quarta-feira, março 30, 2011

Einstein

Obs: eu usaria o termo "ser humano" ao invés de "homem", mas naquela época as conquistas feministas eram mais modestas que em nosso tempo.

"Estranha é a nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta passagem, sem saber por quê, ainda que algumas vezes tentando adivinhar um propósito. Do ponto de vista da vida cotidiano, porém, de uma coisa sabemos: o homem está aqui pelo bem de outros homens - acima de tudo daqueles de cujos sorrisos e bem-estar nossa própria felicidade depende." Albert Einstein

Essa passagem se encontra na página 274 do livro "Deus um delírio" de Richard Dawkins.

segunda-feira, março 21, 2011

Kadafi e as potências ocidentais

Por Frei Betto, publicado no sítio da Adital:

As potências ocidentais, lideradas pelos EUA, botam a boca no trombone em defesa dos direitos humanos na Líbia. E as ocupações genocidas do Iraque e do Afeganistão? Quem dobra os sinos por um milhão de mortos no Iraque? Quem conduz à Corte Internacional de Justiça da ONU os assassinos confessos no Afeganistão, os responsáveis por crimes de lesa-humanidade? Por que o Conselho de Segurança da ONU não diz uma palavra contra os massacres praticados contra os povos iraquiano, afegão e palestino?

O interesse dos EUA e da União Europeia não é a defesa dos direitos humanos na Líbia. É assegurar o controle de um território que produz 1,7 milhão de barris de petróleo por dia, dos quais depende a energia de países como Itália, Portugal, Áustria e Irlanda.

O caso do Iraque é exemplar: os EUA inventaram as jamais encontradas "armas de destruição em massa” de Saddam Hussein para exercer o controle sobre um país que é o segundo maior produtor mundial de petróleo – 2,11 milhões de barris por dia, só superado pela Arábia Saudita. E possui uma reserva calculada em 115 bilhões de barris. Soma-se a essa riqueza o fato de ocupar uma posição geográfica estratégica, já que faz fronteiras com Arábia Saudita, Irã, Jordânia, Kwait, Síria e Turquia.

No próximo dia 20 de março completam-se oito anos que os EUA e parceiros invadiram o Iraque sob o pretexto de "estabelecer a democracia”. O governo de Maliki está longe do que possa ser considerado uma democracia. Em fevereiro último, milhares de iraquianos foram às ruas para reivindicar trabalho, pão, eletricidade e água potável. O exército os reprimiu brutalmente, com mortes, detenções arbitrárias e sequestro de ativistas. Nenhuma potência mundial clamou em favor do direitos humanos nem sugeriu que Maliki responda perante tribunais internacionais.

A ONU é, hoje, lamentavelmente, uma instituição desacreditada. Os EUA a utilizam para aprovar resoluções que justifiquem seu papel de polícia global a serviço de um sistema injusto e excludente. Quando a ONU aprova resoluções que contrariam a Casa Branca – como a condenação do bloqueio a Cuba e da opressão dos palestinos – ela simplesmente faz ouvidos moucos.

Kadafi está no poder desde 1969. São 42 anos de ditadura. Por que os EUA e a União Europeia jamais falaram em derrubá-lo? Porque, apesar de seus atentados terroristas, era conveniente manter ali um déspota que atraía investimentos estrangeiros e impedia que chegassem à Europa os imigrantes ilegais da África subsaariana, ou seja, todos os países ao sul do deserto de Saara.

Agora que o povo líbio clama por liberdade, os EUA ocupam posições estratégicas no Mediterrâneo. Barcos anfíbios, aviões e helicópteros são transportados pelos navios de guerra US Ponce e US Kearsarge. A União Europeia, por sua vez, não está preocupada com a democracia na Líbia, e sim em evitar que milhares de refugiados desembarquem em seus países combalidos pela crise financeira.

Temem ainda que a onda libertária que assola os países árabes produtores de petróleo elevem o preço do produto, onerando ainda mais as potências ocidentais, que lutam com dificuldade para vencer a crise do sistema capitalista.

Fala-se em estabelecer uma "zona de exclusão aérea” na Líbia. Isso significa bombardear os aeroportos do país e todas as aeronaves ali estacionadas. E exige o envio de porta-aviões às costas africanas. Em suma: uma nova frente de guerra.

O fato é que a Casa Branca foi surpreendida pelo movimento libertário no mundo árabe e, agora, não sabe como proceder. Era mais cômodo prosseguir cúmplice dos regimes autoritários em troca de fontes de energia, como gás e petróleo. Mas como opor-se ao clamor por democracia e evitar o risco de o governo de tais países cair em mãos de fundamentalistas?

Kadafi chegou ao poder com amplo apoio popular ao derrubar o regime tirânico do rei Idris, em 1969. Mordido pela mosca azul, com o tempo esqueceu todas a promessas libertárias que fizera. Em 1974, valendo-se da recessão mundial, expulsou as empresas ocidentais, expropriou propriedades estrangeiras, e promoveu uma série de reformas progressistas que fizeram melhorar a qualidade de vida dos líbios.

Finda a União Soviética, a partir de 1993 Kadafi deu boas-vindas aos investimentos estrangeiros. Após a queda de Saddam, temendo ser a bola da vez, assinou acordos para erradicar armas de destruição em massa e indenizou vítimas de seus atentados terroristas. Tornou-se feroz caçador de Osama Bin Laden. Pediu ingresso no FMI, criou zonas especiais de livre comércio, abriu o país às transnacionais do petróleo e eliminou os subsídios aos produtos alimentícios de primeira necessidade. Iniciou o processo de privatização da economia, o que fez o desemprego aumentar cerca de 30% e agravar a desigualdade social.

Kadafi mereceu elogios de Tony Blair, Berlusconi, Sarkozy e Zapatero. Como ao Ocidente, desagradou-lhe a derrubada dos governos tirânicos da Tunísia e do Egito. Agora, atira contra um povo desarmado que aspira vê-lo fora do poder.

Para as potências ocidentais, Kadafi tornou-se uma carta fora do baralho. O problema, agora, é como derrubá-lo de fato sem abrir uma nova frente de guerra e tornar a Líbia um "protetorado” sob controle da Casa Branca. Se Kadafi resistir, Bin Laden pode ganhar mais um aliado ou, no mínimo, um concorrente em matéria de ameaças terroristas.

O discurso do Ocidente é a democracia. O interesse, o petróleo. E para o capitalismo, só isto interessa: privatizar as fontes de riqueza. Enquanto a lógica do capital predominar sobre a da liberdade, o Ocidente jamais conhecerá verdadeiras democracias, aquelas nas quais a maioria do povo decide os destinos da nação.

segunda-feira, março 14, 2011

Sobre a educação no governo Tarso Genro

Texto retirado da edição de 14/03/2011 do Correio do povo.

Gregório Grisa

Parece que o novo secretário de Educação, professor doutor José Clóvis de Azevedo, sabe que implantar políticas meritocráticas significa tratar dos efeitos dos problemas educacionais e não das causas. O poder Executivo deve ter como prioridades atacar problemas experimentados por quem vive o chão da escola. O Estado deve retomar uma política de concursos públicos e valorização da carreira do magistério. Hoje, a política de contratação do magistério tem priorizado o contrato ao concurso, isso promove um conjunto de problemas, desde a insegurança e a falta de compromisso do trabalhador, que vê seu emprego flexibilizado, até o fato dessa situação servir de mecanismo de controle político exercido por diretores e administradores públicos.

Em inúmeras bibliotecas de escolas estaduais não há bibliotecários, quem ocupa tal função são professores ou funcionários realocados para um serviço em que não são especializados nem preparados. Esse fenômeno é muito comum e prejudica, não só a qualidade do trabalho nas bibliotecas, como as relações profissionais dentro da escola, pois o redirecionamento de pessoal também é mecanismo punitivo, ou de garantia de privilégio, dependendo do caso. Essa realocação ocorre, também, no lecionar das disciplinas de Filosofia e Sociologia do ensino médio que, em muitos casos, são dadas por pedagogos ou assistentes sociais.

Esses são alguns tópicos para pensar medidas possíveis e acertadas. Sabemos que os maiores problemas são estruturais e que, sem base salarial justa, sem estrutura física de qualidade nas escolas, sem aperfeiçoamento da gestão democrática em todos os níveis, pouco vai se avançar. Ao invés de seguir "medindo" índices de aprendizagem e buscando estratagemas mil para interpretá-los, é necessário consolidar conquistas de carreira e avançar.

pedagogo, doutorando em Educação na Ufrgs

sábado, março 12, 2011

As várias formas de escrever o belo

Por Israel Dutra

O filme “Biutiful” merece muito mais do que um Oscar. Ele toca fundo. E, curiosamente, das mais variadas formas. Podemos atribuir destaque a um enredo provocante, inovador. Podemos eleger uma coleção de cenas, que por si só, são inesquecíveis. Podemos reverenciar a atuação brilhante de Bardem. Poderíamos, contudo, ressaltar a beleza ímpar do cinema de González Iñárritu, cheia de artifícios riquíssimos. Ou só pelos contrastes das fotografias, uma estética improvisada e segura, num cenário repleto da vida de Barcelona. As variantes do belo conformam o mosaico de Biutiful.

A história é contada com grande sensibilidade. Uxbal, o protagonista interpretado por Javier Bardem, é um médium, sem emprego formal, vivendo sempre em crise. Por um lado, tem a árdua tarefa de criar dois filhos- com quem mantém uma relação carinhosa-, encarar a relação com a ex-esposa [bipolar, com fortes transtornos compulsivos]. Sua vida social alterna entre a atividade espiritual e uma série de atividades ilícitas de contrabando e agenciamento de mão de obra ilegal. Os outros personagens que se enlaçam no filme são o seu irmão[sustentado pela vida noturna], um empresário chinês que vive controversa relação homossexual e depende diretamente da exploração da mão de obra semi-escrava de seus compatriotas, imigrantes africanos ilegais que vivem de contrabando, um policial corrupto. Toda esta trama está marcada pela incidência da morte. Os “encaixes” se dão de forma inusitada, levando a interessantes diálogos, onde o contraste com a morte serve para ressaltar os aspectos mais luminosos da vida. A descoberta, por parte de Uxbal, de um câncer de próstata terminal, sela o destino dos personagens do filme. A morte, que o acompanha na lida cotidiana como espiritualista, vai rondar sua vida como “farsa” e “tragédia”- dezenas de chineses são mortos por conta de um vazamento de gás, oriundo da precariedade dos aquecedores que Uxbal encomenda, pensado ser estes a salvação dos trabalhadores ilegais. Ainda assim, por mais “existencialista” que se possa perceber o roteiro, ele tem um inicio, meio e fim; o trajeto bem definido começa e termina com cenas idênticas, contudo, redefinidas no tempo, espaço e significado da obra.

As cenas, mesmo que separadas entre si, são geniais. A primeira cena é marcante. Num dialogo com a filha, Uxbal, voz rouca e debilitada, lembra sua família, seus pais, como exilados que vão para o México para escapar da ditadura de Franco. Logo após, ele recorda que escutava uma rádio, quando pequeno, que reproduzia o som das ondas do mar. A cena se agiganta, com a entrada de sons de rádio em sintonia e das próprias ondas do mar. Outra cena: no meio dos Pirineus, Uxbal alterna o dialogo com seu pai e seu filho, numa visão futurista. Outra cena incrível , contudo, é a que uma imigrante senegalesa apresenta seu filho, Samuel. Ela explica que é uma homenagem do pai, torcedor do Barcelona ao craque camaronês E´to. E na maior parte destas cenas riquíssimas, ao fundo encontramos Barcelona, de inúmeras formas. Quase como uma provocação, ela aparece sempre a meia luz, seja em suas praças centrais ou no território da periferia ou submundo, privilegiando o chamado “lusco-fusco”, a indefinição se é dia ou noite.

Bardem, de sua parte, chega ao auge, podemos dizer. Ele se aproxima de sua atuação em “Mar Adentro”- quando representa o caso real de Ramon San Pedro, tetraplégico aos 26 anos que lutou por seu direito à morte. Na interpretação de Uxbal , leva ao extremo a valorização da vida, na suas relações com os filhos, com a ex-esposa e com os trabalhadores que agencia. Irranitu não utiliza do moralismo, ao contrário, o interdita. A caminhada ao lado da morte, traz a Uxbal o contraste da vida. Bardem assume o personagem quase como o próprio “médium”, numa atuação que entra para a história recente do cinema.

O toque do diretor completa a obra. Depois da ruptura de Inarritu com seu tradicional parceiro dos aclamados 21 Gramas e Babel, Guillermo Arriaga, pairavam dúvidas sobre os novos rumos do diretor mexicano. A trama psicológica que é guiada pelo pano fundo de vários conflitos sociais explicitos traz originalidade. Barcelona, a “cidade aberta” de uma Europa cada vez mais fechada, é apresentada sem fetiches. Os dramas dos imigrantes, com condições desumanas que lembram em muito as fábricas do capitalismo do século XIX, a rede de corrupção que se articula em torno da ilegalidade, as condições precárias de habitação dos suburbios da Catalunha, são elementos que convivem com a vida, a morte e a consciência de Uxbal. O flerte com o fantástico, adicionando sons, imagens distorcidas à uma realidade crua soa como genial, nos olhos e trejeitos de Bardem. O debate existencial, despido como dito, de qualquer moralismo, vai conduzindo a trama, quase que despretenciosamente para as reminiscencias do próprio diretor. A retirada do pai de Uxbal para o México de Inarritu, a dedicatória final ao pai, a relação dilacerada e preocupada de um pai com seus dois filhos; o mundo de Inarritu aparece e desaparece a cada minuto no filme, se realizando de forma defitiva na mais bela metáfora do filme: Como se escreve a palavra “biutiful”?

A relativização do que é ou não é belo, a noção dialética entre a vida e a morte, a perspectiva de uma alteridade no julgamento moral do protagonista, abrem a cabeça. Os mesmos aquecedores que trariam redenção aos chineses são seus algozes silenciosos. A paixão arrebatadora do casal homesexual leva a desconfiança e a morte. A loucura da ex-esposa de Uxbal o faz mais sensato. No jogo do claro-escuro de Barcelona, Inarritu articula sua unidade e luta de contrários. Não há uma “moral da história”.

Os valores e os sentidos da vida devem ser pensados, como queria Sartre, com a consciência de que levamos “A morte na alma”.

domingo, março 06, 2011

Tudo ou nada



Sempre tem algo não é? Todo dia a notícia acontece ou é inventada, a vida não espera nada. Quando digo a vida não falo da minha nem da tua, mas da do mundo, do universo. Sempre acontece tudo e quase sempre não acontece nada para gente, para nossa individual existência, nossa rotina, nossa caminhada de trilhos desenhados na nossa mente. Pessoas morrem sempre, inexoravelmente, às vezes notáveis outras vezes famosos e ainda há a morte dos que famosos ficam exatamente por morrer. Sempre há uma revolta popular, um golpe sendo planejado, um negócio bilionário sendo fechado, um concurso sendo feito e um texto a ser escrito.
Sempre é uma palavra muito definitiva, assim como nunca não é? Não. O sempre existe e o nunca também, embora isso castre nossa veia utópica ou poética. São características do mundo, da vida, nunca vamos voar sozinhos, assim como sempre dependeremos do ar para manter nossa espécie. Sem carbono nunca haveria vida nos moldes que conhecemos, e sem a imaginação sempre iríamos fazer como as formigas que trabalham do mesmo modo a milhões de anos.
O que importam essas informações? Depende. A resposta pode ser nada, se caso você não tem tempo para pensar no tema ou acredita que existe uma transcendência que transforma tudo isso em pó de tão irrelevante. Ou pode ser muito, caso seu cérebro tire folga com freqüência e passeie pelos vales da subjetividade e dedique atenção para entender mais sobre as intrigantes formas que temos de entender o mundo, a nós, e aos outros. A arte cumpre esse papel de uma maneira linda, faz o papel de guia turístico desse passeio. Pena que 80% da humanidade não acessa a beleza, a sensibilidade, as entrelinhas, os achados, a leveza, a profundidade, o conteúdo, o significante e o significado da arte.
Como perde a humanidade com isso, como poderíamos ser melhores, mais justos, tomarmos melhores decisões, como formularíamos melhores nossos juízos se as artes inundassem as mentes dos seres humanos. Menos seriam os absurdos, as violências de toda ordem e teríamos não uma plenitude de felicidade, não me iludo com isso, mas viveríamos nossas infelicidades com mais lucidez, haveria mais nitidez de que as tristezas são parte da existência e podem ser superadas.
Conseguiríamos organizar melhor a vida coletiva, a política, os seres humanos não têm desvios éticos e morais no seu DNA, nem nascem com doses de má fé e vontade. O ser humano construiu e constrói sua história, faz escolhas que se acumulam, se repetem e se transformam em cultura, ninguém é bom ou ruim por natureza. Esse maniqueísmo só serve para convencer e formar ingênuos, as relações humanas são mais complexas que isso. Complexo, aqui no caso, não e sinônimo de difícil, mas sim de maior, mais amplo. Não há solução para tudo, não há perfeição, não há receita para o que não se desenvolveu ficar pronto, ao contrário de um bolo de cenoura, que é engendrado para ter uma forma, o ser humano vive da incompletude e que bom.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Grande Santiago

Eram quase duas horas da manhã, as pálpebras de Alfredo já enfraquecidas diminuíam a curiosidade sobre o horizonte e a caminhada já estava chegando ao fim. Viajar é uma prática comum da família do nosso rapaz e dessa vez o destino foi o Chile. Santiago se mostrava uma capital charmosa e movimentada que mescla a estética do mundo moderno com a contemplação da arquitetura de outrora. Essa é a viagem mais longa que família já fez e custou o preço de não ter havido passeio nas férias últimas.

Dividiram o tempo com a disciplina devida em viagens únicas, conheceram pontos turísticos, aproveitaram a gastronomia e os passeios, tudo dentro do orçamento contado. Santiago, por ser no vale central chileno, oferece um fundo branco e montanhoso, ou se preferirem, a Cordilheira dos Andes, a cidade é o fundo de uma panela de tantas montanhas que a cercam.

O apóstolo Santiago foi homenageado bem longe da terra santa por ser patrono da Espanha e Alfredo se pôs curioso quando na chegada ao hotel ficou sabendo disso através de um senhor que tomava conhaque no bar onde ele fora buscar chá verde para o seu pai. Devido ao horário o serviço de quarto já não funcionava e logo que o chá chegou Alfredo, que gostara do espanhol lento e paciente do senhor, levou-o num pé e retornou no outro.

Ali ficou mais uma hora daquela noite agradável ao se entreter ouvindo mais sobre o Chile e sua capital, ou sobre a opinião daquele senhor sobre sua terra, mas, sobretudo agradou aquele sujeito que adorou ser ouvido com atenção, essa necessária tanto pela língua quanto pelo tema. Alfredo tem sensibilidades como essas que afloram de vez em quando, percebeu que o senhor tinha sede de só e que trôpego ficaria de qualquer forma, então lhe ofereceu companhia para que ambos cambaleassem mais alegres. O senhor das pernas e Alfredo, que não provou nada além de tônica, tropeçava no espanhol mesmo.

sábado, janeiro 29, 2011

PRISÃO PARA QUEM PRECISA



Marcos Rolim
Jornalista

Nos últimos 20 anos, o número de pessoas encarceradas no Brasil passou de cerca de 90 mil para mais de meio milhão. Um crescimento de 450%, enquanto a população aumentou 32%. No mesmo período, o número de presos nos EUA (o país que mais encarecera no mundo) subiu 77%. Em 1990, tínhamos 18% de presos provisórios (pessoas que estão presas, mas que ainda não foram julgadas). Hoje os presos provisórios são 44%, o que indica que a liberdade processual deixou de ser regra e que não só encarceramos em massa, como permitimos que centenas de milhares permaneçam presos sem julgamento. Recentemente, em inspeção a três presídios na Paraíba (pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária) encontrei dezenas de pessoas respondendo por furto em prisão preventiva a mais de dois anos (!).

O senso comum imagina que prendendo mais estaremos mais seguros. Em alguns poucos casos isso é verdadeiro. Quando prendemos pessoas especialmente perigosas, dispostas, por exemplo, a matar, a estuprar ou a vender um mandato para uma empreiteira, evitamos que mais pessoas sejam vitimadas. As evidências, entretanto, mostram que encarcerar em massa e não investir no tratamento penal é a combinação ideal para ampliar o crime e a violência. É exatamente isto o que temos feito no Brasil. A dinâmica é complexa, mas dois são os fenômenos básicos: se prendemos pessoas que agem isoladamente e cometem delitos sem violência real, é provável que, em contato com outros presos e diante da necessidade de proteção, elas se organizem em facções. Ao saírem da prisão, seus vínculos com o crime terão se fortalecido e a reincidência tende a se agravar. Na outra ponta, temos os presos que resistem a esta lógica e que saem da cadeia à procura de emprego. Mas aí todas as portas se fecham e, pelo estigma, a sociedade os empurra de volta às alternativas ilegais de sobrevivência. Por isso, prender pessoas é, em regra, uma forma muito cara de tornar as coisas bem piores.

Nunca prendemos tanto, mas a notícia é a de que prendemos pouco e a pressão é por novos presídios e por leis “mais duras”. Vamos construir novos presídios, claro. Mas apenas para adiar o colapso total do sistema, cujo déficit já é de 200 mil vagas. Construir uma vaga custa entre 30 e 50 mil reais. 200 mil vagas é, então, algo entre 6 e 10 bilhões (sem considerar o custeio). Mas temos cerca de 500 mil mandados de prisão por cumprir. Não seria, então, mais inteligente reservar as prisões para aqueles que constituem ameaça à vida dos demais? Há sentido em manter 16% de presos no País por furto? E 20% por tráfico quando 80% deles são jovens miseráveis e analfabetos flagrados com pequenas quantidades? Não há outras formas de responsabilizá-los? Especialmente em se tratando de segurança, soluções racionais costumam ter pouco espaço; normalmente nenhum. Mas há esperança. No RJ, policiais das UPPS estão ajudando jovens que traficavam a encontrar empregos. Aqui no RS, egressos da FASE se afastam do crime por conta de programa do governo passado que lhes oferece meio salário e cursos profissionalizantes. Iniciativas excelentes que deveriam inspirar os governos e a mídia. Mas o pessoal vibra mesmo é com tanques em favelas.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Crônica de uma morte anunciada

"Durante muito tempo não conseguimos falar de outra coisa. Nossa conduta diária, dominada até então por tantos hábitos lineares, começara a girar, de repente, em torno de uma mesma ansiedade comum. O galos do amanhecer nos surpreendiam tentando ordenar as numerosas casualidades encadeadas que tornaram possível o absurdo, e era evidente que não o fazíamos por um desejo de esclarecer mistérios, mas porque nenhum de nós podia continuar vivendo sem saber com precisão qual era o espaço e a missão que a fatalidade lhe reservara. Muitos ficaram sem sabê-lo." (2009, p.143).

Essa passagem
faz parte do livro "Crônica de uma morte anunciada" de Gabriel Garcia Márquez e se refere ao contexto da morte de Santiago Nasar, principal personagem da linda trama. Fica a dica!

terça-feira, janeiro 25, 2011

Educação: da quantidade à qualidade


A presidente Dilma promete priorizar a educação. No Brasil, apenas 10% da população concluíram o ensino superior; 23% o médio, e 36% não terminaram o fundamental. O ministro Fernando Haddad se compromete a adotar tempo integral no ensino médio, combinando atividades curriculares com aprendizado profissionalizante.

São promessas às quais se soma a de aplicar 7% do PIB na educação (hoje, apenas 5,2%, cerca de R$ 70 bilhões).

O governo Lula avançou muito na área: criou 14 novas universidades públicas e mais de 130 expansões universitárias; a Universidade Aberta do Brasil (ensino à distância), cuja qualidade é discutível; construiu mais de 100 campi universitários pelo interior do país; criou e/ou ampliou Escolas Técnicas e Institutos Federais e, através do PROUNI, possibilitou a mais de 700 mil jovens o acesso ao ensino superior.

Outro avanço é a universalização do ensino fundamental, no qual se encontram matriculados 98% dos brasileiros de 7 a 14 anos. Porém, quantidade não significa qualidade. Ainda há muito a fazer. Estão fora da escola 15% dos jovens entre 15 e 17 anos. Ao desinteresse, principal motivo, alinham-se a premência de trabalhar e a dificuldade de acesso à escola.

Tomara que a proposta de tempo integral do ministro Haddad se torne realidade. Nos países desenvolvidos os alunos permanecem na escola, em média, 8h por dia. No Brasil, 4h30. Pesquisas indicam que, em casa, passam o mesmo tempo diante da TV e/ou do computador. Nada contra, exceto o risco de obesidade precoce. Mas como seria bom se TV emitisse mais cultura e menos entretenimento e se na internet fossem acessados conteúdos mais educativos!

Os estudantes brasileiros leem 7,2 livros por ano, dos quais 5,5 são didáticos ou indicados pela escola. Apenas 1,7 livro por escolha própria. E 46% dos estudantes não frequentam bibliotecas.

No Pisa 2009 (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), aplicado em 65 países, o Brasil ficou em 53º lugar. Na escala de 1 a 800 pontos, nosso país alcançou 401. No quesito leitura, 49% de nossos alunos mereceram nível 1 (1 equivale a conhecimento rudimentar e 6 ao mais complexo). Nível 1 também para 69% de nossos alunos em matemática e para 54% em ciências.

O Pisa é aplicado em alunos(as) de 15 anos. Nas provas de matemática e leitura, apenas 20 alunos (0,1%), dos 20 mil testados, alcançaram o nível 6 em leitura e matemática. Em ciências, nenhum. No conjunto, é em matemática que nossos alunos estão mais atrasados: 386 pontos (o máximo são 800). O MEC apostava atingirem 395. Na leitura, nossos alunos fizeram 412 pontos, e em ciências, 405.

Estamos tão atrasados que o Plano Nacional de Educação prevê o Brasil alcançar, no Pisa, 477 pontos em 2021. Em 2009, a Lituânia alcançou 479; a Itália, 486; os EUA, 496; a Polônia, 501; o Japão 529; e a China, campeã, 577.

Nos países mais desenvolvidos, 50% do tempo de instrução obrigatório aos alunos de 9 a 11 anos e 40% do tempo para os alunos de 12 a 14 anos é ocupado com ciências, matemática, literatura e redação. E, no ensino fundamental, não se admitem mais de 20 alunos por classe.

Onde está o nosso tendão de Aquiles? Na falta de investimentos – em qualificação de professores, plano de carreira, equipamentos nas escolas (informática, laboratório, biblioteca, infra desportiva etc).

Análise de 39 países, feita pela OCDE em 2010, revela que o investimento do Brasil em educação corresponde a apenas 1/5 do que os países desenvolvidos desembolsam para o setor. EUA, Reino Unido, Japão, Áustria, Itália e Dinamarca investem cerca de US$ 94.589 (cerca de R$ 160 mil) por aluno no decorrer de todo o ciclo fundamental. O Brasil investe apenas US$ 19.516 (cerca de R$ 33 mil).

Embora a OMC tenha insinuado retirar a educação da condição de dever do Estado e direito do cidadão e transformá-la em simples negócio – ao que o governo Lula se contrapôs decididamente -, os 5,2% do PIB que nosso país aplica na educação são insuficientes. O que favorece a multiplicação de escolas e universidades particulares de duvidosa qualidade. Entre os países mais ricos, derivam do poder público 90% do investimento em ensinos fundamental e médio.

Ainda convivemos com cerca de 14 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais. Sem contar os analfabetos funcionais. Dos 135 milhões de eleitores em 2010, 27 milhões não sabiam ler nem escrever. Faltou ao governo Lula um plano eficiente de alfabetização de jovens e adultos.

Tomara que Dilma cumpra a promessa de criar 6 mil novas creches e o MEC se convença de que alfabetização de jovens e adultos não se faz apenas com dedicados voluntários. É preciso magistério capacitado, qualificado e bem remunerado.

Todos gostariam que seus filhos tivessem ótimos professores. Mas quem sonha em ver o filho professor? Na Coreia do Sul, onde são tão bem remunerados quanto médicos e advogados, e socialmente prestigiados, todos conhecem o provérbio: “Jamais pise na sombra de um professor.”

(*) Artigo publicado originalmente na página do Brasil de Fato.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Fim de semestre

Reprovei em uma das disciplinas que mais gostava, achei ter feito todos os trabalhos de modo correto e fui ver na internet o meu conceito e avistei um “D”. Mandei um email para o professor a mais de duas semanas e não recebi retorno. Aquilo estava me corroendo, rememorei todas as avaliações e lembro-me de três, duas em dupla e uma individual.

Com essa pulga atrás da orelha, fui procurar meu colega com quem fiz os trabalhos para saber como ele havia se saído. Liguei para sua casa, atendeu uma moça com voz de quem não pronunciava uma palavra há horas. Perguntei se o Souza estava e a resposta em tom cansado foi a seguinte:

- se esse cara do meu lado se chama Souza e se essa é a casa dele ele está.

Avisei que estava indo lá e para que ele me esperasse. A casa era longe, mas eu queria sair mesmo e aproveitei a necessidade.

Durante o tempo que estava no ônibus lembrei que havia feito praticamente sozinho os dois trabalhos da disciplina e que Souza só iria diagramar e entregar, não tinha o que dar errado. Cheguei ao meu destino, apertei a campanhinha uma menina baixinha abriu a porta e falou:

- oi, tchau! O cara ta deitado.

A casa estava um tanto desorganizada para não dizer completamente bagunçada. Com certo sacrifício acordei Souza e o deixei a par de toda a situação, ele ainda não tinha visto sua nota, mas me adiantara que já havia reprovado três vezes nessa cadeira. Sobre os trabalhos que eu tinha feito e ele havia ficado de entregar ele me respondeu:

- Alfredão, um dos trabalhos eu tenho certeza que entreguei para a professora e o outro não to lembrado mesmo.

Peguei a mochila dele que estava ao meu alcance e é lógico, encontrei um dos trabalhos do mesmo jeito que eu tinha enviado. Mostrei a ele que um trabalho estava ali e perguntei como que ele havia entregado o outro para uma “professora” se o responsável pela disciplina era um homem?

Souza me olhou, mesmo tentando não conseguiu arregalar os olhos de tão inchado que seu rosto estava, e ao ficar cabisbaixo externou: putz! Minha visita ao Souza serviu para eu entender porque reprovara naquela boa disciplina e também me mostrou que nem sempre estamos ajudando os outros quando pensamos fazê-lo.