quarta-feira, novembro 21, 2012

Rotina

Ele passou a defender a tese de que a rotina nem sempre representa algo enfadonho. No seu caso a rotina era o que o mantinha vivo. Do auto dos seus setenta e três anos os prazeres e manias eram caricaturas conhecidas, motivos de graça para uns e de raiva para outros. De perto ninguém é normal, mas dele ninguém poderia afirmar isso, vivia só, com seus outros “eus”. A aposentadoria precoce não foi só profissional, virou também um inativo em fazer e manter amizades.
As relações efêmeras dos comprimentos diurnos obrigados e das comunicações fundamentais lhe pareciam mais eficazes e eram suficientes. Para ele dividir tristezas seria uma maldade com os outros. Quando argumentaram com ele que esse pensamento seria uma defesa diante da possível decepção caso se exponha em alguma relação mais intensa, ele diz ser bobagem:
- só se protege quem tem tempo pra viver decepção, eu já não tenho.
Seu apartamento era térreo e de fundos, o corredor era longo, significava a caminhada do dia à tardinha. Mais exercício que isso é dar tempo ao músculo que poderia faltar ao cérebro segundo ele. Essa é uma teimosia que até ele admitia vazia, mas sozinho para os lençóis.
Ele prefere o verão não pela temperatura, mas por poder usufruir mais da parte do dia que preferia. Do lado do seu prédio havia uma sorveteria, ele carregava uma cadeira e sentava na frente todo fim de tarde. Camiseta pra dentro da bermuda, sandália de couro e um livro, que ele tinha há mais de dez anos e nunca chegou à página vinte, e só o acompanhava para os outros não pensarem que ele estava ali só para olhar as pessoas na sorveteria. Ele ia para frente estritamente para olhar as pessoas na sorveteria, era o seu momento. Prefere o verão porque aumenta o movimento, porque os vestidos se multiplicam e encurtam, embora isso só mexa nele o músculo da imaginação.
Os casais, os pais, os animais e as bicicletas eram seus brinquedos, seus objetos de estudo. Ele extraiu dessa atividade de sentar em frente à sorveteria um laboratório de superar solidões, um manancial de histórias para se suportar. O menino da sorveteria, que sempre comentava algo sobre o tempo ou futebol, foi o portador da notícia. O rapaz trabalhava há muitos anos ali, e certa feita nosso protagonista teria lhe confessado, em ato de exceção, que tinha descoberto ser aquele momento de estar ali o mais prazeroso do seu dia. E que caso o jovem não o visse ali sentado no fim da tarde no verão poderia acionar a perícia e foi o que fez o menino hoje sem mesmo verificar no prédio, como quem aposta em jogo de cartas marcadas.

terça-feira, novembro 20, 2012

Dia da consciência negra


Dia bonito hoje, o da consciência negra, motivo de reflexão para todos. Lembre! O racismo pode estar em ações, atitudes, condutas, gestos e falas que você acha que não são racistas.

O racismo está na sociedade e nós estamos nela, nós guardamos o racismo em algum lugar, onde você guarda o seu? Deixar de guardar o racismo e passar a eliminá-lo do convívio e da nossa subjetividade não é um ato de boa vontade ou bondade, mas sim um ato político de humanização, estudo e conscientização.

Por nos convencermos que não somos pessoalmente racistas passamos a acreditar que nosso grupo social e até a sociedade não o é, o que é um engano. Infelizmente, por se tratar de elemento fundante da formação sociocultural do Brasil, o racismo está na minha família, nos meus amigos e em mim.

A palavra "respeito" tem raízes interessantes, vem de espectar, isto é, olhar, ver. Respeito é re-olhar, ver outra vez. Respeitar é o constante ato de re-espectar o outro e a nós mesmos e ir entendendo que nem tudo que parece natural é, nem toda brincadeira terá graça para sempre e que re-ver nossas ações e pensamentos e os  das pessoas próximas é um gesto de respeito.

Hoje morreu e "nasceu" Zumbi, líder de Palmares, Zumbi vem do termo nzumbe, do idioma africano quimbundo, e significa, espírito ou alma. Alma de resistência e luta que hoje vive nos negros e negras, na valorização das suas identidades e do seu pertencimento. Salve a população negra brasileira que escravizada construiu os alicerces desse país e segue o fazendo com sua cultura, sabedoria e beleza.

Gregório Grisa 

terça-feira, novembro 13, 2012

Os dois

Escute aqui

A calma que é dele
Ela acha que tem
Coragem que é dela
Ele quer também

O sonho do seguro
Difícil assegurar
Passo no futuro
De junto atravessar

Ela diz que vai
Ele diz quem vem
Ele olha pra trás
Ela só pra frente

Um já diz que faz
O outro diz que fez
Os dois sabem demais
Só que dessa vez vai

Se notar
Que viver
Não é só duvidar

Mas também
Escutar
A voz que não quer falar
E se deixar levar


A – Bm – C#m – Bm

R: D+7 – A (2x)
E – F#m
E - D

segunda-feira, novembro 12, 2012

À Mia Couto

O discurso excursiona
nas idas sem paragens
a escrita aciona
o sentido da bagagem

O místico mina
o imaginar luso
personagem do Mia
eterno miúdo

A língua é a pátria
desvenda e ressoa
une e separa;
universal com Pessoa!

Grita, mia ou canta
finta no verbo souto
neolegisla e encanta
esse é Mia Couto.

Gregório Grisa

quarta-feira, novembro 07, 2012

Pedido de Investigação


Ao Ministério Público,

Pedido de Investigação do Processo de Posse e de Lotação das Escolas dos primeiros 1.100 (um mil e cem) nomeados no Concurso do magistério Estadual do RS.

Nos dias 30 e 31 de outubro foram realizadas as primeiras cerca de mil e cem posses, em um universo de cinco mil e quinhentos professores que devem passar pelo mesmo processo até janeiro do próximo ano. Foram divididos em dois grupos de 550 professores, o primeiro empossado no primeiro dia e o segundo no dia seguinte - cabe ressaltar que a SEDUC lançou uma lista de nomeados onde os 5.500 aprovados (para um total de dez mil vagas) foram discriminados em ordem decrescente de pontuação, independente da Coordenadoria Regional de Educação para a qual se inscreveu e independente da área para a qual foi nomeado. 
Portanto, todos nomeados do Estado deveriam tomar posse nos mesmos dias e local (Ginásio da Brigada Militar na Avenida Aparício Borges), nos quais a SEDUC organizaria o processo em regime de mutirão, reunindo todas as Coordenadorias Regionais em Porto Alegre. E foi nesse cenário, que professores se depararam com uma série de procedimentos e acontecimentos no referido concurso que julgaram sujeitos à averiguação, por parte dos órgãos competentes, no que diz respeito à sua regularidade e à sua legalidade.
São esses procedimentos e acontecimentos que informamos ao MP, por meio do presente documento.

1. Falta de transparência da SEDUC em relação à divulgação das listas de vagas em escola.
1.1 Existência de várias listas;
1.2 Disponibilização parcial e subjetiva das listas (ou apenas parte delas) sem um critério definido e igual para todos os nomeados;
1.3 Impossibilidade de manuseio e de leitura das listas pelos nomeados
1.4 Nas listas, não havia o endereço das escolas (ou era feita a localização por outro funcionário na internet ou os próprios nomeados se deslocavam até o mapa da cidade para lá localizarem as escolas que estavam marcadas);
1.5 Os turnos e as disciplinas, disponíveis na lista, não conferiram mais tarde, em muitos casos, com a real situação da vaga ofertada;
1.6 Menos vagas, em algumas áreas, que a quantidade de professores que deveriam tomar posse;
1.7 No segundo dia, a lista de vagas era maior que no primeiro;
1.8 Alguns são informados que foram apenas aquelas vagas as enviadas à SEDUC pelas direções de escola;
1.9 Falta de um sistema informatizado que mantivesse a lista de escolas atualizada. O preenchimento das vagas era feito de forma manual;
1.10 Praticamente todas as grandes escolas de Porto Alegre (sobretudo as localizadas próximo ao centro da cidade) não estavam presentes nas listas, mesmo sendo de conhecimento de todos que tais escolas contam com um enorme contingente de professores sob o regime de contrato temporário;
1.1 Relatos de vagas, em escolas visadas, que “surgiram” nos últimos instantes do processo e foram ocupadas por pessoas que oportunamente ali estavam após as 21h do dia 30/10; 
1.2 A chamada dos aprovados foi erroneamente feita em ordem de classificação geral, pois na classificação geral poderia ocorrer - como ocorreu - de nas primeiras colocações haverem aprovados em maior número do que as vagas existentes em uma determinada disciplina/área do conhecimento.


2. Falta de transparência no processo de alocação/ocupação das vagas.
2.1 Não divulgação de critérios gerais (para todos) para alocação das vagas;
2.2 Alocação de vagas em outras escolas diferentes daquelas que estavam disponíveis para todos nas listas;
2.3 Contratados tinham o privilégio de permanecer na escola que já estavam trabalhando (normalmente escolas que não estavam nas listas), independente da colocação na lista de nomeados;
2.4 Diretores de escola entrando em contato com a SEDUC para garantir vaga pra determinado nomeado;
2.5 Enquanto alguns nomeados pensavam em sua situação particular (se aceitariam uma das vagas oferecidas, se prorrogariam a posse ou se iriam para o final da lista), outros candidatos passavam na frente podendo escolher uma escola constante nas opções do colega ao lado, melhor classificado;
2.6 Lista de classificação dos nomeados foi desconsiderada em muitos momentos, tanto na alocação quanto na realocação quando identificado algum problema com a vaga anteriormente disponibilizada;
2.7 Ao não disponibilizar as melhores vagas (escolas) para os primeiros classificados, o critério adotado pela SEDUC inverteu a lógica meritocrática de qualquer concurso; 
2.8 Informação de que as vagas estavam dispostas apenas em escolas onde não existiam contratados, seguidas pelas escolas onde os contratados não possuíam formação completa, onde os contratados eram recentes, chegando aos contratados mais antigos – entretanto, essa lógica não servia para todos e não havia sido divulgada anteriormente pela SEDUC. Levando em consideração que todos os aprovados serão chamados no prazo de até 3 meses (conforme divulgado na imprensa) não vemos razão para discriminar quais contratados saem primeiros, dificultado a escolha dos profissionais nomeados;
2.9 Muitos professores procuraram diretamente a 1°CRE e lá foram designados para escolas que não constavam nas listas, alocadas em cima da hora (algumas até mesmo por telefone), desrespeitando a ordem de classificação final do concurso;
2.10 Professores procuram a escola e foram informados que a vaga para qual foram destinados não existia ou que a vaga já havia sido ocupada por algum nomeado que estava abaixo na lista de classificação;
2.11 Houve casos em que o professor procurou a escola e foi dispensado pelo diretor, pois este declarou que não iria abrir mão do contratado;
2.12 Muitos professores não assumiram pela impossibilidade de serem lotados nas escolas oferecidas, principalmente os professores que já trabalham em outra rede de ensino e que necessitavam de escolas perto de suas moradias ou perto do segundo emprego (mesmo eles sabendo da existência de vagas ocupadas por contratados que atendessem a essas condições).


3. Informações diversas e contraditórias dadas aos candidatos.
3.1 Alguns professores receberam a informações de que só poderiam adiar por 15 dias a posse, caso já escolhessem a sua lotação;
3.2 Outros foram informados de que adiando o processo por 15 dias, tomariam posse nas respectivas CREs e lá seriam lotados;
3.3 Teve aqueles que foram informadas de que pedindo 15 dias de prorrogação, não poderiam mais escolher a opção final da lista; outros, que mesmo solicitando tal prazo, ainda teriam tal opção;
3.4 Para acelerar o processo, muitos foram aconselhados a ficar com as escolas ali disponibilizadas, que logo no final do ano ocorreria um remanejo; outros, tiveram a informação de que só poderiam trocar de escola após os três anos de estágio probatório.

4. “Assédio Moral”
4.1 Pressão para que os nomeados escolhessem rapidamente suas escolas ou que optassem pela prorrogação ou final de fila, inclusive sob pena de terem negada a sua posse pela pessoa que fazia o atendimento;
4.2 Aviso para aqueles que optassem por prorrogação do atraso que teriam em seus pagamentos de salário (três a quatro meses);
4.3 Modos constrangedores de se referir aos professores: “menininha”, “bom exemplo que daria aos alunos”, “pode levantar e sair porque já ficou muito tempo aqui e tem mais gente esperando”, “vocês parecem crianças quando falamos com vocês, não entendem”;
4.4 Em alguns momentos, membros da Brigada Militar foram chamados para interferir e supervisionar a situação;
4.5 Imposição para que os nomeados assumissem, no total ou na maioria da sua carga horária, disciplinas diversas daquelas específicas de sua formação.


Enfim, essas foram algumas das irregularidades que julgamos ter ocorrido no processo de posse e alocação dos locais nos quais os professores deveriam entrar em exercício (já no dia 5 de novembro).
Aguardamos o retono do Ministério Público quanto à possibilidade de investigação e de intervenção nesse já realizado processo e quanto à possibilidade de fiscalização dos próximos quatro momentos nos quais serão realizadas as posses dos restantes cerca de 4.400 professores nomeados.


Cordialmente,
Grupo de Professores aprovados no concurso.

segunda-feira, outubro 29, 2012

Somos

Sou mesmo é de chinelo,
comendo amendoim
to bem mesmo
de barba mal feita
correndo no capim

Te vejo mesmo é dormindo
e hipnotizada a olhar pra o nada
nos mostramos mesmo
é na curiosidade mórbida
e na emoção apressada

Sou mesmo é no banho
ou contando carneirinhos
me mostro mesmo é
com o tempo
do conhecer devagarinho


Gregório Grisa


sexta-feira, outubro 26, 2012

Sangue da Terra

Esse acontecido com os guaranis kaiowás, indígenas no Mato Grosso do Sul, ocorreu bem na semana que estava lendo um texto do Boaventura de Souza Santos em que, por ventura, ele narra uma história de índios colombianos que se mataram coletivamente no século XVII contra a colonização espanhola e que, recentemente, ameaçaram fazê-lo novamente porque empresas multinacionais queriam extrair petróleo de suas terras de origem. Esses índios, os u'was, acreditam que o petróleo é o sangue da terra e a terra é a mãe deles, então preferiam morrer à ver secarem as veias da mãe. 
O capitalismo chega a estágios tal de crueldade e desumanidade que fica simples compreender duas coisas básicas: 

1 - o grau elevado de indiferença e anestesia que o consumo e o individualismo produzem em boa parte das pessoas;
2 - o porque as pessoas que criticam o sistema, os inquietos e indignados do mundo, seja socialista, comunista, anarquista, humanista, pacifista ou nenhum "ista", são sujeitos mais felizes, mais confortáveis com suas dignidades e consciência. 

Tá! Eu sei que é arriscado dizer isso, mas eu sinto isso e quero me perder no mundo das generalizações. Me desculpem as pessoas que buscam lucro a vida inteira, ter luxo, ter bens. Os empreendedores, os empresários e executivos, os amantes do dinheiro, da ostentação, do business. Não consigo ver nem sentir felicidade em vocês.
Mas eles usufruem das melhores coisas da vida e tem tudo que querem, como não são felizes? Pense nas pessoas próximas a esse perfil que você conhece, que substância tem a vida feliz delas?  
Creio que a vida necessita de um sentido maior e com todo respeito não vejo na posse e no lucro exagerado um sentido digno. Não porque essas pessoas sejam más e desinteressantes, mas porque esse sentido produz toda desigualdade e tristezas sociais e ambientais conhecidas. 
Convivo com pessoas sonhadoras, socialistas, comunistas, democratas e humanistas, que por vezes passam algum tipo de dificuldade material na vida, mas que me passam a sensação de que amam a vida por seus compromissos com os outros e são sustancialmente felizes por isso. Se mostram envolvidos não em projetos pessoais, de carreira, de negócios, mas em projetos coletivos de transformar a realidade tão dura  e desrespeitosa para as maiorias. 
Há humanidades e lealdades que não se compram, há afetos que afetam mais que a obtenção de um bem, há consciências que teimam e não se deixam seduzir por vaidades. Não se trata aqui de não viver os prazeres da vida moderna, de não usufruir dos bens que proporcionam qualidade de vida, mas de ter horizonte maior que isso e de não se contentar só com seu bem-estar. 
Em poucos lugares me senti tão bem como junto de pessoas que nem conhecia, mas que davam aulas para crianças em acampamentos de chão batido e lutavam pela terra. Assim como quando converso com cotistas negros que são os primeiros membros de sua família a fazer ensino superior.  
Prefiro o transbordar das intenções ao transbordar da conta bancária, sou mais da indignação do que da acomodação, viver é um constante se testar, uma infinita busca por coerência. Oscar Niemeyer costuma dizer que vai morrer comunista, muitos o farão, porque o mundo não os deixa outra escolha, e diz isso sem querer saber se você que ta lendo sabe o que significa mesmo ser comunista ou não. Talvez agente saiba só aquilo que nos vendem e como compramos esteriótipos facilmente hoje. 
Há compromissos éticos fundamentais que a ignorância e a ganância não permitem que muitas pessoas desenvolvam. É incompatível com o modo que vivemos o respeito para com a poética de uma tribo que entende o petróleo como o sangue da terra, porque temos que consumi-lo e alguém tem de lucrar com ele. É incompatível com o capitalismo o desenvolvimento de relações mais humanas porque ele depende e se alimenta do sofrimento e da alienação de parte significativa das pessoas. Trata-se de um sistema que engessa o viver, pois não conseguimos estar fora dele hoje, mas não engessa meu pensar e imaginar que é e seguirá sendo anti-capitalista. 

quarta-feira, outubro 24, 2012

OS INFELIZES CÁLCULOS DA FELICIDADE


O homem da história é chamado Julio Novesfora. Noutras falas o mestre Novesfora. Homem bastante matemático, vivendo na quantidade exata  morando sempre no acertado lugar. O mundo, para ele, estava posto em equação de infinito grau. Qualquer situação lhe algebrava o pensamento. Integrais, derivadas, matrizes para tudo existia a devida fórmula. A maior parte das vezes mesmo ele nem incomodava os neurônios:
- É conta que se faz sem cabeça.
Doseava o coração em aplicações regradas, reduzida a paixão ao seu equivalente numérico. Amores, mulheres, filhos tudo isso era hipótese nula. O sentimento, dizia ele, não tem logaritmo. Por isso, nem se justifica a sua equação. Desde menino se abstivera de afetos  Do ponto de vista da álgebra  dizia, a ternura é um absurdo. Como o zero negativo. Vocês vejam, dizia ele aos alunos a erva não se enerva, mesmo sabendo-se acabada em ruminagem de boi. E a cobra morde sem ódio. É só o justo praticar da dentadura injetável dela. Na natureza não se concebe sentimento. Assim, a vida prosseguia e Julio Novesfora era nela um aguarda-factos. Certa vez, porém, o mestre se apaixonou por uma aluna, menina de incorreta idade, toda a gente advertia essa menina é mais que nova, não dá para si.
- Faça as contas mestre.
Mas o mestre já perdera o calculo. Desvalessem os razoáveis conselhos. Ainda mais grave ele perdia o matemático tino. Já nem sabia o abecedário dos números. Seu pensamento perdia as limpezas da lógica. Dizia coisas sem pés. Parecia, naquele caso, se confirmar o lema quanto mais sexo menos nexo. Agora, a razão vinha tarde de mais. O mestre já tinha traçado a hipotenusa à menina. Em folgas e folguedos, Julio Novesfora se afastava dos rigores da geometria. O oito deitado é um infinito. E, assim, o professor ataratonto, relembrava:
- A paixão é o mundo a dividir por zero.
Não questionassem era aquela a sua paixão. Aquilo era um amor idimensional, desses para os quais nem tanto há mar, nem tanto há guerra. Chamaram um seu tio, único familiar que parecia merecer-lhe as autoritárias confianças. O tio lhe aplicou muita sabedoria, doutrinas de por facto e roubar argumento. Mas o matemático resistia:
- Se reparar, tio, é a primeira vez que estou a viver.
Corolariamente, é natural que cometa erros.
- Mas, sobrinho, você sempre foi de calculo. Faça agora contas à sua vida.
- Essa conta tio, não se faz de cabeça. Faz-se de coração.
O professor demonstrava seu axioma, a irresolúvel paixão pela desidosa menina. Tinha experimentado a fruta nessa altura que o Verão ainda está trabalhando nos açucares da polpa. E de tão regalado, arregalava os olhos. Estava com a cabeça lotada daquela arrebitada menina. O tio ainda desfilou avisos não vislumbrava ele o perigo de um desfecho desilusionista? Não sabia ele que toda a mulher saborosa é dissaborosa? Que o amor é falso como um tecto. Cautela, sobrinho, olho por olho, dente prudente. Novesfora, porém, se renitentava, inoxidável  E o tio foi dali para a sua vida. Os namoros prosseguiram. O mestre levava a menina para a margem do mar onde os coqueiros se vergavam, rumorosos, dando um fingimento de frescura.
- Para bem amar não há como ao pé do mar, ditava ele.
A menina só respondia coisas simples, singelices. Que ela gostava do Verão. 
- Do Inverno gosto é para chorar. As lágrimas, no frio, me saem grossas, cheiinhas de água.
A menina falava e o mestre Novesfora ia passeando as mãos pelo corpo dela, mais aplicado que cego lendo braille.
- Vai falando, não pare ­ pedia ele enquanto divertia os dedos pelas secretas humidades da menina. Gostava dessa fingida distração dela, seus atos lhe pareciam menos pecaminosos. Os transeuntes passavam, deitando culpas no velho professor. Aquilo é idade para nenhumas-vergonhas? Outros faziam graça:
- Sexagenário ou sexogenário?
O mestre se desimportava. Recolhia a lição do embondeiro que é grande mas não dá sombra nenhuma. Vontade de festejar deve eclodir antes de acabar o baile. Tanto tempo decorrera em sua vida e tão pouco tempo tivera para viver. Tudo estando ao alcance da felicidade porque motivo se usufruem tão poucas alegrias? Mas o sapo não sonha com charco se alaga nele. E agora que ele tinha a mão na moça é que iria parar? Uma noite, estando ela em seu leito, estranhos receios invadiram o professor essa menina vai fugir, desaparecida como o arco-íris nas traeiras da chuva. Afinal, os outros bem tinham razão chega sempre o momento em que o amendoim se separa da casca. Novesfora nem chegou de entrar no sono, tal lhe doeram as suspeitas do desfecho. Passaram-se os dias. Até que, certa vez, sob a sombra de um coqueiro, se escutaram os acordes de um lamentochão. O professor carpia as já previsíveis mágoas? Foram a ver, munidos de consolos. Encontraram não o professor mas a menina derramada em pranto, mais triste que cego sentado em miradouro. Se aproximaram, lhe tocaram o ombro. O que passara, então? Onde estava o mestre?
- Ele foi, partiu com outra.
Resposta espantável afinal, o professor é que se fora, no embora, sem remédio. E partira como? Se ainda ontem ele aplicava a ventosa naquele lugar? A ditosa namorada respondeu que ele se fora com outra, extranumerária. E que esta seria ainda muito mais nova, estreável como uma manhã de Domingo. Provado o doce do fruto do verde se quer é o sabor da flor. Enquanto a lagrimosa encharcava réstias de palavras os presentes se foram afastando. Se descuidavam do caso, deixando a menina sob a sombra do coqueiro, solitária e sozinha, no cenário de sua imprevista tristeza. Era Inverno, estação preferida por suas lágrimas.

Mia Couto in: Estórias Abensonhadas 

terça-feira, outubro 23, 2012

Da recepção

São doze doses
que adoçam a vida;
oxigênio respira
pelas gêmeas narinas
o cheiro tenro
do tempero.

A pele cede
arrepia enruga
tato barato, rápido;
atrito que soa
canção do chão
som bom, São João.

A íris vê o arco
visão do colorido
a terra, casa do lírio,
tem sede e tom escuro
prata do anel
reflete, Saturno.

Sentidos são vias
os elementos vida
encharcam o peito,
fenômenos naturais
além gramaticais, vão
sem sujeitos na oração!

Gregório Grisa (Título de Aline Lopes)

quarta-feira, outubro 17, 2012

A lei das cotas

Publicado no Correio do Povo de 19/10/2012

A Lei nº 12.711, que criou as Cotas nas universidades federais, regulamentada pelo Decreto nº 7.824, publicado no dia 15 de outubro último no Diário Oficial da União, inaugura nova fase no ensino superior público brasileiro. É uma lei que pretende universalizar uma política afirmativa que tem caráter específico. O desafio será gigantesco.
A lei busca atacar diversos problemas: diferença de qualidade de ensino, racismo, desigualdade econômica, de uma só vez. Para se tornar lei nacional, teve de ganhar esse formato mais abrangente, mas ela carrega aspectos anacrônicos que cada universidade terá de ter criatividade e capacidade de gestão para resolver ao seu modo.
As cotas raciais, por si só, demanda histórica do movimento negro, irão desaparecer nas federais em quatro anos, por outro lado, valorizam-se os estudantes do ensino médio das escolas públicas, que são 88% dos matriculados no país. O critério de renda abre um precedente significativo para fraudes e triplica o trabalho institucional na seleção, mas ataca a exclusão histórica desses jovens do ensino superior. Atender esse critério de renda nas universidades federais do sul do Brasil, isto é, preencher todas as vagas, será difícil no começo, tendo em vista que esse ainda não é o perfil de estudante que se credencia a entrar na UFRGS, por exemplo.
Esse tema, dito controverso, é dos mais didáticos para desconstruirmos alguns falsos juízos que temos sobre justiça, mérito, direitos e oportunidades. Ele expõe o quão fácil naturalizamos desigualdades, tendo em vista a aceitação, por décadas, da escandalosa desigualdade social e étnica do ensino superior brasileiro. As cotas viraram lei e consenso nos três poderes por um tensionamento histórico dos movimentos sociais e um significativo amadurecimento político e humano da sociedade civil.

Gregório Grisa - membro do Grupo Inovação e Avaliação na universidade da UFRGS.

terça-feira, outubro 09, 2012

O porquê do ódio a Chávez


Ele cumpriu a promessa de governar para as maiorias e mostrou que a História não tinha terminado. Por isso (não por seus erros) as oligarquias da Venezuela e de todo o continente latino-americano o detestam… e usam dos meios de comunicação dia e noite para atacá-lo
08/10/2012

Ignacio Ramonet
(ex-diretor do jornal Le Monde Diplomatique)
Jean-Luc Melenchon
(candidato da esquerda nas eleições presidenciais da França)

(Tradução: Daniela Frabasile)

Hugo Chávez é, sem dúvida, o chefe de Estado mais difamado no mundo. Com a aproximação das eleições presidenciais de 7 de outubro, essas difamações tornaram-se cada vez mais infames, em muitos países. Testemunhavam o desespero dos adversários da revolução bolivariana frente à perspectiva de uma nova vitória eleitoral de Chávez.
Um líder político deve ser valorizado por seus atos, não por rumores veiculados contra ele. Os candidatos fazem promessas para ser eleitos: poucos são aqueles que, uma vez no poder, cumprem tais promessas. Desde o início, a proposta eleitoral de Chávez foi muito clara: trabalhar em benefício dos pobres, ou seja – naquele momento – a maioria dos venezuelanos. E cumpriu sua palavra.
Por isso, este é o momento de recordar o que estava verdadeiramente em jogo nesta eleição. A Venezuela é um país muito rico, pelos fabulosos tesouros de seu subsolo, em particular o petróleo. Mas quase toda essa riqueza estava nas mãos da elite política e das empresas transnacionais. Até 1999, o povo só recebia migalhas. Os governos que se alternavam, social-democratas ou democrata-cristãos, corruptos e submetidos aos mercados, privatizavam indiscriminadamente. Mais da metade dos venezuelanos vivia abaixo da linha de pobreza (70,8% em 1996).
Chávez fez a vontade política prevalecer. Domesticou os mercados, deteve a ofensiva neoliberal e posteriormente, graças ao envolvimento popular, fez o Estado se reapropriar dos setores estratégicos da economia. Recuperou a soberania nacional. E com ela, avançou na redistribuição da riqueza, a favor dos serviços públicos e dos esquecidos. Políticas sociais, investimento público, nacionalizações, reforma agrária, quase pleno-emprego, salário mínimo, imperativos ecológicos, acesso à moradia, direito à saúde, à educação, à aposentadoria… Chávez também se dedicou à construção de um Estado moderno. Colocou em marcha uma ambiciosa política de planejamento do uso do território: estradas, ferrovias, portos, represas, gasodutos, oleodutos.
Na política externa, apostou na integração latino-americana e privilegiou os eixos Sul-Sul, ao mesmo tempo que impunha aos Estados Unidos uma relação baseada no respeito mútuo… O impulso da Venezuela desencadeou uma verdadeira onda de revoluções progressistas na América Latina, convertendo este continente em um exemplo de resistência das esquerdas frente aos estragos causados pelo neoliberalismo.
Tal furacão de mudanças inverteu as estruturas tradicionais do poder e trouxe a refundação de uma sociedade que até então havia sido hierárquica, vertical e elitista. Isso só podia desencadear o ódio das classes dominantes, convencidas de serem donas legítimas do país. São essas classes burguesas que, com seus amigos protetores e Washington, vivem financiando as grandes campanhas de difamação contra Chávez. Até chegaram a organizar – junto com os grandes meios de comunicação lhes que pertencem – um golpe de Estado, em 11 de abril de 2002.
Estas campanhas continuam hoje em dia e certos setores políticos e midiáticos encarregam-se de fazer coro com elas. Assumindo – lamentavelmente – a repetição de pontos de vista como se demonstrasse que estão corretos, as mentes simples acabam acreditando que Hugo Chávez estaria implantando um “regime ditatorial no qual não há liberdade de expressão”.
Mas os fatos são teimosos. Alguém viu um “regime ditatorial” estender os limites da democracia em vez de restringi-los? E conceder o direito de voto a milhões de pessoas até então excluídas? As eleições na Venezuela só aconteciam a cada quatro anos, Chávez organizou mais de uma por ano (14, em treze anos), em condições de legalidade democrática, reconhecidas pela ONU, pela União Europeia, pela OEA, pelo Centro Carter, etc. Chávez demonstrou que é possível construir o socialismo em liberdade e democracia. E ainda converte esse caráter democrático em uma condição para o processo de transformação social. Chávez provou seu respeito à vontade do povo, abandonando uma reforma constitucional rejeitada pelos eleitores em um referendo em 2007. Não é por acaso que a Fundação para o Avanço Democrático [Foundation for Democratic Advancement] (FDA), do Canadá, em um estudo publicado em 2011, colocou a Venezuela em primeiro lugar na lista dos paí­ses que respeitam a justiça eleitoral.
O governo de Hugo Chávez dedica 43,2% do orçamento a políticas sociais. Resultado: a taxa de mortalidade infantil caiu pela metade. O analfabetismo foi erradicado. O número de professores, multiplicado por cinco (de 65 mil a 350 mil). O país apresenta o maior corficiente de Gini (que mede a desigualdade) da América Latina. Em um informe em janeiro de 2012, a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal, uma agência da ONU) estabelece que a Venezuela é o país sul-americano que alcançou (junto com o Equador), entre 1996 e 2010, a maior redução da taxa de pobreza. Finalmente, o instituto estadunidense de pesquisa Gallup coloca o país de Hugo Chávez como a sexta nação “mais feliz do mundo”.
O mais escandaloso, na atual campanha difamatória, é a pretenção de que a liberdade de expressão esteja restrita na Venezuela. A verdade é que o setor privado, contrário a Chávez, controla amplamente os meios de comunicação. Qualquer um pode comprovar isso. De 111 canais de televisão, 61 são privados, 37 comunitários e 13 públicos. Com a particularidade de que a parte da audiência dos canais públicos não passa de 5,4%, enquanto a dos canais privados supera 61%… O mesmo cenário repete-se nos meios radiofônicos. E 80% da imprensa escrita está nas mãos da oposição, sendo que os jornais diários mais influentes – El Universal e El Nacional – são abertamente contrários ao governo.
Nada é perfeito, naturalmente, na Venezuela bolivariana – e onde existe um regime perfeito? Mas nada justifica essas campanhas de mentiras e ódio. A nova Venezuela é a ponta da lança da onda democrática que, na América Latina, varreu os regimes oligárquicos de nove países, logo depois da queda do Muro de Berlim, quando alguns previram o “fim da história” e o “choque de civilizações” como únicos horizontes para a humanidade.
A Venezuela bolivariana é uma fonte de inspiração da qual nos nutrimos, sem fechar os olhos e sem inocência. Com orgulho, no entanto, de estar do lado bom da barricada e de rerservar nossos ataques ao poder imperial dos Estados Unidos, seus aliados do Oriente Médio, tão firmemente protegidos, e qualquer situação onde reinem o dinheiro e os privilégios. Por que Chávez desperta tanto rancor em seus adversários? Sem dúvida, porque, assim como fez Bolívar, soube emancipar seu povo da resignação. E abrir o apetite pelo impossível. 
O povo venezuelano deu o troco, mais de 80% do eleitorado votou.  Um fato inédito na história do país e das eleições em países latino-americanos.  E 55% deles deram mais seis anos ao presidente Chávez.
Fonte: Brasil de Fato

segunda-feira, outubro 08, 2012

Brevemente sobre as eleições:

Em Alegrete não há representação política de esquerda. A composição da câmara de vereadores se deu, em geral, do voto fruto do clientelismo e do assistencialismo rústicos, além dos votos dos currais eleitorais da administração e os votos da pseudoirreverência tradicionalista.

Em Porto Alegre se elegeram dois vereadores de esquerda, Pedro Ruas e a amiga Fernanda Melchionna que receberam significativa votação e reconhecimento. Crescimento do Psol no país é o único elemento positivo das eleições, momento esse que considero apenas mais um no processo de luta social e que não muda substancialmente a realidade (como muitos creem) haja vista, seus resultados.

Os dois projetos hegemônicos vencedores nas prefeituras estão no rumo do país, do desenvolvimentismo, do crescimento econômico combinado a especulação financeira, mas gozam de estruturas políticas e financeiras privilegiadas. Esses fenômenos produzem uma anestesia e comoção na população que, por conseguinte, transforma isso em voto.

Em Alegrete não existia projeto a altura da gestão atual, só o de retrocesso da direita oligárquica. Em Porto Alegre existia representação de esquerda ainda sem alcance eleitoral e as outras candidaturas eram da base do governo estadual e federal e pouco mudariam em relação a gestão Fortunati que infelizmente se reelegeu, tendo em vista que reuni todo conservadorismo e proselitismo da cidade em sua aliança.

As eleições de ontem confirmam, de modo categórico, que o processo eleitoral no Brasil é um negócio econômico promíscuo, que cultiva interesses pessoais imediatos, tanto dos candidatos quanto dos eleitores. Esse processo decorre majoritariamente pautado pelas trocas de favores e busca de cargos e não caminha na busca da melhoria da qualificação política, teórica e ética das representações políticas. A "festa da democracia" é a festa de poucos que compram e convencem a maioria que esse é o único momento de participação política, e mais que isso, convencem que ser político é lembrar do aniversário das pessoas e arrumar um favor pra família ou para o bairro.

terça-feira, outubro 02, 2012

Aos educadores da vida

Toda profissão que envolva educação teria de ter como prioridade, prática e teórica, o lúdico, a imaginação, a esperança e a poesia. O ato de trabalhar deveria ser produto e produtor da criatividade, as experiências pedagógicas não deveriam descartar a intuição. Porém, o positivismo nos herdou uma noção de ciência em que a seriedade vence o humor, em que a objetividade é mais importante que as descobertas processuais e que a imparcialidade é possível. Ilusões!
A ética utilitarista que norteia a lógica contemporânea faz com que o trabalho docente seja de gestão, de produção, de adequação institucional e enquadramento metodológico. Como esse trabalho pode ser prazeroso? Como desenvolver conhecimento crendo que só há uma via para isso, no caso a razão pura e condicionada? Somos corpos eróticos, imagéticos e ansiosos. Os prazos da escola e da academia são os mesmo para sujeitos com tempos distintos. 
Quando vivemos em uma sociedade em que a aposentadoria é tida como redenção, é o momento de pararmos para pensar no tipo de trabalho que estamos fazendo. Quando se trabalha forçado, para um chefe, para ter dinheiro, para se manter ou para acumular sem sentido e não há nenhum prazer no que se faz, há algo errado.
Imagine que lógica absurda sofrer uma vida toda para chegar à "salvação" da aposentadoria no fim da trajetória e considerar isso o encontro com a felicidade. Uma sociabilidade sadia em um mundo diferente teria a aposentadoria como uma mudança de estágio quase não desejada, haja vista, que os sujeitos têm no seu fazer o sentido da sua vida. O magistério hoje é um lugar de sofrimento para muitas pessoas. 
O educador considerado bom hoje é aquele que cumpre metas, é produtivo, administra os estudantes com suas técnicas. Desafio que alguém me mostre aspectos prazerosos nesse ofício. Somos convencidos sistematicamente que nossa ferramenta, a palavra, não muda as estruturas sociais. Essa descrença desgasta, desestimula e faz com que se considere, erroneamente, educador de sucesso àquele mais colonizado e cerceador. 
A ciência dura e burocratizada quer que entendamos o mundo e suas relações de longe, quase de fora, na busca da vã neutralidade. As relações se dão na linguagem e na memória, essas dimensões são o recheio da vida e não existem sem o papel do educador e sua palavra. 
Ter a coragem de dizer, de escrever e de se rebelar são atos de coerência pedagógica, Rubem Alves diz que não devemos formar professores, mas sim acordá-los, para que percebam qual ideologia tem e/ou reproduzem e se ela está de acordo com o que querem e acreditam para a vida. Somos nossos dizeres e nos alimentamos com os dizeres alheios, é a palavra que azeita a engrenagem das relações humanas, portanto, que não se caia na falácia de que ela não muda nada porque nada se muda sem ela. 
É na e pela palavra que dou o melhor de mim, por isso, por uma questão existencial, tenho que crer que ela pode melhorar o mundo e as pessoas.

Gregório Grisa 



terça-feira, setembro 25, 2012

Necessárias indagações

As eleições são momentos de nos fazermos algumas perguntas como cidadãos. Qual é o nosso entendimento sobre a representatividade política? Será que o modo como escolhemos nossos legisladores é o mais adequado? Somos sérios ao aceitar que os candidatos tenham na busca do mandato um projeto pessoal para ganhar um salário melhor ou para defender estritamente interesses do seguimento que o financiou e o elegeu? Quando naturalizamos a compra de votos como prática histórica e normal, não estaríamos nós sendo cúmplices de uma lógica que leva ao poder pessoas que não terão posturas dignas de assegurar isonomia e o interesse público nos processos políticos?
É o nosso entendimento coletivo do que significa um vereador ou deputado que está enviesado, qual o papel de um agente público, quais premissas e qualificações esse cidadão deve ter, são questões que não estamos respondendo bem. Será que ser uma pessoa simpática, um sujeito engraçado, um profissional atencioso, ser famosos ou ter herança política familiar, são características que credenciam alguém a ser um agente público que fará do seu mandato um espaço para as reais demandas da maioria da população? Há maturidade representativa nas câmaras municipais quando as características mencionadas acima são as que determinam quais pessoas se elegerão?
Como esperar dos políticos eleitos por essa lógica que eles garantam qualquer mudança nesse modo de fazer política? Como imaginar que esses irão construir nas casas legislativas espaços para se desenvolver uma nova sociedade, sendo que é exatamente a não construção desses espaços que os mantem nos seus cargos? Qual o espaço significativo que há nas câmaras municipais para que os interesses coletivos sejam debatidos com frequência? 
Enquanto nossos interesses pessoais imediatos, restritos a ganhos materiais ou simbólicos efêmeros conduzirem nosso jeito de estar no mundo, de votar e fazer escolhas podemos nós cobrar dos políticos outra lógica ou postura? A democracia representativa brasileira ainda é muito frágil e incentiva através de suas dinâmicas a perpetuação no poder de grupos políticos que operam pela lógica aqui criticada.

Gregório Grisa - Pedagogo, doutorando em Educação na UFRGS.

Até quando vamos endeusar a revolução farroupilha?


Por Juremir Machado em seu blog
Até quando?
Todo os anos eu me pergunto: até quando?
Sim, até quando teremos de mentir ou omitir para não incomodar os poderosos individuais ou coletivos?
Até quando teremos que tapar o sol com a peneira para não ferir as suscetibilidades dos que homenageiam anualmente uma “revolução” que desconhecem? Até quando teremos de aliviar as críticas para não ofender os que, por não terem estudado História, acreditam que os farroupilhas foram idealistas, abolicionistas e republicanos desde sempre? Até quando teremos de fazer de conta que há dúvidas consistentes sobre a terrível traição aos negros em Porongos? Até quando teremos de justificar o horror com o argumento simplório de que eram os valores da época? Valores da traição, do escravismo, da infâmia?
Até quando fingiremos não saber que outros líderes – La Fayette, Bolívar, Rivera – outros países – Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia – e outras rebeliões brasileiras – A Balaiada, no Maranhão, por exemplo – foram mais progressistas e, contrariando “valores” da época, ousaram ir aonde os farroupilhas não foram por impossibilidade ideológica? Até quando a mídia terá de adular o conservadorismo e a ignorância para fidelizar sua “audiência”?
Até quando deixaremos de falar que milhões de homens sempre souberam da infâmia da escravidão? Os escravos. Até quando minimizaremos o fato de que a Farroupilha, com seu lema de “liberdade, igualdade e humanidade”, vendeu negros para se financiar? Até quando deixaremos de enfatizar que os farrapos prometiam liberdade aos negros dos adversários, mas não libertaram os seus? Até quando daremos pouca importância ao fato de que a Constituição farroupilha não previa a libertação dos escravos? Até quando deixaremos de contar em todas as escolas que Bento Gonçalves ao morrer, apenas dois anos depois do fim da guerra civil, deixou mais de 50 escravos aos seus herdeiros? Até quando?
Até quando?
Até quando adularemos os admiradores de um passado que não existiu somente porque as pessoas precisam de mitos e de razões para passar o tempo, reunir-se e vibrar em comum? Até quando os folcloristas sufocarão os historiadores? Até quando o mito falará mais alto do que a História? Até quando não se dirá nos jornais que os farroupilhas foram indenizados pelo Império com verbas secretas? Que brigaram pelo dinheiro? Que houve muita corrupção? Que Bento Gonçalves e Neto não eram republicanos quando começaram a rebelião? Que houve degola, sequestros, apropriação de bens alheios, execuções sumárias, saques, desvio de dinheiro, estupros, divisões internas por causa de tudo isso e processos judiciais?
Até quando, em nome de uma mitologia da identidade, teremos medo de desafiar os cultivadores da ilusão? Até quando historiadores como Décio Freitas, Mário Maestri, Sandra Pesavento, Tau Golin, Jorge Eusébio Assumpção, Spencer Leitman e tantos outros serão marginalizados? Até quando nossas crianças serão doutrinadas com cartilhas contando só meias verdades?
Até quando a rebelião dos proprietários será apresentada como uma revolução de todos? Até quando mentiremos para nós mesmos? Até quando precisaremos nos alimentar dessa ilusão?
Até quando viveremos assim?

segunda-feira, setembro 24, 2012

Desimportâncias

Sempre é agora
o presente é que é o presente
a lembrança e a esperança
são balsas que nos levam
tanto ao passado como ao futuro
sem nos tirar de hoje.

Tratar do tempo é pra quem
está sadiamente desatento;
dedicar o agora à isso
é optar por não desperdiçá-lo
com repetidas seriedades,
como faz aquele que
encara o presente como um fardo.

gregorio grisa

terça-feira, setembro 18, 2012

Demais

Passado o presente é a vez
do então, do agora de vocês
só conto os segredos que não sei
mistério é também o que mantém

Encara e vai pagar pra ver
não deixe passar a chance de ter
histórias reais razão de viver
motivo que faz o pulso 'correr'
demais.

Olha que coragem o medo tem
pedir só pra falar quando convém
diz da tempestade que pode vir
sem saber se o vento me faz feliz.
----------


Capo na 6° casa:
G - Em9 - C - D
R: C - G - Am - D =  C - G - D
B7

terça-feira, setembro 11, 2012

A lista


Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?
Música de Oswaldo Montenegro, vídeo no link http://www.youtube.com/watch?v=2cfvBNnL0o4

segunda-feira, setembro 10, 2012

Novas regras

se torna obrigatório a partir desta data que todos:

tenham medo bom, isto é, multipliquem seus frios na barriga;
sintam cheiro de terra molhada
acordem de ressaca;
tomem limonadas;
vejam pelo menos um Almodôvar e um Wood Allen;
tenham câimbras;
passem frio com os pés no mar olhando-o em um fim de tarde;
durmam em uma rede;
falem sozinhos olhando no espelho;
ouçam Bach, Chico e Beatles;
chorem em filmes, séries e afins;
viagem sem ter planejado;
leiam um livro do Mia Couto e poemas do Mário Quintana
lutem por algo cada vez mais claro e concreto que dê sentido a vida;
errem e perdoem gostando,
estudem e ousem amando
correndo assim, bem devagarinho.



domingo, setembro 09, 2012

Paradoxos da educação



Por Juremir Machado da Silva

O tema da educação está na ordem do dia. De repente, o Rio Grande do Sul, sempre tão disposto a recomendar as suas façanhas ao restante do mundo, descobriu-se na traseira do rendimento escolar. Os defensores dos métodos antigos saíram a campo. Querem autoridade, memorização, cobrança, muita reprovação e enquadramento. Ah, como sentem saudades da palmatória, do grão de milho, da decoreba, do latim e da disciplina. O futuro estaria no passado. Um tempo de grande qualidade, que só existiu para poucos, voltou a ser a referência. Os mesmos que condenavam qualquer reivindicação do magistério passaram a falar até em salários melhores. Em qualquer profissão para se ter os melhores é preciso pagar os melhores salários. Exceto no magistério. Os mestres deveriam ser abnegados, missionários, salvadores da pátria, heróis.

A meritocracia, segundo autodenominados especialistas, surge como a salvação da lavoura. Fixar metas como num banco. Não chegou lá, dança. Se tiver êxito, ganha mais. Agora, mais para todo mundo quebra os cofres públicos. Logo, bom professor deve ter paciência, sabedoria, equilíbrio, ponderação, sensatez, ou seja, aceitar ser mais cobrado, ter de correr atrás de metas, continuar ganhando pouco, sonhando com um pouco mais e dando o couro para que a educação seja um sucesso. Os autodenominados especialistas garantem que salário não é tudo, embora no caso deles seja. O paradoxo do magistério, não canso de repetir, é a relação número/qualidade/remuneração. Como os professores são muitos, os recursos são poucos e a qualidade deve ser melhorada, só lhes resta fazer muito mais por um promessa de menos que nada. A educação não é, de fato, prioridade.

O erro mais grave é imaginar que se pode aplicar à educação critérios de desempenho que funcionam mal em instituições financeiras e em empresas que se acham muito modernas, mas que, quando quebram, não assumem o fracasso nem o justificam, preferindo pedir socorro ao Estado que sempre condenam por incompetência. Os verdadeiros estudiosos do assunto sabem que o buraco é muito mais embaixo, a começar por: como ensinar? O que ensinar? No vestibular da Ufrgs, uma das leituras obrigatórios é um livro de Cristóvão Tezza. Por que mesmo para entrar na faculdade de Medicina ou de Engenharia Civil um jovem devem saber quem é Cristóvão Tezza? Poderia ser qualquer outro. Qual o critério de definição? Os conteúdos não caem do céu, não saltam prontos da natureza, não se impõem como leis naturais. São construções de um tempo.

Uma boa utopia capaz de revolucionar a educação seria esta: nenhum professor municipal ganhará menos do que um vereador. Nenhum professor estadual ganhará menos do que um deputado. Se não for competente, com um salário assim, será exonerado. O mesmo valendo para vereadores e deputados. Demagogia? Demagogia é pedir a professores que sejam os melhores com os piores salários. Qualquer ascensorista de assembleia legislativa ganha mais. Servidor de cafezinho no Senado é magnata perto de professor. Método Django: paguem primeiro, cobrem depois.