanto, de ordens e autorizações desses governos de países ricos. Uma espécie de colônia, mesmo, como alertou o economista Celso Furtado em palestra que ele encerrou com sua frase, arrasadora para quem viveu o Brasil de 50 para cá, “nunca estivemos tão distante do Brasil com que um dia sonhamos”.

domingo, outubro 10, 2010

Crítica do filme Tropa de elite 2

“Tropa de elite 2” poder ser analisado sob várias óticas, as duas principais seriam as que se referem ao seu viés artístico, isto é, fotografia, jogo de câmeras, música, narrativa e ao seu viés político, ou seja, o que seu conteúdo pode colaborar para o debate sobre a temática que aborda – violência, seja a institucional (legitimada pela ação da Polícia) seja a que decorre da desigualdade social. O filme é melhor que o primeiro, não há dúvidas, mais completo, mais complexo e mais bem feito.

Do ponto de vista artístico, a obra é refinada quando deve, rústica quando necessita e as cenas de ação são vigorosas e reais como precisam ser. Sobram qualidades e nem que buscássemos minúcias para as técnicas utilizadas, não teríamos conhecimentos específicos para sustentar qualquer crítica negativa. O roteiro tem uma virtude que chama a atenção, fazer do “mocinho” narrador, no caso o coronel Nascimento, o porta-voz de uma visão de mundo que contrasta com a do diretor do filme e com a do próprio ator que o protagoniza, Wagner Moura.

Essa qualidade do roteiro que nos referimos é central, pois a primeira vista pode parecer que o pensamento do Nascimento é a proposta política e pedagógica do filme, por se tratar da história da vida do personagem principal. Isso pode provocar uma confusão, a de que a conduta agressiva e intransigente do Capitão Nascimento no Tropa de Elite (que não é tão aparente no segundo filme, em face da consciência desenvolvida pelo personagem) é a que deve ser adotada e legitimada pelas Polícias e demais forças coercitivas sustentadas pelo Estado. Não raras vezes, no cinema, ouvimos gritos de incentivo quando Nascimento começa sua saga de vingança pessoal contra o “sistema”, nesse caso a idolatria ao personagem impede uma visão mais ampla do que propõe a trama. A visão de mundo de José Padilha e Cia (diretor e produtores do filme) tem muito mais sintonia com a do personagem Deputado Fraga, que ao contrário do Coronel Nascimento atua em plano secundário na trama. Fraga, que também é professor de história, é apresentado como um sujeito de “esquerda”, defensor dos direitos humanos e dos “maconheiros”.

Diferente do primeiro filme, em que o narrador começa o filme pensando de um jeito e termina pensando da mesma forma, nesse Nascimento muda seu modo de ver a realidade. Essa mudança não se dá pelo acesso de algum conhecimento acadêmico, mas sim pela constatação de que a resolução dos conflitos sociais (que num primeiro momento engloba unicamente a questão do tráfico) é impossível enquanto existir uma estrutura que, para existir, precisa e mantém esses conflitos. Com isso, mais maduro, Nascimento tem a sapiência de ler melhor e com mais profundidade essa realidade. Já Mathias, que muda no primeiro filme, passando de um bom menino que estuda e quer mudar a sociedade para um policial honesto, treinado para matar, no Tropa 2 ele não muda, segue o mesmo policial ‘correto’, que “não da chance para vagabundo”.

Saindo um pouco da parte técnica do filme, passando para o teor e o potencial qualificado de debate sobre segurança pública e corrupção no Brasil, o filme é didático porque se aproxima da realidade, é forte e corajoso. Isso já é muito importante, ele atinge um nível de discussão e de análise na narrativa alto para o que se tem visto no cinema. Teoricamente, a explicação que existe de alguns fenômenos da realidade no filme se aproxima mais de uma leitura sociológica sistematizada do que de leituras de senso-comum, e só isso já é um avanço, entretanto, não podemos deixar de salientar um conjunto de reducionismos de análise dos produtores, que inclusive ocorrem pelo formato do cinema.

O primeiro reducionismo ou possível confusão é apresentar um suposto posicionamento de esquerda como sinônimo de um pensamento ligado a defesa dos direitos humanos. São coisas diferentes, que combinam e se completam, mas não tem a mesma proporção nem a mesma origem. Ser de esquerda hoje, é algo muito mais vago e amplo do que era há cinquenta anos, mas em geral, é ter uma posição que denuncia o capitalismo como modo de produção, defende o socialismo, o fortalecimento do Estado, e a socialização dos meios de produção da sociedade. Já ser um defensor dos direitos humanos não pressupõe as prerrogativas socialistas, mas sim lutar pela dignidade das pessoas em geral e com especial atenção àquelas que por várias razões entram em conflito com a lei, na criminalidade e sofrem processos desumanizadores como a tortura e a privação da liberdade.

Outra redução, que é compreensível pela abrangência da temática, é entender o “sistema” com um fim na esfera política, isto é, que na organização política do Brasil, que é corrupta, promíscua, arcaica e está em crise de representação, se encerrasse os problemas da violência e da miséria. Há no mínimo dois aspectos a se adicionar nesse “sistema”: o poder da livre iniciativa privada, do capital estrangeiro, enfim as relações econômicas que, apesar de ser intimamente ligada a política institucional, transcende a essa e não tem responsabilidade social de nenhum caráter e muito menos é responsabilizada pelo Estado. O outro aspecto a ser somado é o cultural, a construção cultural e dos valores que essa estrutura da sociedade constitui ciclicamente, o como os sujeitos desenvolvem suas condutas e visões de mundo imersos em um tipo de cotidiano como o que temos nas periferias das grandes metrópoles. E aqui, se faz necessário destacar que, na realidade, o formato de Estado Democrático de Direito adotado pelo ordenamento jurídico brasileiro, só se reproduz negando direitos, isto é, há de existir um contingente grande de sujeitos que não acessem os bens culturais e materiais produzidos para que esta forma de Estado, pautada em privilégios, se mantenha.

Enfim, essas são reflexões acerca de mais um bom filme nacional que estava sendo esperado como um dos grandes eventos culturais desse ano no país. Trabalhos desse nível caso se tornassem rotina na produção da arte em geral poderiam dar a essa uma visibilidade e um poder como ferramenta de debate e acesso a cultura bem maior do que tem hoje.

Anna Luiza Marimon e Gregório Grisa

10/10/10

sexta-feira, outubro 08, 2010

Sobre as eleições por Jorge Furtado

por Jorge Furtado em 25 de julho de 2010

Tenho alguns amigos que não pretendem votar na Dilma, um ou outro até diz que vai votar no Serra. Espero que sigam sendo meus amigos. Política, como ensina André Comte-Sponville, supõe conflitos: “A política nos reúne nos opondo: ela nos opõe sobre a melhor maneira de nos reunir”.

Leio diariamente o noticiário político e ainda não encontrei bons argumentos para votar no Serra, uma candidatura que cada vez mais assume seu caráter conservador. Serra representa o grupo político que governou o Brasil antes do Lula, com desempenho, sob qualquer critério, muito inferior ao do governo petista, a comparação chega a ser enfadonha, vai lá para o pé da página, quem quiser que leia. (1)

Ouvi alguns argumentos razoáveis para votar em Marina, como incluir a sustentabilidade na agenda do desenvolvimento. Marina foi ministra do Lula por sete anos e parece ser uma boa pessoa, uma batalhadora das causas ambientalistas. Tem, no entanto (na minha opinião) o inconveniente de fazer parte de uma igreja bastante rígida, o que me faz temer sobre a capacidade que teria um eventual governo comandado por ela de avançar em questões fundamentais como os direitos dos homossexuais, a descriminalização do aborto ou as pesquisas envolvendo as células tronco.

Ouço e leio alguns argumentos para não votar em Dilma, argumentos que me parecem inconsistentes, distorcidos, precários ou simplesmente falsos. Passo a analisar os dez mais freqüentes.

1. “Alternância no poder é bom”.

Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.

2. “Não há mais diferença entre direita e esquerda”.

Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de “esquerdistas”, como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da “direita” do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Bornhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Bornhausen, José Sarney é Che Guevara.

3. “Dilma não é simpática”.

Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito “simpatia” depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.

4. “Dilma não tem experiência”.

Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.

5. “Dilma foi terrorista”.

Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações “terroristas”. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.

6. “As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano”.

Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate “quem começou o quê” torna-se irrelevante.

7. “Serra vai moralizar a política”.

Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista - no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC - foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela “Operação Sanguessuga”. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com “engavetador da república”, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de “mensalão” foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no “mensalão do DEM”. Roberto Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao contrário.

8. “O PT apóia as FARC”.

Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?

9. “O PT censura a imprensa”.

Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram “a posição oposicionista (sic) deste país”. Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.


10. “Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra”.

Isso é verdade. E mais um bom motivo para votar nela e não nele.

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(1) Alguns dados comparativos dos governos FHC e Lula.

Geração de empregos:
FHC/Serra = 780 mil x Lula/Dilma = 14 milhões

http://blogdolen.files.wordpress.com/2010/01/taxadesemprego.jpg

Salário mínimo:
FHC/Serra = 64 dólares x Lula/Dilma = 290 dólares

http://blogdolen.files.wordpress.com/2010/01/salariominimoxcestabasica.jpg

http://blogdolen.files.wordpress.com/2010/01/salario-minimo-reajustado.jpg

Mobilidade social (brasileiros que deixaram a linha da pobreza):
FHC/Serra = 2 milhões x Lula/Dilma = 27 milhões

http://blogdolen.files.wordpress.com/2010/01/linhadamiseria.jpg

Risco Brasil:
FHC/Serra = 2.700 pontos x Lula/Dilma = 200 pontos

Dólar:
FHC/Serra = R$ 3,00 x Lula/Dilma = R$ 1,78

Reservas cambiais:
FHC/Serra = menos 185 bilhões de dólares x Lula/Dilma = mais 239 bilhões de dólares

Relação crédito/PIB:
FHC/Serra = 14% x Lula/Dilma = 34%

Inflação:
FHC/Serra =12,5% (2002) x Lula/Dilma = 4,7% (2009)

Produção de automóveis:
FHC/Serra = queda de 20% x Lula/Dilma = aumento de 30%

Taxa de juros:
FHC/Serra = 27% x Lula/Dilma = 10,75%